
Países africanos estão tentando transformar a disputa mundial por minerais críticos em uma oportunidade de industrialização. Ao restringir a exportação de matérias-primas e exigir investimentos em processamento local, esses governos procuram alterar uma relação econômica antiga, na qual a riqueza sai do subsolo, mas grande parte de seu valor é produzida em outros países. A concorrência entre potências amplia sua capacidade de negociação. O desafio é aproveitar essa oportunidade para construir uma base produtiva que permaneça relevante quando as condições internacionais mudarem.
Os minerais chamados críticos recebem essa classificação porque são importantes para atividades estratégicas e apresentam riscos de abastecimento. O cobre sustenta a expansão das redes elétricas, enquanto o lítio participa da fabricação de baterias. Sua relevância ultrapassa a transição energética e alcança equipamentos utilizados na defesa. Por isso, assegurar acesso a esses recursos tornou-se uma preocupação de segurança econômica, aproximando decisões empresariais das estratégias dos governos.
Para países produtores, entretanto, possuir uma reserva não significa controlar o mercado. Entre retirar um mineral do solo e utilizá-lo em um equipamento existe um conjunto de atividades que exige conhecimento especializado e capacidade industrial. É nessas etapas que se estabelecem relações duradouras com compradores e se acumulam competências difíceis de substituir. Um país pode ser indispensável como fornecedor e continuar dependente das decisões tomadas por empresas estrangeiras sobre o destino de sua produção.
O Zimbábue oferece um exemplo concreto da tentativa de mudar essa posição. Em fevereiro de 2026, o governo suspendeu exportações de minerais brutos e concentrados de lítio. A decisão procurou combater irregularidades comerciais e aumentar o valor retido no país. Nos meses seguintes, o processamento local avançou: a operação de Arcadia, controlada por uma empresa chinesa, exportou sulfato de lítio produzido em território zimbabuano. Trata-se de um insumo intermediário, que ainda precisa passar por outras transformações para atender à fabricação de baterias.
A diferença é importante. Instalar uma unidade de processamento representa um avanço, mas não equivale a dominar toda a cadeia industrial. Ainda assim, acrescentar uma etapa pode criar oportunidades para fornecedores locais e ampliar a aprendizagem técnica. A questão é saber se esse investimento permanecerá isolado, operando como uma extensão da cadeia estrangeira, ou se ajudará a desenvolver capacidades que outras empresas do país também possam utilizar.
A relação com a China revela a complexidade dessa estratégia. Empresas chinesas podem responder às exigências locais construindo instalações, mas também podem buscar alternativas de fornecimento. Em abril, a Tianqi Lithium informou que privilegiaria recursos domésticos chineses em vez de avançar na África. A reação mostra que o poder de negociação dos produtores tem limites: exigir mais processamento pode atrair investimentos, mas também pode deslocá-los. O resultado depende das alternativas disponíveis e das condições oferecidas por cada país.
Para os Estados Unidos e a União Europeia, ampliar fornecedores responde à preocupação com a concentração de etapas industriais na China. Essa busca abre espaço para propostas africanas, mas não garante coincidência de interesses. Um comprador pode desejar uma fonte alternativa de minério e preferir que seu processamento ocorra em outra região. A diversificação que aumenta a segurança de abastecimento das potências, portanto, pode manter o produtor africano na posição de exportador de recursos.
Essa distinção também aparece nos investimentos em transporte. O corredor de Lobito busca melhorar a conexão de regiões produtoras da Zâmbia e da República Democrática do Congo com o porto angolano no Atlântico. Sua expansão pode reduzir custos e favorecer atividades econômicas ao longo da rota. Entretanto, o efeito sobre a industrialização dependerá de como essa infraestrutura será utilizada. Facilitar o escoamento de minerais é diferente de criar condições para que empresas locais transformem parte deles antes da exportação.
O obstáculo central é que uma restrição comercial não cria, por si só, uma indústria competitiva. Uma refinaria precisa de eletricidade confiável e financiamento compatível com o prazo do investimento. Também depende de profissionais capazes de operar processos especializados. Sem essas condições, o governo pode interromper receitas de exportação antes que surjam atividades capazes de substituí-las. O custo da transição recai então sobre uma economia que, muitas vezes, já enfrenta limitações fiscais.
A cooperação regional pode ajudar a enfrentar esse problema. A construção de cadeias de baterias envolvendo a República Democrática do Congo e a Zâmbia parte da possibilidade de combinar recursos e distribuir atividades entre países próximos. Esse caminho permite pensar a industrialização em uma escala maior do que a de cada mercado nacional. Exige, porém, coordenação política para que os parceiros aceitem uma divisão de funções e estabeleçam regras confiáveis para a circulação dos produtos.
Também é necessário avaliar quem recebe os benefícios dentro de cada país. Aumentar o processamento não assegura que as comunidades próximas às operações terão melhores condições de vida. Uma política industrial precisa vincular os investimentos à formação profissional e à proteção ambiental, acompanhadas de fiscalização efetiva. Caso contrário, a transformação local pode ampliar a receita de determinados grupos sem alterar de maneira significativa a relação entre a atividade mineral e o restante da sociedade.
Para o Brasil, a experiência africana coloca uma questão familiar. Atrair interesse pelas reservas é diferente de construir capacidade para participar das decisões industriais que determinam seu valor. O aprendizado está em negociar investimentos com objetivos verificáveis, reconhecendo tanto as possibilidades de transformação quanto seus custos. A disputa internacional pode abrir portas, mas a continuidade do desenvolvimento depende de escolhas que precisam sobreviver à oscilação dos preços.
O que está em negociação na África é o lugar dos países produtores na economia que está sendo construída. Sua vantagem atual decorre de recursos que outros precisam, mas pode diminuir com mudanças tecnológicas ou novas fontes de abastecimento. Transformar essa vantagem em conhecimento produtivo é o passo que pode alterar sua posição de maneira mais duradoura. Quando o interesse externo mudar, a diferença estará na capacidade industrial que tiver permanecido.
Pós-Doutor em Competitividade Territorial e Indústrias Criativas, pelo Dinâmia – Centro de Estudos da Mudança Socioeconómica, do Instituto Superior de Ciencias do Trabalho e da Empresa (ISCTE, Lisboa, Portugal). Doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (2007). É Diretor Executivo do Mapa Mundi. ORCID https://orcid.org/0000-0003-1484-395X