ISSN 2674-8053

Autor: Fausto Godoy

Doutor em Direito Internacional Público em Paris. Ingressou na carreira diplomática em 1976, serviu nas embaixadas de Bruxelas, Buenos Aires, Nova Déli, Washington, Pequim, Tóquio, Islamabade (onde foi Embaixador do Brasil, em 2004). Também cumpriu missões transitórias no Vietnã e Taiwan. Viveu 15 anos na Ásia, para onde orientou sua carreira por considerar que o continente seria o mais importante do século 21 – previsão que, agora, vê cada vez mais perto da realidade.
O Islã, o Irã, o Curdistão e o Hijab
Irã, Oriente Médio

O Islã, o Irã, o Curdistão e o Hijab

Policiais mulheres da República Islâmica do Irã - Foto Wikimedia Commons “Surata 24: 30 – Dize aos crentes que recatem os seus olhares e conservem os seus pudores, porque isso é mais benéfico para eles: Allah está bem inteirado de tudo quanto fazem;24:31 – Dize às fiéis que recatem os seus olhares, conservem os seus pudores e não mostrem os seus atrativos, além dos que (normalmente) aparecem; que cubram o colo com seus véus e não mostrem os seus atrativos, a não ser aos seus esposos, seus pais, seus sogros, seus filhos, seus enteados, seus irmãos, seus sobrinhos, às mulheres suas servas, seus criados isentas das necessidades sexuais, ou às crianças que não discernem a nudez das mulheres; que não agitem os seus pés, para que não chamem à atenção sobre seus atrativos ocultos. Ó fiéis, vo...
A visita da Senhora
Américas, Ásia, China, Estados Unidos

A visita da Senhora

A presidente da Câmara dos EUA, Nancy Pelosi, caminha ao lado da presidente de Taiwan, Tsai Ing-wen, em visita à sede presidencial da ilha, em Taipei, em 3 de agosto de 2022. — Foto: Presidência de Taiwan via Associated Press A visita de Nancy Pelosi, presidente da Câmara dos Representantes do Congresso americano a Taiwan, ontem, 02/08, teve o “mérito” de angariar tanto a discordância do Presidente Joe Biden quanto o opróbio dos chineses continentais. Confrontado com o “fait accompli”, Biden limitou-se a demonstrar sua contrariedade para com a iniciativa e alegar, como justificativa, a independência do Legislativo na ordem constitucional americana. Pequim, de sua parte, como esperado, considerou a visita uma “provocação militar”. Foram deslocados aviões de caça para o Estreito de Taiwa...
Droupadi Murmu, a nova presidente da Índia
Ásia, Índia

Droupadi Murmu, a nova presidente da Índia

Droupadi Murmu, nova presidente da Índia, em encontro antes das eleições presidenciais, em Ahmedabad, Índia Imagem: Amit Dave/Reuters No último dia 18 de julho, uma mulher e membro de uma minoria - as chamadas “scheduled tribes” (“tribos designadas”) -, Droupadi Murmu, venceu as eleições presidenciais na India. Ela é uma líder tribal e membro do partido político “Bharatiya Janata Party”/BJP, atualmente no poder. Desta forma, tornou-se o(a) 15º presidente do país e, com 64 anos, o mais jovem. Ela será também a primeira pessoa da minoria tribal a assumir o cargo. No dia 25/07 Droupadi-ji prestou o juramento solene e foi empossada. Anteriormente, ela havia sido governadora do Estado de Jharkhand, na costa leste do país, de 2015 a 2021. Agora sucede na presidência a Ram Nath Kovind, igualm...
E la nave va… o BRICS
África, África do Sul, Américas, Ásia, Brasil, China, Europa, Índia, Rússia

E la nave va… o BRICS

Merece reflexão atenta o artigo intitulado “O Brics Numa Nova Etapa”, do Embaixador Rubens Barbosa, que o Estadão publicou no dia 17/07, no qual ele analisa a 14ª cúpula do BRICS, realizada em 23/ 24 de junho, no formato virtual, sob a presidência de turno da China. O tema do encontro - “Promover uma Parceria de Alta Qualidade e Inaugurar uma Nova Era para o Desenvolvimento Global” - trata das próximas ações do grupo neste momento particularmente complexo em que um dos seus membros, a Rússia, promove uma guerra contra a Ucrânia, que tem, por sua vez, como pano de fundo, a ameaça que Moscou entende sofrer de parte do Ocidente contra o “status quo” da região que fez parte do “império” soviético. Conforme assinalou o Embaixador, “o encontro buscou aumentar a parceria entre o grupo e a...
A tragédia no Japão
Ásia, Japão

A tragédia no Japão

Shinzo Abe, ex-Primeiro Ministro do Japão - Foto JOHN THYS / AFP O assassinato do ex-Primeiro-Ministro do Japão, Shinzo Abe, que chocou o mundo, levanta questões profundas no seio da sociedade e governo japoneses contemporâneos. Questões além da política estrito senso, a meu ver, também indentitárias no sentido amplo do que é “ser japonês” num país que permaneceu fechado para o mundo durante quase trezentos anos durante o xogunato Tokugawa, invadiu os seus vizinhos no final do século XIX e início do XX, foi agressor durante a II Guerra Mundial e ao seu final, mesmo derrotado, tornou-se a segunda maior potência econômica do planeta... e vive hoje um processo de percebida estagnação e “despopulação”. Abe não representava apenas a si mesmo, mas toda uma dinastia política que atravessou...
A Rússia, a Ucrânia, a China, a Paz de Vestfália e a tal da globalização
Ásia, China, Europa, Rússia

A Rússia, a Ucrânia, a China, a Paz de Vestfália e a tal da globalização

O que me instigou a tratar da miscelânea de temas acima foi uma matéria do professor ucraniano Andrei Kolesnikov, “Senior Fellow do Carnegie Endowment for International Peace”, publicada na última edição do “Project Syndicate”, intitulada “Putin Against History”, em que ele afirma que “Putin virou tudo de cabeça para baixo. Ele destruiu todas as conquistas das últimas décadas, incluindo a dele. Ele conseguiu exatamente o oposto de seus objetivos declarados: em vez de desmilitarizar a Ucrânia, ele fez com que o país se armasse como nunca antes; em vez de manter a OTAN longe, ele a trouxe até as fronteiras da Rússia; em vez de tornar a Rússia grande novamente, ele conseguiu transformá-la, e seu povo, em uma nação pária. Tentando impor sua versão da história da nação, ele a privou de sua...
As eleições na França e os muçulmanos
Europa, França

As eleições na França e os muçulmanos

Tenho por princípio ater-me somente aos temas referentes à Ásia, que é a “minha praia”. Mas não pude resistir a “meter o meu bedelho” nas eleições presidenciais na França. Explico-me: morei em Paris durante quase seis anos, entre 1969 e 1975. Ali concluí a minha formação universitária, preparando-me para o concurso do Instituto Rio Branco. Cheguei em março de 1969, quando os paralelepípedos que calçavam o Boulevard Saint Michel, que os estudantes de Maio de 68 haviam arrancado para enfrentar as tropas policiais, ainda estavam jogados pelas calçadas. Paris vivia a “ressaca” libertária, imersa numa grande ebulição política. A juventude francesa afrontava cartesianamente, com seus agregados estrangeiros, o conservadorismo de seus pais e mestres; porém, “à la française”, num formato ”g...
Navroz Mubarak
Ásia, Índia

Navroz Mubarak

Hoje é o dia em que a comunidade zoroastrista comemora, na Índia e em vários países da Ásia Central, o Ano Novo. Corresponde, seguindo o calendário persa de mais de três mil anos, ao primeiro dia da primavera, e celebra a renovação da natureza. Esta celebração está profundamente enraizada nos rituais e nas tradições do Zoroastrismo, religião fundada por Zoroastro (ou Zaratustra, em persa antigo), e tem lugar, atualmente, em muitos países que foram parte dos antigos impérios iranianos, ou sofreram a sua influência. Fora do Irã, Navroz (Noruz, para os iranianos) é comemorado na Índia, no Curdistão, Afeganistão, Albânia, nas antigas repúblicas soviéticas, Turquia, e também por várias comunidades de origem iraniana no Ocidente e em todo o Oriente Médio; até mesmo na África (Fred Mercur...
O tal do poder (IV): A democracia, a Rússia, a Ucrânia e a “China de que lado está?”
Ásia, China, Europa, Rússia, Ucrânia

O tal do poder (IV): A democracia, a Rússia, a Ucrânia e a “China de que lado está?”

Presidentes da China (Xi Jinping) e Rússia (Putin) Escolhi o título desta postagem replicando o do artigo de Thomas Friedman, colunista do The New York Times, que o Estadão publicou no dia 08/03. Nele, Friedman assinala que “... a cada dia que passa, a guerra na Ucrânia se torna não apenas uma tragédia cada vez maior para o povo ucraniano, mas também uma ameaça maior para o futuro da Europa e do mundo como um todo. Existe apenas um país que pode ser capaz de impedir a guerra agora – e não são os Estados Unidos”...Continuando, ele pondera que “...se a China anunciasse que, em vez permanecer neutra, está se juntando ao boicote econômico à Rússia – ou até mesmo apenas condenando com firmeza sua invasão não provocada contra a Ucrânia e exigindo que os russos se retirassem do país – isso po...
O tal do poder (III): O “x” da questão: a OTAN
Organizações Internacionais, OTAN

O tal do poder (III): O “x” da questão: a OTAN

Foto de Kenzo TRIBOUILLARD / AFP O diplomata e analista político Ronald D. Asmus, juntamente com seus colegas Richard Kugler e Stephen Larrabee, do “think tank” americano RAND, criado logo ao final da II Guerra Mundial para promover estudos sobre questões de segurança dos Estados Unidos, numa matéria publicada na edição de setembro de 1993 da “Foreign Affairs”, intitulada “BUILDING A NEW NATO”, afirmavam, então, que “...uma fenda se abriu no seio da OTAN à medida que os interesses americanos e europeus divergiram sobre as guerras lideradas pelos EUA no Afeganistão e no Iraque. Ambos os lados tiveram que considerar esses eventos como um "alerta". No entender deles, “a aliança transatlântica precisava unir-se em torno de um novo propósito e de uma nova grande estratégia adequada para enf...