A soberania dos países passa pelo controle de seus dados

Américas Argentina

Governos podem comprometer sua soberania ao entregar a empresas privadas a infraestrutura pela qual acessam informações sensíveis e tomam decisões. O risco não se limita ao vazamento de documentos sigilosos. Surge também quando o Estado depende de plataformas que não consegue fiscalizar adequadamente ou substituir sem prejudicar seu funcionamento. Uma contratação apresentada como modernização administrativa pode criar uma relação de dependência com consequências políticas que ultrapassam o contrato.

A promessa de eficiência ajuda a explicar a expansão dessas plataformas. Governos acumulam informações que seus próprios órgãos têm dificuldade de relacionar. Empresas tecnológicas oferecem ferramentas capazes de integrar essas bases e identificar padrões que escapariam à análise convencional. O benefício pode ser significativo, mas a integração também altera o valor estratégico dos dados. Informações dispersas sobre a população, quando cruzadas, permitem conhecer comportamentos e vulnerabilidades que nenhum cadastro isolado revelaria.

O caso Cambridge Analytica mostrou como essa capacidade pode ser direcionada à disputa política. A empresa reuniu informações de dezenas de milhões de usuários do Facebook por meio de práticas consideradas enganosas pela autoridade norte-americana de proteção ao consumidor, utilizando-as para construir perfis e direcionar mensagens eleitorais. O episódio não permite concluir que uma plataforma determine o resultado de uma eleição. Demonstra, porém, que dados obtidos em um contexto podem ser empregados para influenciar escolhas em outro, sem que as pessoas compreendam o alcance dessa utilização.

Quando o contratante é um governo, o problema ganha outra dimensão. O cidadão frequentemente precisa fornecer informações ao Estado para exercer direitos ou cumprir obrigações. Não pode simplesmente abandonar essa relação como quem deixa de utilizar uma rede social. A contratação de um serviço privado introduz um novo participante nesse vínculo, cujo acesso precisa ser delimitado e verificável. A autorização para processar determinada informação não deveria se transformar em possibilidade de explorar todas as relações que ela permite estabelecer.

A aproximação da Palantir com a Argentina insere essa discussão no contexto sul-americano. A empresa registrou sua marca no país em 2022 e seu cofundador, Peter Thiel, foi recebido por Javier Milei na Casa Rosada em abril de 2026. Parlamentares apresentaram pedidos de esclarecimento sobre possíveis acordos e acesso a bases estatais. Esses registros demonstram interesse e aproximação política, mas não bastam para afirmar que exista uma operação governamental implantada pela companhia nos termos levantados pelos questionamentos. A falta de clareza sobre o alcance dessas relações é justamente parte do problema de governança.

O interesse pela Palantir se explica pela natureza de seus sistemas, que conectam informações às operações das instituições. Uma plataforma pode ajudar a organizar políticas públicas, mas sua configuração também influencia quais relações aparecem como relevantes e quais situações recebem atenção. A empresa declara que os dados pertencem aos clientes e oferece controles de acesso e auditoria. Essas salvaguardas precisam ser avaliadas em cada contratação. O risco de interferência está na possibilidade de o governo perder condições de examinar os critérios incorporados ao sistema e passar a tratar suas recomendações como uma representação objetiva da realidade.

Outras empresas expõem mecanismos diferentes de risco. Microsoft e Amazon Web Services fornecem infraestrutura da qual instituições públicas podem se tornar profundamente dependentes. Isso não significa atribuir a elas uso indevido de informações, mas reconhecer que a concentração de serviços essenciais cria vulnerabilidades. Uma comissão do Parlamento britânico apontou, em 2026, a dependência do setor público em relação a grandes fornecedores, incluindo essas empresas e a Palantir, como um problema de autonomia tecnológica. Quanto mais procedimentos são construídos dentro de um ambiente proprietário, maior pode ser o custo de abandoná-lo.

A localização física dos servidores tampouco resolve toda a questão. Empresas podem estar sujeitas a obrigações jurídicas de países diferentes daqueles onde armazenam informações. Nos Estados Unidos, o CLOUD Act permite exigir, mediante procedimento legal válido, dados sob a posse ou controle de fornecedores sujeitos à jurisdição norte-americana, mesmo quando armazenados no exterior. Isso não constitui autorização de acesso indiscriminado, mas mostra por que instalar um centro de dados em território nacional não garante, isoladamente, controle soberano sobre seu conteúdo.

A Clearview AI evidencia outro ponto sensível. Seu serviço de reconhecimento facial utiliza imagens recolhidas da internet para permitir a identificação de pessoas. A empresa foi sancionada por autoridades europeias em razão do tratamento ilegal de dados pessoais. Para governos, a adoção de ferramentas desse tipo exige avaliar também a origem da informação que sustenta o serviço. Uma tecnologia pode ampliar a capacidade de investigação enquanto incorpora práticas de coleta incompatíveis com as garantias que o próprio Estado deveria proteger.

A discussão alcança igualmente países que buscam acelerar seu desenvolvimento digital. No Sudeste Asiático, os investimentos de grandes empresas em infraestrutura de nuvem convivem com preocupações sobre quem controla os dados. A atração de capital e o acesso a tecnologias avançadas oferecem oportunidades, mas podem ampliar a distância entre a capacidade de utilizar uma plataforma e a capacidade de governá-la. Para países com menor domínio tecnológico, uma solução eficiente no presente pode restringir escolhas futuras.

Preservar autonomia exige que o Estado mantenha capacidade própria de avaliação e condições reais de substituir fornecedores. O controle precisa alcançar os acessos realizados e as finalidades de uso das informações, incluindo as inferências produzidas pelo cruzamento de bases. Também importa assegurar que uma mudança de governo não permita converter, sem fiscalização, uma estrutura administrativa em instrumento de perseguição política. A proteção dos dados depende tanto das regras aplicadas às empresas quanto dos limites impostos aos próprios governantes.

A soberania passa a ser exercida também nas condições de funcionamento dessas plataformas. Um país pode conservar formalmente a propriedade de seus dados e, ainda assim, perder capacidade de decidir como serão utilizados. Quando o Estado depende de um fornecedor para compreender suas próprias informações, a relação comercial adquire peso político. O desafio dos governos será impedir que a modernização de sua capacidade de agir transfira para atores privados uma parcela do poder que deveria permanecer sujeita ao controle público.

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