
Durante os últimos dois séculos, grande parte da humanidade passou a viver sob a influência de uma concepção de sociedade construída a partir da experiência histórica europeia. A ideia de que o indivíduo possui direitos anteriores ao Estado, de que a liberdade constitui um valor fundamental e de que o progresso resulta da capacidade humana de transformar racionalmente a realidade tornou-se uma referência para a organização política e econômica de numerosos países. A ascensão da China como potência global introduz uma questão que ultrapassa a disputa por mercados ou influência diplomática. Pela primeira vez na história contemporânea, uma civilização formada a partir de tradições filosóficas distintas daquelas que sustentaram a modernidade ocidental reúne condições materiais para influenciar profundamente a maneira como o mundo compreende a relação entre indivíduo e sociedade, liberdade e responsabilidade, autoridade e legitimidade. O que está em discussão é a possibilidade de que os valores considerados universais durante a predominância ocidental passem a conviver com outras concepções sobre o que constitui uma sociedade desejável.
Para compreender a profundidade dessa transformação, é necessário reconhecer que aquilo que chamamos de Ocidente representa uma construção histórica relativamente recente. Embora suas referências intelectuais remontem à filosofia grega, ao direito romano e à tradição cristã, foi sobretudo a partir do Iluminismo que se consolidou uma visão particular sobre a posição do ser humano na sociedade. O pensamento iluminista atribuiu à razão individual a capacidade de questionar a tradição e estabelecer critérios de legitimidade para o exercício do poder. A autoridade política deixou progressivamente de encontrar sua justificação exclusiva na religião, na hereditariedade ou nos costumes, passando a depender de fundamentos que pudessem ser racionalmente discutidos. O indivíduo tornou-se, ao menos no plano normativo, a unidade fundamental da organização social.
A transformação produziu consequências profundas. A liberdade de consciência passou a ser entendida como condição necessária para a autonomia humana. A igualdade perante a lei estabeleceu um princípio que permitiria questionar privilégios herdados. A propriedade privada recebeu proteção jurídica, enquanto a representação política abriu caminho para que o exercício do poder fosse submetido a mecanismos de consentimento e controle. O desenvolvimento dessas instituições ocorreu de maneira desigual e frequentemente contraditória. As sociedades que proclamavam a liberdade também praticavam a escravidão e o colonialismo. A igualdade jurídica conviveu durante muito tempo com a exclusão política das mulheres e das populações mais pobres. Entretanto, a importância histórica dos princípios iluministas reside também no fato de terem oferecido instrumentos intelectuais para contestar as próprias contradições das sociedades que os adotaram.
A concepção ocidental de liberdade está profundamente associada à ideia de autonomia. O indivíduo deve possuir um espaço de existência protegido contra interferências arbitrárias do Estado e de outros membros da sociedade. A liberdade de expressão, a escolha religiosa e a possibilidade de construir projetos pessoais distintos daqueles valorizados pela comunidade derivam dessa compreensão. A legitimidade das instituições depende, em parte, de sua capacidade de preservar tal autonomia, mesmo quando as escolhas individuais contrariam preferências majoritárias. O conflito entre interesses particulares e coletivos é reconhecido como uma característica permanente da vida social, razão pela qual a organização política procura estabelecer procedimentos para administrá-lo.
Essa valorização do indivíduo também influenciou a maneira como as sociedades ocidentais passaram a compreender o sucesso e a realização pessoal. A mobilidade social, a escolha profissional e a independência econômica foram progressivamente incorporadas à ideia de uma vida bem-sucedida. A família e a comunidade permaneceram relevantes, mas perderam parte de sua capacidade de determinar antecipadamente os caminhos individuais. A possibilidade de romper com expectativas familiares ou tradições culturais passou a ser considerada uma expressão legítima de liberdade. A identidade pessoal tornou-se, em grande medida, um projeto que cada indivíduo pode construir ao longo da existência.
Na tradição chinesa, a relação entre indivíduo e sociedade desenvolveu-se a partir de fundamentos diferentes. O pensamento de Confúcio, elaborado muitos séculos antes do Iluminismo europeu, atribuiu grande importância à qualidade das relações humanas e ao cumprimento das responsabilidades associadas à posição ocupada por cada pessoa. O indivíduo não era compreendido como uma entidade isolada, cuja liberdade deveria ser protegida prioritariamente contra as exigências da coletividade. Sua existência adquiria significado dentro de uma rede de relações familiares e sociais, na qual o comportamento adequado contribuía para preservar a harmonia do conjunto. A formação moral estava associada ao aprendizado das responsabilidades recíprocas e ao aperfeiçoamento contínuo do caráter.
A família ocupa uma posição central nessa tradição. O respeito aos pais e aos antepassados expressa uma compreensão da existência humana marcada pela continuidade entre gerações. A pessoa reconhece que sua trajetória está vinculada aos esforços daqueles que a precederam e às responsabilidades que possui em relação aos que virão depois. A autonomia individual não desaparece, mas encontra limites morais na preservação dos vínculos familiares e na consideração pelas consequências coletivas das escolhas pessoais. A decisão sobre uma carreira profissional, por exemplo, pode envolver expectativas familiares que, em sociedades ocidentais contemporâneas, seriam frequentemente interpretadas como interferências indevidas na liberdade individual.
Seria equivocado, entretanto, reduzir a tradição chinesa ao confucionismo ou imaginar que as sociedades orientais compartilham uma única concepção cultural. O taoismo desenvolveu uma compreensão da existência que valoriza a espontaneidade e a adequação às transformações naturais, frequentemente desconfiando da intervenção excessiva sobre a realidade. O budismo introduziu reflexões sobre o sofrimento e a natureza transitória da identidade individual. A experiência chinesa também foi profundamente transformada pelo pensamento revolucionário marxista e pela modernização econômica. A China contemporânea resulta da interação entre tradições filosóficas antigas, instituições socialistas e práticas econômicas desenvolvidas em contato intenso com o capitalismo internacional. Sua cultura política atual não pode ser interpretada como simples continuidade de uma civilização milenar.
Uma diferença particularmente importante aparece na compreensão da autoridade. Na tradição liberal ocidental, a legitimidade do poder político está associada à existência de regras que limitam seu exercício e permitem sua contestação. A separação de poderes, a liberdade de imprensa e a competição eleitoral procuram reduzir os riscos decorrentes da concentração de autoridade. O governante deve submeter-se a instituições que não dependam exclusivamente de sua vontade. O conflito político é considerado legítimo, desde que organizado por procedimentos capazes de preservar a continuidade institucional.
Na tradição confuciana, a qualidade moral e a competência do governante ocupam posição relevante na avaliação da autoridade. O exercício do poder envolve uma responsabilidade de promover o bem-estar coletivo e preservar a estabilidade social. A ideia de que os dirigentes devem possuir formação adequada e capacidade para administrar os assuntos públicos contribuiu historicamente para valorizar a seleção de funcionários por exames e critérios de conhecimento. Embora os sistemas imperiais chineses estivessem longe de assegurar igualdade efetiva de oportunidades, consolidaram uma tradição administrativa na qual a preparação intelectual representava um elemento importante de legitimação.
A China contemporânea recupera seletivamente alguns desses princípios ao atribuir grande importância à capacidade administrativa e aos resultados produzidos pelas políticas públicas. O desenvolvimento econômico, a redução da pobreza e a construção de infraestrutura desempenham papel relevante na narrativa de legitimidade do Estado. A autoridade política procura justificar-se também pela capacidade de oferecer segurança material e perspectivas de melhoria das condições de vida. Entretanto, a associação entre competência administrativa e legitimidade apresenta uma dificuldade fundamental: a avaliação dos resultados e a definição dos objetivos coletivos permanecem fortemente condicionadas pela estrutura de poder do Partido Comunista Chinês. A ausência de competição política nacional aberta limita a possibilidade de substituir os dirigentes por meio de mecanismos eleitorais semelhantes aos das democracias liberais.
A diferença revela duas maneiras de compreender a relação entre governo e sociedade. Na concepção liberal, mesmo um governo considerado eficiente deve estar sujeito à contestação e à possibilidade de alternância. A proteção das liberdades políticas não depende exclusivamente dos resultados econômicos alcançados. Na concepção promovida pelo sistema político chinês, a continuidade institucional e a capacidade de planejamento são apresentadas como condições importantes para a realização de objetivos coletivos de longo prazo. A estabilidade adquire um valor próprio, sobretudo em uma sociedade cuja memória histórica inclui períodos de fragmentação territorial, invasões estrangeiras e conflitos internos de grandes proporções.
A importância atribuída à estabilidade também influencia a maneira como cada tradição compreende o conflito. Nas democracias ocidentais, a divergência pública constitui parte integrante do funcionamento institucional. Partidos políticos disputam projetos de sociedade, organizações civis contestam decisões governamentais e a imprensa exerce funções de fiscalização. O conflito pode produzir instabilidade e dificultar a continuidade das políticas públicas, mas também permite que interesses diferentes encontrem canais legítimos de expressão. A própria democracia depende da aceitação de que nenhuma interpretação sobre o interesse coletivo possui autoridade definitiva.
Na tradição chinesa, a harmonia social representa um ideal político e moral de grande relevância. A preservação das relações e a redução de conflitos abertos podem ser valorizadas como expressões de maturidade social. Isso não significa ausência de divergências ou concordância espontânea com as decisões governamentais. A sociedade chinesa possui conflitos distributivos e diferenças geracionais que se manifestam de variadas maneiras. Entretanto, o sistema político estabelece limites mais estreitos para a organização autônoma da oposição e para a contestação pública das estruturas de poder. A harmonia, quando convertida em justificativa política, pode favorecer a cooperação social, mas também pode ser utilizada para restringir manifestações legítimas de insatisfação.
A relação com o tempo oferece outra perspectiva para compreender as diferenças. A modernidade ocidental desenvolveu uma concepção de progresso associada à possibilidade de romper com o passado. A inovação científica, a transformação tecnológica e a revisão das instituições passaram a ser interpretadas como caminhos para superar limitações herdadas. O futuro adquiriu uma posição privilegiada na imaginação política. A história poderia ser transformada pela ação humana, e a legitimidade das tradições deveria ser continuamente submetida à crítica racional.
A experiência chinesa apresenta uma relação mais complexa entre continuidade e transformação. O respeito à tradição convive com uma extraordinária disposição para promover mudanças materiais. A modernização econômica das últimas décadas demonstra que a valorização da continuidade histórica não impede transformações tecnológicas profundas. A diferença está, em parte, na maneira como o Estado procura inserir essas mudanças em uma narrativa de continuidade nacional. O desenvolvimento é apresentado como recuperação de uma posição histórica de relevância internacional, frequentemente associada à superação do período de enfraquecimento vivido pela China desde o século XIX. O futuro aparece, assim, relacionado à restauração de uma grandeza histórica, ainda que os instrumentos utilizados para alcançá-lo sejam profundamente modernos.
A educação permite observar como tais valores se manifestam na vida cotidiana. Nas sociedades ocidentais, especialmente a partir da segunda metade do século XX, ganhou força uma concepção educacional que valoriza a autonomia intelectual e a capacidade de questionar conhecimentos estabelecidos. A formação do estudante passou a incluir a construção de uma identidade própria e o desenvolvimento de competências que lhe permitam realizar escolhas pessoais. Embora os sistemas educacionais permaneçam marcados por hierarquias e mecanismos de avaliação, a liberdade de pensamento ocupa posição importante em seus objetivos declarados.
Na China, a educação mantém uma forte associação com disciplina, esforço e responsabilidade familiar. O desempenho escolar pode representar uma obrigação moral diante dos investimentos realizados pelos pais e das expectativas depositadas na trajetória dos filhos. A competição por oportunidades educacionais de prestígio produz pressões consideráveis sobre estudantes e famílias. Ao mesmo tempo, a valorização social do conhecimento e da preparação técnica contribuiu para a formação de capacidades científicas relevantes. A experiência chinesa evidencia que disciplina coletiva e inovação tecnológica podem coexistir, embora permaneçam tensões entre a exigência de conformidade institucional e a liberdade intelectual necessária à produção de conhecimentos originais.
A relação entre indivíduo e tecnologia introduz uma dimensão especialmente relevante para o futuro. Nas sociedades ocidentais, a expansão das plataformas digitais tem provocado debates sobre privacidade e os limites do uso de informações pessoais por empresas e governos. A proteção de dados está associada à ideia de que o indivíduo deve conservar algum controle sobre aspectos de sua vida que não deseja tornar públicos. A vigilância estatal encontra restrições jurídicas, ainda que a aplicação desses limites seja desigual e frequentemente contestada.
Na China, a digitalização desenvolveu-se em um ambiente institucional no qual o Estado possui instrumentos amplos de acesso a informações e de controle sobre plataformas. Os serviços digitais tornaram-se profundamente integrados à vida cotidiana, facilitando pagamentos e numerosas atividades econômicas. Entretanto, a capacidade estatal de monitoramento e de restrição da circulação de informações suscita questões importantes sobre privacidade e autonomia. A expansão internacional de tecnologias chinesas pode, portanto, ampliar a influência de concepções regulatórias nas quais a segurança coletiva e a autoridade pública recebem prioridade distinta daquela estabelecida nas tradições liberais.
A economia também expressa diferenças na organização dos valores sociais. O capitalismo ocidental foi historicamente associado à iniciativa privada e à competição como mecanismos de coordenação das atividades produtivas. Embora os Estados tenham desempenhado papéis decisivos na industrialização e no desenvolvimento tecnológico, a autonomia das empresas e a liberdade contratual tornaram-se referências importantes para a organização econômica. A intervenção pública costuma exigir justificativas relacionadas à correção de falhas de mercado ou à proteção de interesses coletivos.
O modelo chinês desenvolveu uma relação diferente entre Estado e mercado. A iniciativa privada participa amplamente da produção e da inovação, mas opera em um sistema no qual o poder público conserva instrumentos relevantes de orientação estratégica. O planejamento industrial e o financiamento direcionado são utilizados para acelerar transformações consideradas prioritárias. A experiência chinesa demonstra que mecanismos de mercado podem funcionar dentro de uma estrutura política que não adota os fundamentos institucionais do liberalismo ocidental. Ao mesmo tempo, a concentração de poder econômico e político produz riscos próprios, incluindo decisões pouco transparentes e dificuldades para contestar intervenções governamentais.
A crescente influência chinesa coloca essas diferenças em uma perspectiva internacional. Durante grande parte do período posterior à Segunda Guerra Mundial, as instituições multilaterais foram organizadas sob forte influência das potências ocidentais. A defesa dos direitos humanos, a liberalização econômica e determinados princípios de governança passaram a integrar o vocabulário das relações internacionais. Embora sua aplicação tenha sido seletiva, tais referências estabeleceram parâmetros para avaliar o comportamento dos Estados.
A China procura ampliar sua participação na definição dessas regras, atribuindo maior importância à soberania nacional e à diversidade dos caminhos de desenvolvimento. A defesa do princípio de não interferência nos assuntos internos dos países encontra receptividade em governos que consideram a promoção internacional da democracia liberal uma forma de pressão política. Para diversas sociedades da Ásia e da África, a experiência chinesa também oferece a demonstração de que o desenvolvimento econômico acelerado pode ocorrer sem a adoção integral das instituições políticas ocidentais. Isso não significa que tais países desejem reproduzir o sistema chinês, mas indica uma ampliação das referências disponíveis para pensar seus próprios projetos nacionais.
A influência cultural chinesa provavelmente ocorrerá de maneira menos direta do que a expansão histórica dos valores ocidentais. A China não dispõe de uma tradição universalista equivalente àquela que acompanhou o Iluminismo e posteriormente a difusão internacional do liberalismo. Sua atuação externa privilegia frequentemente a cooperação econômica e o reconhecimento formal da diversidade dos sistemas políticos. Entretanto, os padrões tecnológicos e as práticas administrativas associados à sua presença internacional podem contribuir para transformar expectativas sobre o papel do Estado e os limites da autonomia individual. A influência de uma potência não depende exclusivamente da adesão explícita aos seus valores. Ela também se manifesta quando outros países passam a considerar naturais determinadas formas de organização econômica e política.
Existe, contudo, um limite importante para qualquer interpretação que apresente a ascensão chinesa como substituição inevitável de uma ordem cultural por outra. As sociedades não recebem influências externas de maneira passiva. O Japão desenvolveu uma modernização econômica que combinou tradições locais com instituições de inspiração ocidental. A Coreia do Sul e Taiwan passaram por transformações políticas que produziram democracias competitivas em sociedades historicamente influenciadas pelo confucionismo. A própria China incorporou instrumentos econômicos e conhecimentos científicos produzidos em diferentes partes do mundo. A experiência histórica sugere que a circulação de valores costuma produzir combinações novas, frequentemente distintas dos modelos que lhes deram origem.
Também seria inadequado imaginar que o Ocidente representa uma realidade cultural homogênea. A tradição liberal convive com concepções comunitárias e religiosas que atribuem grande importância à família e à autoridade. As diferenças entre os Estados Unidos e as sociedades europeias quanto à proteção social demonstram que valores semelhantes podem produzir instituições distintas. Na América Latina, a modernidade ocidental foi incorporada em sociedades marcadas por desigualdades históricas e tradições culturais próprias. O individualismo e a valorização da liberdade convivem com expectativas de proteção coletiva e formas de organização social que não correspondem integralmente aos modelos europeus.
A transformação internacional em curso poderá, portanto, produzir uma situação mais complexa do que a simples passagem de uma hegemonia ocidental para uma hegemonia chinesa. O aumento da influência da China tende a ampliar a legitimidade internacional de concepções que atribuem maior importância à estabilidade política e à coordenação estatal do desenvolvimento. Ao mesmo tempo, a expansão da educação e das tecnologias de comunicação pode fortalecer, inclusive nas sociedades asiáticas, expectativas individuais de autonomia e participação. As tradições culturais não permanecem imunes às mudanças econômicas que ajudam a produzir.
Talvez a questão mais profunda envolva a própria definição de uma vida desejável. A modernidade ocidental colocou a liberdade individual no centro de seu projeto normativo, ainda que tenha enfrentado dificuldades permanentes para conciliá-la com a igualdade e a segurança material. A tradição chinesa atribuiu maior importância à qualidade das relações sociais e à continuidade da comunidade, embora sua expressão política contemporânea apresente restrições relevantes à autonomia. Ambas enfrentam dificuldades para equilibrar aspirações individuais e necessidades coletivas, especialmente em sociedades submetidas a transformações tecnológicas aceleradas.
O mundo que poderá emergir da crescente influência chinesa provavelmente continuará utilizando muitas das instituições e tecnologias desenvolvidas durante a predominância ocidental. Entretanto, os fundamentos culturais que orientam sua utilização poderão ser progressivamente reinterpretados. A liberdade talvez deixe de ocupar, em determinados contextos, a posição incontestável de referência superior para a organização política. A eficiência administrativa e a capacidade de assegurar estabilidade poderão adquirir maior importância nos critérios utilizados para avaliar governos. A soberania nacional poderá receber proteção mais intensa diante de reivindicações internacionais relacionadas aos direitos individuais. Nenhuma dessas transformações está predeterminada, e sua intensidade dependerá das escolhas realizadas pelas próprias sociedades.
A ascensão chinesa obriga o Ocidente a enfrentar uma questão que permaneceu relativamente secundária durante sua predominância internacional: até que ponto os valores que considera universais decorrem de princípios efetivamente compartilháveis por toda a humanidade e até que ponto refletem sua trajetória histórica particular? Reconhecer a existência de outras tradições culturais não exige abandonar a defesa das liberdades individuais ou relativizar violações de direitos. Exige compreender que a legitimidade internacional desses princípios dependerá cada vez mais da capacidade de demonstrar sua contribuição concreta para a vida humana, em um ambiente no qual diferentes concepções de sociedade disputarão influência. A transformação mais significativa talvez esteja justamente nessa mudança de perspectiva. O Ocidente terá de aprender a justificar os valores que durante muito tempo pôde apresentar como expressão natural do progresso, enquanto a China terá de demonstrar se sua crescente capacidade de organizar a vida coletiva poderá conviver com as expectativas de autonomia de sociedades cada vez mais complexas.
Estaríamos presenciando o esgotamento de um modelo de sociedade que, desde o Iluminismo, orientou a construção do mundo ocidental? O que as manifestações da juventude europeia, o crescente distanciamento da Rússia em relação ao Ocidente e a ascensão da China como potência global têm em comum? Talvez sejam expressões distintas de uma transformação mais profunda, que ultrapassa a redistribuição do poder internacional e alcança os próprios valores que organizam nossa vida em sociedade. Os artigos A juventude europeia questiona o futuro que lhe foi prometido, A Rússia que o Ocidente não compreende e O mundo depois do Ocidente e os valores de uma nova ordem internacional exploram essas questões a partir de perspectivas complementares, convidando o leitor a refletir sobre os sinais de desgaste da ordem atual e os fundamentos culturais daquela que poderá sucedê-la.
Pós-Doutor em Competitividade Territorial e Indústrias Criativas, pelo Dinâmia – Centro de Estudos da Mudança Socioeconómica, do Instituto Superior de Ciencias do Trabalho e da Empresa (ISCTE, Lisboa, Portugal). Doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (2007). É Diretor Executivo do Mapa Mundi. ORCID https://orcid.org/0000-0003-1484-395X