
A Ucrânia enfrenta uma crise de renovação política que a guerra tornou mais difícil de resolver e mais vulnerável à influência externa. Enquanto a realização de eleições permanece bloqueada pela lei marcial, possíveis sucessores de Volodymyr Zelensky acumulam projeção e cultivam relações internacionais. O problema exige uma resposta rápida, porque a distância entre a continuidade legal do governo e a confiança da sociedade pode aumentar. Entretanto, antecipar uma votação sem condições adequadas também pode produzir uma autoridade contestada justamente quando o país precisa negociar seu futuro.
Em meados de outubro de 2026, não existe uma eleição presidencial formalmente convocada. A votação que deveria ocorrer em 2024 foi impedida pelo regime de exceção estabelecido após a invasão russa. A permanência de Zelensky no cargo encontra respaldo na continuidade institucional até a posse de um sucessor, de modo que o encerramento do período originalmente previsto para seu mandato não tornou automaticamente ilegal seu governo. Neste mês, o presidente voltou a admitir eleições caso houvesse um cessar-fogo de 60 dias, mas essa manifestação ainda não constitui um calendário eleitoral.
A dificuldade vai além da legislação. Organizar uma disputa exige permitir que militares participem sem comprometer suas funções e que cidadãos deslocados consigam votar. Também é necessário assegurar liberdade de campanha em um território submetido a ataques. Uma trégua pode abrir uma oportunidade, mas seu prazo precisa ser confrontado com as exigências práticas de uma eleição confiável. Caso contrário, a tentativa de resolver uma crise de representação pode criar outra, relacionada à aceitação do resultado.
A sociedade ucraniana parece reconhecer essa tensão. Pesquisa realizada em setembro pelo Instituto Internacional de Sociologia de Kiev mostrou que 53% dos entrevistados preferiam que Zelensky se limitasse ao mandato atual, enquanto 71% rejeitavam eleições naquele momento. O levantamento ouviu moradores das áreas controladas pelo governo, excluindo quem permanecia nos territórios ocupados e cidadãos que haviam deixado o país após a invasão. Os resultados indicam desejo de renovação acompanhado de receio quanto às condições para realizá-la.
O desgaste também alcança o Parlamento. Em levantamento divulgado em outubro, nenhuma das bancadas avaliadas apresentou saldo positivo entre percepções de contribuição e de prejuízo ao desenvolvimento do país. Isso sugere uma crise mais ampla do que a popularidade presidencial. A necessidade de manter o Estado funcionando convive com uma insatisfação que os mecanismos políticos existentes têm dificuldade de absorver. A guerra explica parte dessa situação, mas não elimina a responsabilidade dos dirigentes por melhorar o funcionamento das instituições.
Valerii Zaluzhny ocupa uma posição especialmente relevante nesse ambiente. Ex-comandante das Forças Armadas e atual embaixador no Reino Unido, reúne reconhecimento militar e exposição diplomática. Uma pesquisa realizada no início de outubro atribuiu a ele 64% de confiança, acima dos 53% registrados por Zelensky. Isso não equivale a uma vitória eleitoral assegurada: no cenário de primeiro turno do mesmo levantamento, o presidente ainda aparecia à frente. Confiança pessoal e escolha de governo são decisões diferentes.
Sua presença em Londres permite interpretar Zaluzhny como uma possível ponte entre uma futura administração ucraniana e o Reino Unido. Trata-se, porém, de uma hipótese sobre sua utilidade política, não de comprovação de patrocínio eleitoral britânico. Londres reafirmou publicamente apoio a Zelensky neste mês. Para os britânicos, manter interlocução com figuras capazes de influenciar o futuro ucraniano seria compatível com o interesse em preservar participação na segurança europeia. Esse interesse não exige escolher antecipadamente um candidato.
Kyrylo Budanov apresenta outra forma de inserção internacional. Ex-chefe da inteligência militar e, desde janeiro, chefe do gabinete presidencial, mantém relações próximas com serviços de inteligência americanos e aliados. Essa experiência favorece sua interlocução com Washington, mas não demonstra que os Estados Unidos tenham decidido apoiar uma candidatura sua. Sua posição também permite leituras diferentes no plano doméstico: ele pode representar continuidade com renovação ou tornar-se um concorrente fortalecido pelo acesso ao centro do poder.
Mykhailo Fedorov, por sua vez, construiu projeção a partir da digitalização do Estado e da modernização tecnológica da defesa. Depois de deixar o Ministério da Defesa, passou a defender eleições durante a guerra, abrindo uma divergência pública com Zelensky. Entretanto, sua aproximação com ambientes americanos de tecnologia não deve ser confundida com apoio da Casa Branca. Questionado sobre buscar o respaldo do presidente americano para uma disputa eleitoral, Fedorov negou essa intenção. Sua trajetória sugere uma candidatura potencial associada à mudança de gestão, cuja expansão dependeria de apoio doméstico além dos setores mais receptivos à inovação.
O jogo geopolítico aparece menos como uma distribuição comprovada de candidatos entre potências e mais como uma disputa pelas condições da próxima etapa ucraniana. Para Washington, uma liderança capaz de negociar e implementar compromissos pode facilitar sua estratégia. Para governos europeus, a questão envolve também a segurança que restará depois de um acordo. A interpretação é que parceiros interessados na mesma estabilização podem divergir sobre seu preço e sobre as garantias necessárias. Essas diferenças tornam as relações pessoais dos possíveis candidatos relevantes, sem transformá-los automaticamente em representantes estrangeiros.
Moscou também tem interesse nesse processo. O questionamento da legitimidade de Kiev pode enfraquecer sua capacidade de negociar, enquanto uma eleição realizada sob insegurança pode gerar contestações úteis à estratégia russa. Por outro lado, um governo renovado por uma votação reconhecida poderia fortalecer a autoridade ucraniana. Não há, portanto, relação automática entre substituir Zelensky e facilitar a paz. Um sucessor com trajetória militar pode ter credibilidade para negociar concessões, mas também pode defender condições mais exigentes.
A urgência está em construir agora um acordo interno sobre as condições da renovação. O Parlamento e a oposição precisam participar dessa definição, com regras que permitam avaliar quando haverá segurança suficiente e como os cidadãos poderão exercer seus direitos. Enquanto isso, melhorar a fiscalização do governo e preservar a autonomia das instituições são respostas possíveis ao desgaste. Adiar a votação por necessidade não pode significar adiar toda forma de responsabilização política.
A próxima eleição ucraniana decidirá mais do que a ocupação da Presidência. Ela ajudará a definir quem terá autoridade para assumir compromissos de longo prazo e com que margem poderá fazê-lo. Quanto mais essa autoridade depender da aprovação prévia de capitais estrangeiras, mais frágil será sua sustentação interna. Resolver rapidamente o impasse significa devolver aos ucranianos uma perspectiva concreta de escolha, antes que a disputa internacional sobre seu futuro passe a ocupar o espaço que deveria pertencer às suas instituições.
Pós-Doutor em Competitividade Territorial e Indústrias Criativas, pelo Dinâmia – Centro de Estudos da Mudança Socioeconómica, do Instituto Superior de Ciencias do Trabalho e da Empresa (ISCTE, Lisboa, Portugal). Doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (2007). É Diretor Executivo do Mapa Mundi. ORCID https://orcid.org/0000-0003-1484-395X