Política Externa brasileira, um caso sem propósito

O governo Bolsonaro tem dados constantes sinais de que sua política externa está mais ligada aos Estados Unidos do que a outras regiões. Não é a primeira vez que isso ocorre na história brasileira, mas nem por isso uma escolha dessas deve ser feita apenas por crenças, como está se mostrando ser o caso.

A política externa é apenas mais uma forma que um país tem de se relacionar com outros, como também o são a paradiplomacia, a cooperação descentralizada e os movimentos transnacionais. O que caracteriza a política externa é justamente o seu controle centralizado e razoavelmente controlado, o que permite que se transforme numa política de Estado.

Na medida em que a política externa é uma forma de se relacionar, a próxima questão que vem é qual relacionamento queremos e por que queremos. Classicamente as relações internacionais são concebidas como o binômio guerra-paz. Assim, as relações entre os países variam entre estes dois extremos e neste eixo que devemos compreender o porquê das ações de política externa.

No caso brasileiro, historicamente a nossa política externa este ao serviço da busca pelo desenvolvimento do país, especialmente no que se refere à dimensão econômica. Nós nos aproximávamos ou nos afastávamos de países baseando-se na nossa busca por esse desenvolvimento. Ou seja, ainda que houvesse mudanças ideológicas nos governos, a política externa continuava relativamente estável. Os afastamentos e aproximações se davam mais pelas mudanças do sistema internacional que propriamente pela mudança interna de vontades de governos.

Nas últimas décadas o que vinha marcando a política externa brasileira era a tentativa do país em ocupar um lugar mais amplo no sistema internacional, se posicionando como um global player. Assim, nos aproximamos da Europa, da América Latina, da América do Norte e da África com especial intensidade, e das demais regiões de uma forma mais amena. Esse tipo de comportamento nos permite aproveitar mais oportunidades.

O que vemos no governo Bolsonaro vai no sentido oposto. A aproximação com os Estados Unidos não é ruim em si mesma, trata-se de um país muito importante no mundo, com poderio militar, político, cultura e econômico gigantesco.

Poderíamos ganhar muito com a aproximação, desde que fosse algo efetivamente calculado. Teríamos que ter um propósito nesta escolha, sobretudo na medida em que ela implica em uma série de recusas.  Ao gastarmos nossos limitados recursos de política externa primordialmente em uma relação, reduzimos a intensidade de outas. Isso é válido em alguns momentos e já foram implementados na política externa brasileira. A questão agora é qual resultado queremos?

Neste caso o problema não está apenas na política externa, está na incapacidade do atual governo em mostrar claramente qual o projeto que está buscando. Como uma política de Estado, a política externa é parte de um todo maior, de um projeto de desenvolvimento do país.

Até o momento, as indicações que o governo Bolsonaro dá para justificar sua aproximação (com potencial alinhamento) com os Estados Unidos tem se mostrado superficial e não se refere a qualquer projeto maior. Por questões ideológicas mais rasas e possível convergência cognitiva entre os presidentes há a indicação desta aproximação. A indicação do filho do presidente para o cargo de Embaixador do Brasil nos Estados Unidos é apenas mais um elemento que mostra a superficialidade com que está sendo tratada esta política de Estado.

O problema aqui não são os Estados Unidos nem o alinhamento, mas a falta de propósito.

Rodrigo Cintra
Pós-Doutor em Competitividade Territorial e Indústrias Criativas, pelo Dinâmia – Centro de Estudos da Mudança Socioeconómica, do Instituto Superior de Ciencias do Trabalho e da Empresa (ISCTE, Lisboa, Portugal). Doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (2007), Mestre em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (2001) e Bacharel em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1998). Atualmente é Coordenador do curso de graduação em Relações Internacionais e da Pós em Negócios Internacionais da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), além do gestor da Diretoria de Internacionalização.