O radicalismo islâmico na Ásia Central e o Uzbequistão

O atentado desta semana em Nova York, perpetrado por um uzbeque, trouxe à baila uma questão até pouco tempo “silenciosa” para o grande público: a radicalização islâmica na Ásia Central.

A esse respeito, temos de olhar com cuidadosa atenção para o que está ocorrendo na região desde a partida dos soviéticos, em 1991. Este foi um tema, aliás, que me interessou muito quando servi em Astana/Cazaquistão, em 2013.

O primeiro tema para reflexão é o que ocorria nas repúblicas soviéticas, a partir de 1971, até o desmoronamento da URSS, em 1991, no que diz respeito ao culto da religião.

Recordemos: na formação e espraiamento da URSS, no início da década de 20 do século passado, os bolcheviques se confrontaram com a problemática de impor o comunismo a regiões de forte influência muçulmana. Tentaram, a princípio, convencer as populações a aderir ao ateísmo marxista; entretanto, diante da quase impossibilidade de levar a cabo este intento, acabaram por permitir a existência de mesquitas em alguns grandes centros, apenas. Como resultado, das cerca de 25 mil mesquitas em atividade nas estepes, em 1917, em 1970 contabilizavam-se cerca de 500 apenas, em toda a região.

Consequência: a religião abandonou o domínio público e se refugiou nos lares. Ou seja, a prática do islã e a observância dos seus preceitos passou a ser uma decisão pessoal, ou familiar. Com isto, a rigidez dogmática do “Alcorão cultural” foi atenuada pelas sociedades.No Cazaquistão e no Uzbequistão, as mulheres muçulmanas não somente não usam o véu, em sua grande maioria, senão também usam até minissaias (vejam a foto que estou postando, tirada numa rua de Astana). E os russos ortodoxos praticam livremente a sua fé: há igrejas católicas em todos os lugares por onde andei.

Esta seria a foto, o instantâneo. Mas qual seria o filme, ou seja, o processo em andamento, o “andar da carruagem”?

Aí é que vamos tentar perceber o que está ocorrendo.

As sociedades centro-asiáticas – de raiz turcomana e mongol, basicamente – liberadas do jugo soviético, não suportariam – isto ficou muito evidente para mim – que a Rússia preserve sua hegemonia – cultural, econômica, comercial, etc -, revivendo-se uma experiência que elas consideram nefastas na sua História. Evidentemente,como países “recém-nascidos” ( pois têm apenas 26 anos de existência…), eles estão agora em busca de uma vocação/definição. E seus líderes atuais são – ou foram – na grande maioria, ex- KGBs, e não podem (ou conseguem) se dar ao “luxo” de confrontar o “Czar” Putin ostensivamente.

Acendem, então,” uma vela para Moscou e a outra para….o Islã”, que é o único fator, por ora, que agrega as etnias e as tribos na região, e que é o cerne da sua História, e a verdadeira fronteira civilizacional. Ou seja, o “renascimento” religioso tem mais a ver com a afirmação da nacionalidade do que com a fé propriamente dita.

Assim é que nas inúmeras viagens que fiz pelo interior do Cazaquistão – e do Uzbequistão – era notória a proliferação de mesquitas, financiadas na sua grande maioria, segundo me disseram, pela Arábia Saudita. Com a pregação abre-se uma porta para a radicalização fundamentalista, fruto do desajustamento dessas populações, mais conservadoras, ao reequilíbrio e à inserção num processo de globalização que lhes parece inadequado, e impiedoso.

Daí até a um uzbeque confrontado, em Nova York, com as múltiplas realidades que escapam ao seu entendimento, e à sua fé, foi um passo.

Trágico…

Sugiro que leiam esta matéria do Estadão, que explica um pouco o contexto histórico-político


Usbequistão, reduto do Islã radical na Ásia central

Movimento islâmico radical surgiu no país em 1991, o ano de sua independência

O Estado de S.Paulo – 01 Novembro 2017 | 12h09

WASHINGTON – País de origem do autor do ataque de Nova York, o Usbequistão viu surgir, a partir da década de 1990, um movimento islâmico radical que se espalha atualmente, com usbeques envolvidos em vários ataques em todo mundo. Segundo a imprensa americana, o motorista da caminhonete branca que atropelou ciclistas e pedestres  é Sayfullo Saipov, um usbeque de 29 anos que mora em New Jersey.

Ele teria visto de residência permanente, o green card, de acordo com o jornal The New York Times, que afirma que já “estava sob o radar” da Polícia. O presidente do Usbequistão, Chavkat Mirzioyev, prometeu usar todas as suas forças e recursos para ajudar na investigação sobre este ato terrorista.

Ex-república soviética, laica e de maioria muçulmana, o Usbequistão foi dirigido com mão de ferro pelo autoritário Islam Karimov de 1989 até sua morte, em setembro de 2016. Chavkat Mirzioev, seu ex-primeiro-ministro, assumiu as rédeas do país, defendendo uma ruptura com o autoritarismo de seu antecessor. O movimento islâmico radical surgiu no país em 1991, o ano de sua independência.

O Movimento Islâmico do Usbequistão (MIO) surgiu em um vale povoado por 12 milhões de habitantes, o Vale de Ferghana, localizado no leste do país, mas que também abrange parte dos territórios do Quirguistão e do Tadjiquistão.

De 1992 a 1997, o MIO foi acusado de estar por trás de uma série de assassinatos cometidos no Vale de Ferghana. A organização tentou introduzir a lei islâmica na região e chegou a lançar uma ofensiva em 2000 no sul do Usbequistão. Severamente reprimido a partir de 1998 por Islam Karimov, o MIO se juntou ao Taleban no Afeganistão, antes de jurar lealdade ao grupo Estado Islâmico (EI) em 2015. Vários líderes do MIO também ocuparam altos cargos na Al-Qaeda.

Radicalismo

O Movimento Islâmico do Usbequistão participou do ataque sangrento no aeroporto paquistanês de Karachi, que matou 37 pessoas em junho de 2014.

Os islamitas uzbeques se fizeram ouvir principalmente no exterior. Como os demais países da Ásia central – Quirguistão, Tadjiquistão, Turcomenistão e Casaquistão -, as sombrias perspectivas econômicas e a corrupção levaram muitos jovens ao exílio, principalmente na Rússia.

Entre eles, alguns tentaram se juntar a grupos radicais. Segundo os serviços de segurança russos, entre 2.000 e 4.000 cidadãos da Ásia central se uniram às fileiras das organizações extremistas no Iraque e na Síria, seja do EI, seja da facção síria da Al-Qaeda.

E os cidadãos usbeques, ou aqueles de origem usbeque que vivem em países vizinhos, formam um dos maiores contingentes. O governo do Usbequistão nunca publicou números sobre seus cidadãos que se juntaram aos jihadistas, mas as estimativas de especialistas variam de 500 a mais de 1.500.

Muitos deles se fizeram conhecer nos últimos anos. Abdulkadir Masharipov, o suposto autor do ataque reivindicado pelo EI contra uma boate em Istambul, que matou 39 pessoas na véspera do Ano Novo, é de nacionalidade uzbeque.

Apesar de ter nascido no Quirguistão e de possuir nacionalidade russa, Akbarjon Dkhalilov, o suposto autor do atentado no metrô de São Petersburgo que matou 14 pessoas em abril, era etnicamente uzbeque.

Poucos dias após o ataque em São Petersburgo, um usbeque, que havia manifestado simpatia pelo EI, foi preso pela Polícia sueca depois de dirigir um caminhão contra uma multidão em uma movimentada rua de pedestres em Estocolmo. Cinco pessoas morreram nesse episódio.

Fonte: http://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,usbequistao-reduto-do-isla-radical-na-asia-central,70002068806

Fausto Godoy
Doutor em Direito Internacional Público em Paris. Ingressou na carreira diplomática em 1976, serviu nas embaixadas de Bruxelas, Buenos Aires, Nova Déli, Washington, Pequim, Tóquio, Islamabade (onde foi Embaixador do Brasil, em 2004). Também cumpriu missões transitórias no Vietnã e Taiwan. Viveu 15 anos na Ásia, para onde orientou sua carreira por considerar que o continente seria o mais importante do século 21 – previsão que, agora, vê cada vez mais perto da realidade.