Brasil e Venezuela: por que devemos ir além da ideologia

A crise venezuelana está expondo a fragilidade da agenda internacional brasileira, que deixou de apresentar uma política externa coerente e que traga resultados. De líderes da América do Sul, passamos a "meninos de recados".

A crise política venezuelana vem andando a passos largos. Já tive a oportunidade de falar um pouco sobre o papel da sociedade internacional no artigo Venezuela: o próximo Iraque da América Latina? Mas a questão continua se aprofundando de forma negativa.

O foco deste artigo é o papel do Brasil diante do conflito, ou melhor, o não-papel, já que nossa política externa diante desta crise tem se demonstrado contrária à tradição do país e com resultados ruins.

Num rápido resgate da tradição da política externa brasileira, desde seus primórdios nos pautamos pelos princípios da não-intervenção em assuntos domésticos e pelo encaminhamento multilateral das questões. Ao lembrar disto não estou dizendo que a tradição é sempre boa, mas deve ter uma razão de existir.

Não podemos nos esquecer que o Brasil também apresenta fragilidades institucionais, bem como um país grande o bastante para não conseguirmos controlar tudo. Ao defendermos intervenções unilaterais e pautadas em leituras ideológicas, mais do que na base legal dos países e internacionais, estamos abrindo espaço para que a qualquer momento também sejamos alvos. E se a comunidade internacional (ou parte dela) amanhã acreditar que o presidente Jair Bolsonaro não é bom para o país, que tem reprimido sua população com políticas inadequadas, poderá também ser removido do cargo e algum oposicionista lançado à presidência? Não nos iludamos que a diferença aqui está muito mais no espectro político-ideológico (esquerda ou direita) do que na legalidade das ações.

Outra mudança importante que vemos neste caso é que o Brasil abandonou sua relevância na região, para se tornar um seguidor. Enquanto antes nos preocupávamos em mostrar que na América do Sul o país responsável pela manutenção do equilíbrio eramos nós, agora estamos seguindo o que outros fizeram, e que nos tiram qualquer protagonismo. Recusar o reconhecimento ao presidente Nicolás Maduro e apoiar Juan Guaidó apenas tumultua ainda mais o já conturbado contexto político e social da Venezuela.

O Brasil, ao não demandar seu papel de mediador do conflito, abre mão também de influenciar num processo que pode gerar diversos prejuízos ao país. Não podemos nos esquecer que somos vizinhos da Venezuela, que o aumento da tensão social ou mesmo o estouro de uma guerra civil, levará a um aumento repentino e intenso de migrações. Se hoje já não nos mostramos capazes de lidar com o atual fluxo, o que faremos num estouro? fecharemos as fronteiras e nos mostraremos ao mundo como um país que não consegue nem respeitar a Humanidade?

E não se trata apenas do Brasil, outros países da região também serão afetados e poderão causar instabilidades e tensões diplomáticas. Qual o plano caso alguns países da região apoiarem os movimentos migratórios e outros não? Ficaremos calados resolvendo nossos problemas internos e ignorando nossa relevância na região?

Assumir o papel de mediador não é defender de antemão um ou outro candidato, mas sim uma forma legal de encaminhar a questão. Criar condições para que possamos apoiar a ambos os lados, é esse o papel de um mediador. Ainda que o governo brasileiro tenha alguma preferência política, devemos construir condições para que ambos os lados cheguem a um acordo.

Nós somos os responsáveis pela criação daquilo que é chamado de golden bridge em técnicas de negociação, ou seja, se as partes não têm um acordo possível no horizonte, cabe a nós construirmos uma ponte de ouro, um território que possa atrair a atenção das partes e que resulte em deixa-las mais próximas.

Já passou da hora de o governo brasileiro deixar de lado a ideologia superficial de acreditar que um lado é certo e o outro errado. O que precisamos agora é recuperar o papel que tantas vezes exercemos, de um país moderado, ponderador e capaz de construir pontes. Assim, não só ajudaremos verdadeiramente a sociedade venezuelana, mas também seremos capazes de mostrar ao mundo que estamos prontos para ser uma potência regional.

PÓS ESCRITO

Este artigo foi escrito no dia 20/02/2019 e destacava a possibilidade de escalada na violência. Hoje, dia 22/2/2019 ao menos duas pessoas morreram na fronteira do Brasil com a Venezuela em função de confrontos entre as forças de segurança do presidente Nicolás Maduro e comunidades indígenas que demandavam a entrada de ajudas enviadas pelo Brasil. Como já dito, não se trata apenas de uma crise interna que seria resolvida pela simples troca de presidentes, mas de uma questão estrutural mais complexa.

Rodrigo Cintra
Pós-Doutor em Competitividade Territorial e Indústrias Criativas, pelo Dinâmia – Centro de Estudos da Mudança Socioeconómica, do Instituto Superior de Ciencias do Trabalho e da Empresa (ISCTE, Lisboa, Portugal). Doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (2007), Mestre em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (2001) e Bacharel em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1998). Atualmente é Coordenador do curso de graduação em Relações Internacionais e da Pós em Negócios Internacionais da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), além do gestor da Diretoria de Internacionalização.