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Autor: Rodrigo Cintra

Pós-Doutor em Competitividade Territorial e Indústrias Criativas, pelo Dinâmia – Centro de Estudos da Mudança Socioeconómica, do Instituto Superior de Ciencias do Trabalho e da Empresa (ISCTE, Lisboa, Portugal). Doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (2007). É Diretor Executivo do Mapa Mundi. ORCID https://orcid.org/0000-0003-1484-395X
O mundo não está desglobalizando está construindo globalizações rivais
Américas, Ásia, China, Japão

O mundo não está desglobalizando está construindo globalizações rivais

Durante os últimos anos, a ideia de desglobalização tornou-se uma das explicações mais utilizadas para compreender a economia mundial. Guerras comerciais, tarifas, sanções, nacionalismo econômico, conflitos militares e a busca por cadeias produtivas mais seguras pareciam indicar que o longo ciclo de integração iniciado nas últimas décadas do século XX estava chegando ao fim. A realidade, porém, está mostrando algo diferente. A globalização não desapareceu. Ela está sendo reorganizada. O comércio internacional continua gigantesco, as cadeias globais de produção permanecem fundamentais e empresas continuam dependendo de fornecedores distribuídos por vários continentes. Em 2025, o comércio mundial alcançou um novo recorde, impulsionado especialmente pela Ásia, pelo comércio Sul-Sul e pelas...
O Sul Global existe quando seus interesses são tão diferentes?
África, África do Sul, Américas, Ásia, Brasil, Europa, Índia, Rússia

O Sul Global existe quando seus interesses são tão diferentes?

O Sul Global tornou-se uma das expressões mais utilizadas para explicar a transformação da política internacional. Brasil, Índia, China, África do Sul, Indonésia, Arábia Saudita, Nigéria e dezenas de outros países aparecem reunidos sob uma mesma categoria que procura representar o deslocamento gradual do poder econômico e político para além do núcleo tradicional formado pelos Estados Unidos, Europa e Japão. O problema é que esses países possuem interesses, regimes políticos, níveis de desenvolvimento e prioridades estratégicas profundamente diferentes. A pergunta, portanto, tornou-se inevitável: o Sul Global realmente existe? A resposta depende do que esperamos encontrar. Se procurarmos uma aliança organizada, com objetivos comuns e disposição para agir coletivamente, provavelmente n...
A China descobriu os limites do seu próprio poder
Ásia, China

A China descobriu os limites do seu próprio poder

Durante décadas, a ascensão da China foi apresentada como uma trajetória quase inevitável. O país crescia mais rapidamente do que as principais economias ocidentais, transformava-se na fábrica do mundo, acumulava reservas, modernizava suas Forças Armadas e ampliava sua presença na Ásia, África e América Latina. A pergunta parecia simples: quando a China alcançaria os Estados Unidos e passaria a disputar diretamente a liderança mundial? Essa pergunta continua importante, mas já não é suficiente. A China tornou-se poderosa demais para ser contida facilmente, mas ainda não é poderosa o suficiente para reorganizar o sistema internacional segundo seus interesses. Essa diferença entre possuir poder e conseguir transformá-lo em liderança talvez seja um dos aspectos mais importantes da polít...
A multipolaridade chegou mas ninguém sabe como administrá-la
Américas, Ásia, Brasil, China, Europa, França, Índia, Rússia

A multipolaridade chegou mas ninguém sabe como administrá-la

A transformação mais importante da política internacional contemporânea talvez não seja a ascensão da China, o enfraquecimento relativo dos Estados Unidos ou o crescimento do chamado Sul Global. É a combinação desses movimentos em um sistema no qual nenhum país consegue estabelecer sozinho as regras, mas tampouco existe um grupo suficientemente coeso para substituí-las. A multipolaridade deixou de ser uma previsão sobre o futuro e passou a fazer parte do presente. O problema é que o mundo aprendeu a distribuir poder antes de aprender a administrá-lo. Durante muito tempo, falar em multipolaridade significava imaginar o surgimento de novos centros de poder capazes de reduzir a predominância norte-americana. Essa transformação aconteceu. China, Índia, Rússia, Brasil, Turquia, Arábia Saudit...
Série IA e China: Depois da inteligência artificial
Ásia, China

Série IA e China: Depois da inteligência artificial

Depois da inteligência artificial Ao longo desta série, a inteligência artificial ocupou o centro da discussão. Partimos da estratégia chinesa de desenvolver modelos abertos, analisamos a transformação da IA em infraestrutura, examinamos a reorganização das cadeias globais de valor e discutimos como empresas e países precisarão adaptar suas instituições para uma economia em que a inteligência se torna progressivamente abundante. Ao final desse percurso, contudo, talvez seja possível reconhecer que a inteligência artificial nunca constituiu o verdadeiro objeto desta reflexão. Ela serviu como ponto de partida para compreender uma transformação muito mais ampla, relacionada à forma como as revoluções tecnológicas reorganizam a economia e redistribuem o poder entre sociedades. Essa persp...
Série IA e China: A vantagem competitiva do século XXI
Ásia, China

Série IA e China: A vantagem competitiva do século XXI

Ao longo desta série, procurei desenvolver uma hipótese que, à primeira vista, pode parecer contraintuitiva. A inteligência artificial talvez não represente o principal ativo econômico da próxima década. À medida que modelos cada vez mais sofisticados se tornam amplamente disponíveis, seu acesso tende a deixar de constituir um diferencial competitivo isolado. Como ocorreu anteriormente com a eletricidade, a internet e outras grandes infraestruturas tecnológicas, a vantagem deixará de residir na tecnologia em si e passará a depender da capacidade de utilizá-la de maneira mais eficiente do que os demais. Essa conclusão conduz naturalmente a uma nova pergunta. Se todos poderão acessar sistemas semelhantes de inteligência artificial, o que continuará diferenciando empresas, regiões e países...
Série IA e China: O novo capitalismo da abundância
Ásia, China

Série IA e China: O novo capitalismo da abundância

Existe uma ideia que acompanha o pensamento econômico desde seus primeiros formuladores e que continua orientando grande parte das decisões de empresas e governos. Mercados funcionam porque determinados recursos são escassos. Quanto menor a disponibilidade de um bem desejado, maior tende a ser seu valor econômico. Essa lógica explica a formação dos preços de matérias-primas, o comportamento dos mercados financeiros e, sobretudo, o esforço permanente das empresas para desenvolver tecnologias exclusivas. Inovar sempre significou criar uma nova escassez. Enquanto poucos dominam determinado conhecimento ou tecnologia, é possível obter retornos extraordinários decorrentes dessa vantagem competitiva. A economia digital foi construída, em grande medida, sobre esse mesmo princípio. Empresas com...
Série IA e China: Quem controla a inteligência artificial?
Ásia, China

Série IA e China: Quem controla a inteligência artificial?

Quem controla a inteligência artificial? Ao longo dos últimos anos, a inteligência artificial passou a ocupar posição central nas discussões sobre economia, inovação e segurança internacional. Nesse contexto, tornou-se comum afirmar que o mundo assiste a uma corrida tecnológica entre Estados Unidos e China, na qual vencerá quem desenvolver os modelos mais sofisticados. Embora essa narrativa possua algum fundamento, ela simplifica excessivamente um fenômeno muito mais complexo. A própria pergunta que orienta boa parte desse debate, quem controla a inteligência artificial, talvez esteja formulada de maneira equivocada, pois pressupõe que exista um único centro de poder capaz de dominar essa tecnologia. Na realidade, a inteligência artificial não constitui um setor econômico isolado. El...
Série IA e China: Quando a inteligência artificial deixa de ser produto
Ásia, China, Temas Globais

Série IA e China: Quando a inteligência artificial deixa de ser produto

No artigo anterior, propus uma hipótese aparentemente paradoxal. Talvez a estratégia chinesa de disponibilizar modelos avançados de inteligência artificial de forma aberta ou a custos extremamente reduzidos não tenha como objetivo principal conquistar usuários. Seu propósito pode ser muito mais ambicioso: transformar a inteligência artificial em uma infraestrutura acessível a todos. Se essa hipótese estiver correta, a consequência mais importante não será tecnológica. Será econômica. Para compreender essa mudança, vale recordar como normalmente percebemos as grandes inovações. Quando surge uma nova tecnologia, nossa atenção costuma concentrar-se sobre o objeto visível. No século XIX, as pessoas acreditavam que a grande inovação era a lâmpada elétrica. Mais tarde, imaginou-se que a inter...
Série IA e China: A abundância como arma geopolítica
Ásia, China

Série IA e China: A abundância como arma geopolítica

Durante muito tempo, a competição em inteligência artificial pareceu seguir um roteiro conhecido. Empresas investiam dezenas de bilhões de dólares para desenvolver modelos cada vez mais sofisticados, protegiam seu código, restringiam o acesso às versões mais avançadas e monetizavam essa vantagem por meio de assinaturas, licenças e contratos corporativos. A lógica era simples. Quem construísse o melhor modelo capturaria a maior parte do mercado. Nos últimos meses, porém, essa narrativa começou a apresentar fissuras. Modelos chineses como DeepSeek, Qwen, Kimi e GLM passaram a demonstrar desempenho próximo ao dos principais sistemas americanos, mas seguindo uma estratégia radicalmente distinta. Em vez de restringir o acesso, foram disponibilizados de forma aberta ou a custos extremamente r...