Por que uma Ucrânia fraca pode ser a causa de uma guerra atômica?

A Coréia do Norte é um regime ditatorial que historicamente tem sustentado sua estrutura doméstica de poder doméstico na militarização. Mais do que o uso das forças armadas para reprimir a população, isso significa que o Estado norte-coreano age a partir de dimensões militares. Geralmente esses Estados têm um baixo nível de desenvolvimento econômico e, por consequência, tende a ter também um baixo nível de desenvolvimento tecnológico.

Até aqui, já foram vistos outros casos semelhantes no mundo e a Coréia do Norte seria apenas mais um. A grande diferença é que, ao contrário do que era esperado, o país agora apresenta um programa balístico e nuclear muito acima de suas capacidades tecnológicas. Especialmente ao considerarmos os mísseis que têm sido apresentados recentemente pelo governo de Kim Jong-Um.

Os testes dos mísseis balísticos intercontinentais mostram que o país conseguiria, em tese, lançar mísseis que podem atingir lugares distantes, como os Estados Unidos. Assim, o poder de ataque norte-coreano ganha uma dimensão capaz de ameaçar a estabilidade não só da região, mas também de outros importantes polos de poder.

A questão que fica é: se o país apresenta um nível de desenvolvimento tecnológico que dificilmente conseguiria produzir um míssil desta magnitude, como então a Coréia do Norte tem esses mísseis?

Uma das mais prováveis explicações está em outra região do mundo e que passou por recentes mudanças estruturais que em nada se relacionam com a Ásia do Sul: a Ucrânia.

Voltando um pouco no tempo, um dos mais importantes programas balísticos e nucleares do mundo foi o soviético. Naquele modelo, a Ucrânia desenvolvia um importante papel no desenvolvimento de armas, com especial destaque para sua participação no programa balístico russo.

Especialistas em segurança e defesa, ao analisarem o perfil dos mísseis (fotos, padrões de lançamento e vôo), indicam que estes seguem os mesmos padrões dos então mísseis soviéticos, hoje também ucranianos. Ao que parece, os mísseis (ou partes deles) foram originalmente construídos na fábrica Yuzhmas, localizada na cidade de Dnipro, que fica no sudoeste da Ucrânia.

A Ucrânia vem passando por um momento político-econômico conturbado. Recentemente envolveu-se em conflitos com a vizinha Rússia por conta da independência de uma região sua com a consequente aproximação/junção com a Rússia. Esse conflito é apenas uma parte da um problema estrutural. O país apresenta dificuldades para se estruturar, o que limita suas possibilidades econômicas.

É possível que o governo ucraniano não tenha uma relação direta com essa transação, ainda assim, a condição na qual o país se encontra abre espaço para que materiais bélicos ou mesmo tecnologias militares sejam vendidas. Num mundo que apresenta aumento de turbulência e insegurança, esse tipo de comércio fica ainda mais aquecido e, portanto, perigoso.

Assim, a discussão sobre Estados falidos (ou desestruturados) passa a ganhar novas dimensões. Mais do que olhar para dentro deles, é preciso entender como eles e suas histórias se inserem na realidade global.

Se efetivamente for verdadeira, como indicam alguns especialistas, a ideia de que o programa balístico norte-coreano tem ligações com a Ucrânia, uma nova luz deve ser levada para o que vai acontecer com a Ucrânia. Por exemplo, o presidente norte-americano Donald Trump anunciou recentemente que vai ampliar as colaborações entre EUA e Ucrânca. Isso seria uma notícia boa, não fosse o foco desta cooperação estar justamente na área militar.

De acordo com o Secretário de Defesa norte-americano, Jim Mattis, a ideia é que os EUA ofereçam armas de defesa para o governo ucraniano. Há informações indicando que, dentro desta possibilidade, poderá haver o envio de mísseis guiados anti-tanque.

O objetivo imediato desta colaboração relaciona-se com as tensões entre a Rússia e a Ucrânia. No entanto, as consequências estratégicas podem ser muito mais amplas.

Num mundo com aumento de tensões e instabilidades – especialmente considerando-se um possível comércio já estabelecido entre Ucrânia e Coréia do Norte – o apoio norte-americano para a Ucrânia pode acabar sendo o apoio para o fortalecimento da Coréia do Norte.

Mais do que a colaboração na área militar, é importante entender antes qual a real capacidade que o estado ucraniano terá de controlar e reter aparatos e tecnologias militares. De outra forma, a tentativa de se fortalecer para uma tensão local pode acabar sendo o combustível para uma guerra muito maior, em outro lugar.

Rodrigo Cintra
Pós-Doutor em Competitividade Territorial e Indústrias Criativas, pelo Dinâmia – Centro de Estudos da Mudança Socioeconómica, do Instituto Superior de Ciencias do Trabalho e da Empresa (ISCTE, Lisboa, Portugal). Doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (2007), Mestre em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (2001) e Bacharel em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1998). Atualmente é Coordenador do curso de graduação em Relações Internacionais e da Pós em Negócios Internacionais da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), além do gestor da Diretoria de Internacionalização.