
A continuidade da guerra na Ucrânia tornou-se um fardo para países que não participaram das decisões que produziram o conflito, mas continuam expostos às suas consequências. Para grande parte do Sul Global, a urgência de uma negociação está ligada ao preço dos alimentos e à dificuldade de sustentar o próprio desenvolvimento em um ambiente de insegurança permanente. Nesse contexto, é importante que a Ucrânia aceite propostas de paz capazes de oferecer uma saída viável, acompanhadas de compromissos russos que permitam transformar a interrupção dos combates em segurança duradoura.
Existe uma diferença entre observar essa guerra a partir da segurança europeia e acompanhá-la de um país dependente de importações agrícolas. Na Europa, o conflito envolve o equilíbrio militar regional e o receio de novas agressões. Em países com menor capacidade financeira, ele também aparece na necessidade de gastar mais para assegurar o abastecimento. Essas perspectivas não se anulam, mas distribuem a urgência de maneira diferente. Um governo que precisa preservar o acesso da população à alimentação não pode tratar a estabilização do comércio internacional como uma questão secundária.
O mercado de alimentos mostra como essa conexão permanece atual. Em setembro de 2026, os preços internacionais do trigo subiram 6,3% em relação ao mês anterior, movimento associado principalmente às dificuldades logísticas no Mar Negro, embora condições climáticas também tenham contribuído. O índice geral de alimentos continuava abaixo do pico de março de 2022, o que impede descrever o presente como uma repetição daquele choque. Ainda assim, a guerra mantém uma importante região exportadora sujeita a interrupções que afetam compradores muito além da Europa.
O mecanismo é relativamente simples. Quando transportar grãos se torna mais arriscado, compradores procuram fornecedores alternativos e pressionam outras rotas comerciais. Mesmo um país que não compra diretamente da Ucrânia pode enfrentar preços maiores, porque participa de um mercado conectado. Para governos com pouco espaço no orçamento, absorver esse aumento significa ampliar subsídios ou transferir parte do custo às famílias. A distância do campo de batalha oferece pouca proteção contra essas consequências.
No Brasil, a vulnerabilidade passa também pelos fertilizantes utilizados na produção agrícola. A Rússia respondeu por aproximadamente um quarto das importações brasileiras desses insumos em 2025. Essa relação ajuda a explicar por que preservar canais comerciais tem importância para a economia nacional. Embora o Brasil seja um grande exportador de alimentos, parte de sua capacidade produtiva depende de fornecimento externo. A condição de potência agrícola, portanto, não elimina sua exposição às tensões internacionais.
Isso não significa que o Sul Global tenha uma posição única. A expressão reúne países com interesses distintos, e os efeitos da guerra não se distribuem igualmente. Alguns exportadores podem ganhar com determinadas altas de preços, enquanto importadores enfrentam dificuldades maiores. A defesa de negociações deve ser compreendida dentro dessa diversidade. Para muitos governos, manter interlocução com Moscou e Kiev é uma maneira de proteger interesses próprios e preservar alguma capacidade de influenciar um conflito cujos custos ultrapassam seus participantes.
A atuação indiana ajuda a compreender essa lógica. Nova Délhi mantém contato com os dois lados e associa sua defesa da negociação à proteção do comércio marítimo. Em outubro, o governo indiano voltou a mencionar ataques a embarcações civis e suas consequências para marinheiros do país. Nessa perspectiva, a guerra deixa de ser apenas uma disputa sobre a organização da segurança europeia e passa a envolver diretamente a segurança de trabalhadores e de operações comerciais de outros continentes.
A proposta apresentada por Brasil e China em 2024 também procurou abrir espaço para uma negociação reconhecida por ambos os envolvidos. A África do Sul, por sua vez, defende um cessar-fogo acompanhado de diálogo e respeito à soberania dos Estados. Essas iniciativas revelam uma preocupação que precisa ser considerada: países externos ao conflito têm razões legítimas para tentar encerrá-lo. Sua participação pode ampliar as possibilidades diplomáticas, desde que as propostas sejam construídas com os envolvidos e ofereçam condições concretas de implementação.
É nesse ponto que a disposição ucraniana para aceitar propostas viáveis de paz se torna decisiva. Nenhum governo consegue assegurar que mais tempo de combate produzirá condições melhores de negociação. A continuidade da resistência precisa ser avaliada também diante da destruição acumulada e das condições que restarão para reconstruir o país. Uma proposta que proteja a autonomia política ucraniana e estabeleça garantias efetivas merece ser considerada mesmo quando não realiza todos os objetivos inicialmente pretendidos.
Essa avaliação, entretanto, exige distinguir uma oportunidade diplomática de uma exigência de submissão. Aceitar negociar não equivale a reconhecer juridicamente perdas territoriais, assim como um cessar-fogo pode interromper mortes enquanto questões mais difíceis continuam em discussão. Também seria incorreto presumir que o fim da guerra depende exclusivamente de uma decisão de Kiev. A Rússia, responsável pela invasão em larga escala de 2022, precisa assumir obrigações verificáveis. Sem reciprocidade, uma assinatura pode apenas preparar a próxima etapa do conflito.
Para o Sul Global, esse cuidado é especialmente relevante. Países com menor poder militar também dependem da preservação de regras que protejam sua soberania. Uma paz que transforme a conquista territorial pela força em solução aceitável pode produzir insegurança em outras regiões. Por isso, a urgência econômica e a defesa de princípios precisam orientar o mesmo esforço diplomático. Encerrar os combates deve reduzir o sofrimento presente sem tornar novas guerras uma alternativa mais atraente.
A contribuição desses países pode estar em dar conteúdo concreto à negociação, começando pela proteção do abastecimento e por mecanismos confiáveis de fiscalização. A Ucrânia tem razões para buscar segurança, assim como populações distantes têm razões para exigir que o custo da guerra deixe de ser continuamente transferido a elas. Quanto mais esse interesse compartilhado orientar as propostas, maior será a possibilidade de construir uma paz que os envolvidos possam aceitar e tenham motivos para preservar.
Pós-Doutor em Competitividade Territorial e Indústrias Criativas, pelo Dinâmia – Centro de Estudos da Mudança Socioeconómica, do Instituto Superior de Ciencias do Trabalho e da Empresa (ISCTE, Lisboa, Portugal). Doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (2007). É Diretor Executivo do Mapa Mundi. ORCID https://orcid.org/0000-0003-1484-395X