Afeganistão “forever”???

Esta matéria do autor e professor indiano Fareed Zakaria -“A Guerra da qual Trump não quer sair” -, publicada no Estadão do dia 07/09, trata do mais recente “imbroglio” em gestação da “saga” norte-americana/ocidental no Afeganistão. Ou seja, D.T., depois de ter dito que não, resolveu aumentar a presença das tropas norte-americanas no país.

Zakaria afirma, a meu ver com razão, que “não existe sinal mais claro da falência da política externa americana do que a estratégia adotada para o Afeganistão”.

Por quê? Em qual direção?

A questão, no fundo, é do vácuo de liderança, que impede as tropas americanas de abandonarem o solo afegão. Mas será que pashtuns, hazaras, uzbecks, aimaks, turcomanos, beluchis, pashais, nuristanis, gujiares e árabes, entre outros, que conformam o caleidoscópio racial de um país que chamam nominalmente de Afeganistão, mas que é um emaranhado de História, costumes, tradições, confrontos intertribais, e que nunca foi dominado por qualquer “forasteiro”, até mesmo por Alexandre, o Grande, aceitariam uma liderança formulada (na verdade, imposta) por potências estrangeiras?

Será possível instalar uma democracia “western style” num mundo que se tem regido, há milênios, por uma democracia tribal, na qual a assembléia de líderes – a “jirga” – decide os destinos da nação, profundamente orgulhosa – e ciosa – da sua raiz multiétnica?

Esta tentativa já ocorreu quando os norte-americanos decidiram colocar na presidência do Afeganistão Hamid Karzai, da etnia majoritária “pashtun”, em 2004. Deu no que deu…ou seja, em nada. O “pobre coitado” sequer podia sair de Cabul, sob pena de ser assassinado. E o atual Presidente, Ashraf Ghani Ahmadzai, claudica…Este sistema seguramente não funciona nesse universo.

Foi o que ponderou um atento observador do Afeganistão, Dexter Filkins, quando indagado por Zakaria: “os afegãos não gostam do Taleban, mas detestam o governo afegão”.

Em outra pauta, será que o fator presumidamente agregatório – o Islã – comum a quase a totalidade da população,realmente agrega a sociedade? Será que a Fé unívoca em Alah, e no Profeta, é suficiente para esmaecer a cisão que divide a maioria sunita e a minoria xiita do país (por exemplo, os pashtuns são sunitas, mas os hazaras, xiitas)? Quais são as mesquitas que estão sendo objeto de atentados, lá, pelos talibãs e pelo Estado Islâmico? Resposta: as xiitas…

Ou seja, o conflito se bifurca e se complica: de um lado, as tropas ocidentais que nunca saem, e, do outro, o “religious divide”.

E quem são os talibãs? Sunitas, mas não apenas (?) sunitas, senão sunitas que enfrentaram os soviéticos ateus, que “queriam erradicar a Fé” no solo afegão, apostasia e anátema, ao mesmo tempo!!! Formados no fundamentalismo radical e no Islã rudimentar das madrassas paquistanesas, eles se investiram no papel de defensores da Fé (“suni style”). E agora disputam terreno com o Estado Islâmico, que os acusa de se terem amansado e perdido a “chama sagrada”, o espírito da “jihad”.

E neste emaranhado de desafios civilizacionais encontram-se os americanos e alguns poucos outros ocidentais remanescentes das tropas da ISAF. Como entender uma realidade cultural que escapa à nossa realidade, e à nossa maneira de ver o mundo? Como querer impingir soluções que fatalmente darão errado?

Por isto, Zakaria termina seu artigo de forma melancólica: “…em outras palavras, a um custo humano menor, os Estados Unidos repetem no Afeganistão a mesma estratégia usada no Vietnã. Um atoleiro menos profundo, poderíamos dizer”.

Haverá solução? “To be continued”…


A guerra da qual Trump não quer sair

Fareed Zakaria, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

07 Setembro 2017 | 05h00

Não existe sinal mais claro da falência da política externa americana do que a estratégia adotada para o Afeganistão. Depois de 15 anos de guerra e a mobilização de centenas de milhares de soldados, um novo presidente entrou no Salão Oval determinado a mudar fundamentalmente essa política. Meses depois, propõe, com grande alarde, uma continuação do mesmo. Resultado: os Estados Unidos estão agora firmemente presos a sua guerra sem fim no Afeganistão.

A estratégia do presidente Donald Trump difere da herdada por ele apenas no aumento de 3,5 mil homens. Trump prometeu abster-se da construção do país, dar ênfase ao contraterrorismo, pôr fim à corrupção naquele país e responsabilizar o Paquistão. Barack Obama prometeu a mesma coisa. “Está na hora de nos concentrarmos na construção de um país, aqui e lá fora”, disse ele em 2011, explicando a mudança de enfoque em relação à estratégia adotada pelo presidente George W. Bush.

As observações de Trump com relação ao Paquistão foram vistas por muitas pessoas como uma ruptura da política do governo anterior, mas parecem esquecer o depoimento extraordinariamente franco que o então comandante do Estado-Maior, Mike Mullen, prestou ao Congresso em 2011. Ele qualificou a rede Haqqani, um dos mais perigosos grupos terroristas do Afeganistão, de “um braço dos serviços de inteligência paquistaneses”.

Nesse mesmo ano, a secretária de Estado na época, Hillary Clinton e o então diretor da CIA, David Petraeus, foram ao Paquistão para, nas palavras de Hillary, pressionar duramente os paquistaneses a não dar mais apoio aos terroristas do Haqqani. E a pressão foi uma das várias ações que deixaram os paquistaneses indignados, a ponto de fecharem as rotas de suprimento para as forças lideradas pelos americanos no Afeganistão durante sete meses.

Manifestando seu apoio ao compromisso de Trump, o presidente da Câmara, Paul Ryan, usou a velha e batida citação de que os Estados Unidos têm os relógios, mas o Taleban tem o tempo. “Se eles acham que temos uma data-limite, um cronograma, então estarão esperando pela nossa saída”, afirmou. Mas isso é não entender absolutamente a natureza desse tipo de guerra. O Taleban esperará por nós por uma razão simples: seus integrantes vivem naquele país.

Harry Summers, um oficial do Exército muito sensato que participou da Guerra do Vietnã, escreveu um livro sobre as lições militares extraídas daquele conflito, livro que ele abre relatando uma conversa que manteve com um oficial vietnamita em 1975, pouco antes da queda de Saigon: “Vocês sabem que nunca nos derrotaram no campo de batalha”, disse Summers a ele. O oficial respondeu: “Pode ser, mas isso é irrelevante”. Toda força local sabe que um dia os estrangeiros terão de voltar para casa.

Por que o Taleban está ganhando terreno no Afeganistão?, perguntei a Dexter Filkins, da New Yorker, um dos mais sagazes observadores dessa guerra. “Os afegãos não gostam do Taleban, mas detestam o governo afegão. Afirmamos que não queremos construir uma nação, mas você não consegue criar um Exército sem antes criar um Estado. As pessoas não morrem por um Exército, mas por um país. E quem deseja morrer pelo atual governo afegão?”, respondeu.

Os militares americanos no Afeganistão sabem disso muito bem e é por essa razão que se referem ao governo afegão como uma combinação de redes corruptas que se estendem pelo país. Há até um apelido, ao estilo militar, para esse grupo – Vice (Vertically Integrated Criminal Enterprise – ou Empresa Criminosa Integrada Verticalmente).

Barnett Rubin, conhecido especialista em assuntos do Afeganistão, que assessorou as Nações Unidas e o governo americano, explica a questão de modo diferente: “O Estado afegão não consegue existir sem ajuda externa. Não consegue pagar suas contas sem ajuda americana. Não pode ser uma sociedade estável sem ajuda do Paquistão, nem crescer economicamente sem comércio e trânsito com o Irã”.

Referindo-se a notícias de que o Afeganistão possuiria quase US$ 1 trilhão em recursos minerais, ele observou: “Tenho certeza de que a Lua tem mais minério, mas você tem de encontrar um meio para que ele chegue ao mercado. E para isso precisa de vizinhos amigos”, disse. Para Rubin, a estratégia de Trump está condenada, pois é totalmente alheia aos interesses das outras potências na região, especialmente Rússia, China e Irã.

Por outro lado, o governo Trump oferece do mesmo em dose dupla. Mais dinheiro, bombas, soldados, pressão sobre o Paquistão, mais severidade e apoio aos afegãos. É um enfoque tático, concebido por generais, para garantir que não fracassem. Mas não há uma estratégia para vencer a guerra. Em outras palavras, 25 anos depois, a um custo humano menor, os Estados Unidos repetem no Afeganistão a mesma estratégia usada no Vietnã. Um atoleiro menos profundo, poderíamos dizer. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Artigo originalmente publicado em http://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,artigo-a-guerra-da-qual-trump-nao-quer-sair,70001973783

Fausto Godoy
Doutor em Direito Internacional Público em Paris. Ingressou na carreira diplomática em 1976, serviu nas embaixadas de Bruxelas, Buenos Aires, Nova Déli, Washington, Pequim, Tóquio, Islamabade (onde foi Embaixador do Brasil, em 2004). Também cumpriu missões transitórias no Vietnã e Taiwan. Viveu 15 anos na Ásia, para onde orientou sua carreira por considerar que o continente seria o mais importante do século 21 – previsão que, agora, vê cada vez mais perto da realidade.