ISSN 2674-8053

Autor: Fausto Godoy

Doutor em Direito Internacional Público em Paris. Ingressou na carreira diplomática em 1976, serviu nas embaixadas de Bruxelas, Buenos Aires, Nova Déli, Washington, Pequim, Tóquio, Islamabade (onde foi Embaixador do Brasil, em 2004). Também cumpriu missões transitórias no Vietnã e Taiwan. Viveu 15 anos na Ásia, para onde orientou sua carreira por considerar que o continente seria o mais importante do século 21 – previsão que, agora, vê cada vez mais perto da realidade.
As eleições na França e os muçulmanos
Europa, França

As eleições na França e os muçulmanos

Tenho por princípio ater-me somente aos temas referentes à Ásia, que é a “minha praia”. Mas não pude resistir a “meter o meu bedelho” nas eleições presidenciais na França. Explico-me: morei em Paris durante quase seis anos, entre 1969 e 1975. Ali concluí a minha formação universitária, preparando-me para o concurso do Instituto Rio Branco. Cheguei em março de 1969, quando os paralelepípedos que calçavam o Boulevard Saint Michel, que os estudantes de Maio de 68 haviam arrancado para enfrentar as tropas policiais, ainda estavam jogados pelas calçadas. Paris vivia a “ressaca” libertária, imersa numa grande ebulição política. A juventude francesa afrontava cartesianamente, com seus agregados estrangeiros, o conservadorismo de seus pais e mestres; porém, “à la française”, num formato ”g...
Navroz Mubarak
Ásia, Índia

Navroz Mubarak

Hoje é o dia em que a comunidade zoroastrista comemora, na Índia e em vários países da Ásia Central, o Ano Novo. Corresponde, seguindo o calendário persa de mais de três mil anos, ao primeiro dia da primavera, e celebra a renovação da natureza. Esta celebração está profundamente enraizada nos rituais e nas tradições do Zoroastrismo, religião fundada por Zoroastro (ou Zaratustra, em persa antigo), e tem lugar, atualmente, em muitos países que foram parte dos antigos impérios iranianos, ou sofreram a sua influência. Fora do Irã, Navroz (Noruz, para os iranianos) é comemorado na Índia, no Curdistão, Afeganistão, Albânia, nas antigas repúblicas soviéticas, Turquia, e também por várias comunidades de origem iraniana no Ocidente e em todo o Oriente Médio; até mesmo na África (Fred Mercur...
O tal do poder (IV): A democracia, a Rússia, a Ucrânia e a “China de que lado está?”
Ásia, China, Europa, Rússia, Ucrânia

O tal do poder (IV): A democracia, a Rússia, a Ucrânia e a “China de que lado está?”

Presidentes da China (Xi Jinping) e Rússia (Putin) Escolhi o título desta postagem replicando o do artigo de Thomas Friedman, colunista do The New York Times, que o Estadão publicou no dia 08/03. Nele, Friedman assinala que “... a cada dia que passa, a guerra na Ucrânia se torna não apenas uma tragédia cada vez maior para o povo ucraniano, mas também uma ameaça maior para o futuro da Europa e do mundo como um todo. Existe apenas um país que pode ser capaz de impedir a guerra agora – e não são os Estados Unidos”...Continuando, ele pondera que “...se a China anunciasse que, em vez permanecer neutra, está se juntando ao boicote econômico à Rússia – ou até mesmo apenas condenando com firmeza sua invasão não provocada contra a Ucrânia e exigindo que os russos se retirassem do país – isso po...
O tal do poder (III): O “x” da questão: a OTAN
Organizações Internacionais, OTAN

O tal do poder (III): O “x” da questão: a OTAN

Foto de Kenzo TRIBOUILLARD / AFP O diplomata e analista político Ronald D. Asmus, juntamente com seus colegas Richard Kugler e Stephen Larrabee, do “think tank” americano RAND, criado logo ao final da II Guerra Mundial para promover estudos sobre questões de segurança dos Estados Unidos, numa matéria publicada na edição de setembro de 1993 da “Foreign Affairs”, intitulada “BUILDING A NEW NATO”, afirmavam, então, que “...uma fenda se abriu no seio da OTAN à medida que os interesses americanos e europeus divergiram sobre as guerras lideradas pelos EUA no Afeganistão e no Iraque. Ambos os lados tiveram que considerar esses eventos como um "alerta". No entender deles, “a aliança transatlântica precisava unir-se em torno de um novo propósito e de uma nova grande estratégia adequada para enf...
O tal do poder (II): os Estados nacionais, a Paz de Westphalia e a globalização
Europa, ONU, Organizações Internacionais, Rússia, Ucrânia

O tal do poder (II): os Estados nacionais, a Paz de Westphalia e a globalização

Sala do Conselho de Segurança da ONU (Foto de Mark Garten) Polemizando, ainda, a respeito da tragédia da Ucrânia... Em meados do século XVII, os impérios europeus estavam envolvidos numa disputa religioso-territorial que durava já trinta anos, a qual a História registrou como “a Guerra dos Trinta Anos”(1618-1648), como recordamos. A chamada “Paz de Westphalia” foi contruída em dois tratados assinados em outubro de 1648, nas cidades de Osnabrück e Münster, na Alemanha, encerrando os violentos combates que vitimaram cerca de oito milhões de pessoas. Estes tratados puseram fim à guerra que envolveu, de um lado, os Habsburgos, governantes da Áustria e da Espanha e seus aliados católicos e, de outro, as potências protestantes, a Suécia e certos principados aliados, juntamente com a Fr...
O tal do poder (I): Conselho de Segurança da ONU
Ásia, China, Europa, Índia, ONU, Organizações Internacionais, Rússia, Ucrânia

O tal do poder (I): Conselho de Segurança da ONU

As tropas russas entraram em Kiev, no dia 25/02. Sirenes de ataques aéreos foram ouvidas por toda a cidade e hoje acompanhamos consternados as notícias e as imagens que os meios de comunicação de todo o mundo divulgaram sobre a tragédia que se abateu sobre a Ucrânia. O Conselho de Segurança discutiu na véspera uma resolução condenatória, ainda que ciente de que não poderia implementá-la devido à oposição da Rússia que, como membro permanente do Conselho tem o direito de veto. O capítulo da Carta da ONU considerado, inicialmente, foi o VII - artigos 39 a 51 -, que elenca medidas escalonadas a serem adotadas no caso de ameaça à paz, quebra da paz e atos de agressão. Na redação da proposta original, o CSNU teria “lamentado em termos severos a agressão da Federação Russa como uma viola...
China + Rússia + EUA + OTAN (ii): o tiro saiu pela culatra?
Américas, Ásia, China, Estados Unidos, Europa, Organizações Internacionais, OTAN, Rússia

China + Rússia + EUA + OTAN (ii): o tiro saiu pela culatra?

Presidentes russo Vladimir Putim e chinês Xi Jinping (Foto kremlin.ru) Vladimir Putin acaba de retornar de Pequim, onde foi hóspede de honra de Xi Jinping na cerimônia de inauguração das Olimpíadas de Inverno que a República Popular anfitriona este ano. Certamente, ela deseja reiterar a imagem positiva que deixou das Olimpíadas de verão de 2008. Na sequência dos acontecimentos na Ucrânia, o encontro entre Putin e Xi teve uma mensagem simbólica de grande amplitude. Não somente foram assinados vários acordos, entre os quais a elevação das exportações de gás da gigante russa Gazprom para a RPC, do montante de 38 para 48 bilhões de metros cúbicos anuais (lembremo-nos de que o tema é o “nó górdio” no envolvimento dos europeus no projeto dos americanos de intensificarem suas ameaças a M...
Rússia, a Ucrânia, os Estados Unidos, a China, a Europa e a Otan
Américas, Ásia, China, Estados Unidos, Europa, Organizações Internacionais, OTAN, Rússia, Ucrânia

Rússia, a Ucrânia, os Estados Unidos, a China, a Europa e a Otan

Metendo o bedelho...Nunca pus os pés na Rússia, mas servi em Astana - hoje, Nursultan -, no Cazaquistão, e arrisco esboçar a minha percepção a partir da ótica de um país vizinho.  Para mim, o quadro geopolítico que define a relação entre a Rússia e a Ucrânia se aplica a todo o universo “ex-soviético”, como é o caso do Cazaquistão. São ambos ex-repúblicas da URSS, vizinhos contíguos da Rússia e ex-seguidores da mesma cartilha ideológico/político/econômico marxista que predominou em toda a região até 1991, quando a União Soviética se dissolveu. A experiência independente destes países tem, portanto, apenas 31 anos, ou seja, são Estados “jovens” que anteriormente, como “satélites”, serviam sobretudo como celeiro, no caso do Uzbequistão, e terreno de testes nucleares, como no do C...
A hora e a vez do Cazaquistão?
Cazaquistão, Europa, Rússia

A hora e a vez do Cazaquistão?

A Rússia enviou ontem, 06/01, tropas ao Cazaquistão para conter a crescente violência que tomou conta da população que se insurge contra o aumento do preço dos combustíveis. Esta é a primeira vez que manifestações deste tipo ocorrem no país. Os confrontos com as forças policiais já deixaram dezenas de mortos. Moscou atendeu ao pedido do Presidente Kassym-Jomart Tokayev, que até a “renúncia” do ex-presidente Nursultan Nazarbayev, em 2019, ocupava o cargo de Primeiro-Ministro do país. Nazarbayev presidiu o Cazaquistão por quase três décadas, a partir de 1990, quando a dissolução da União Soviética criou um vácuo de poder em todas as suas ex-repúblicas – Cazaquistão, Turcomenistão, Quirguistão, Tajiquistão e Uzbequistão – e o desafio para a nova liderança, composta então por membros d...
China e Taiwan, a história inacabada (ii)
Ásia, China

China e Taiwan, a história inacabada (ii)

Polemizando... O Estadão de hoje noticia laconicamente, num rodapé de página, uma questão que tem significado importantíssimo para os dois herdeiros de um dos mais dramáticos espólios da História do pós-colonialismo: a disputa entre a República Popular da China (RPC) e a República da China (ROC) pela representação legítima da China perante a comunidade internacional: "A NICARÁGUA ANUNCIOU ONTEM QUE ROMPEU AS RELAÇÕES DIPLOMÁTICAS COM TAIWAN E AGORA, PARA O GOVERNO DE DANIEL ORTEGA SÓ EXISTE UMA CHINA ,SEGUNDO DECLAROU SEU CHANCELER, DENIS MONCADA. "A REPÚBLICA POPULAR DA CHINA É O ÚNICO GOVERNO LEGÍTIMO QUE REPRESENTA TODA A CHINA , E TAIWAN É UMA PARTE INALIENÁVEL DO TERRITÓRIO CHINÊS, DISSE MONCADA" O que parece ser um tema distante da nossa realidade pode trazer, na verdad...