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Autor: Rodrigo Cintra

Pós-Doutor em Competitividade Territorial e Indústrias Criativas, pelo Dinâmia – Centro de Estudos da Mudança Socioeconómica, do Instituto Superior de Ciencias do Trabalho e da Empresa (ISCTE, Lisboa, Portugal). Doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (2007). É Diretor Executivo do Mapa Mundi. ORCID https://orcid.org/0000-0003-1484-395X
A arquitetura global em fratura e a América Latina sob pressão
Américas, Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), Cuba, Estados Unidos, OEA, Organizações Internacionais, Panamá

A arquitetura global em fratura e a América Latina sob pressão

A arquitetura internacional atual atravessa um processo de corrosão acelerada, e uma parte importante dessa deterioração passa pela forma como os Estados Unidos têm atuado. No plano global, isso aparece na normalização de sanções unilaterais, na pressão sobre terceiros países, na instrumentalização de alianças e na substituição de fóruns multilaterais por decisões de força. No plano regional, especialmente na América Latina, o efeito é ainda mais visível: em vez de fortalecer mecanismos próprios de concertação, Washington tem empurrado a região para uma lógica de alinhamento, securitização e disputa geopolítica. O resultado não é ordem. É instabilidade.  O problema central é que a arquitetura global depende de previsibilidade, regras e algum respeito à soberania. Quando grandes pot...
A Antártida congelada e a disputa que nunca terminou
Américas, Argentina, Áustria, Chile, Europa, França, Noruega, Nova Zelândia, Oceania, Reino Unido

A Antártida congelada e a disputa que nunca terminou

A Antártida costuma ser apresentada como o último território neutro do planeta, um espaço dedicado à ciência, à cooperação e à paz. Essa imagem, embora parcialmente verdadeira, esconde uma realidade mais complexa: o continente não foi despolitizado, mas sim colocado em suspensão jurídica. O Tratado da Antártida, assinado em 1959, não resolveu a questão da soberania. Ele apenas congelou um conflito potencial, adiando decisões que continuam latentes e que podem ressurgir com força nas próximas décadas. Antes do tratado, sete países já haviam apresentado reivindicações territoriais formais sobre partes da Antártida: Argentina, Chile e Reino Unido, com áreas sobrepostas; além de Austrália, França, Nova Zelândia e Noruega. Em vez de arbitrar essas disputas, o tratado optou por uma solução pr...
O cartel possível e o poder esquecido das commodities
Américas, Argentina, Brasil, OPEP, Organizações Internacionais

O cartel possível e o poder esquecido das commodities

A ideia de que países produtores possam se organizar para controlar oferta, preços e cadeias estratégicas não é nova, mas continua sendo tratada como exceção no debate internacional. A Organização dos Países Exportadores de Petróleo transformou-se, ao longo de décadas, em um exemplo concreto de como recursos naturais podem ser convertidos em poder político e econômico. Fora do petróleo, no entanto, essa lógica raramente é aplicada com a mesma ambição. Para países como o Brasil, essa ausência não é apenas uma lacuna institucional. É uma oportunidade histórica negligenciada. O Brasil ocupa posições centrais em diversos mercados globais. É líder ou protagonista na produção de soja, carne bovina, café, açúcar, minério de ferro e, cada vez mais, em produtos ligados à transição energética, co...
O tribunal dos vencedores e os limites da justiça internacional
Américas, Ásia, China, Estados Unidos, Europa, Organizações Internacionais, Rússia, TPI - Tribunal Penal Internacional

O tribunal dos vencedores e os limites da justiça internacional

O Tribunal Penal Internacional nasceu com a promessa de representar um avanço civilizatório: a criação de uma instância permanente capaz de julgar crimes graves como genocídio, crimes de guerra e crimes contra a humanidade, independentemente da vontade dos Estados nacionais. No entanto, mais de duas décadas após sua criação, o funcionamento concreto do TPI revela um conjunto de limitações estruturais e políticas que colocam em xeque sua pretensão de universalidade. Longe de ser um instrumento neutro de justiça global, o tribunal frequentemente é percebido como seletivo, limitado e condicionado pelas assimetrias de poder que marcam o sistema internacional. A principal fragilidade do TPI está em sua dependência dos próprios Estados para funcionar. Diferentemente de sistemas judiciais naci...
A influência persistente e os limites da soberania na América Latina
Américas, Cuba, Estados Unidos, Nicarágua, Venezuela

A influência persistente e os limites da soberania na América Latina

A política externa recente dos Estados Unidos em relação à América Latina tem sido marcada por uma combinação de pressão diplomática, instrumentos econômicos e intervenções indiretas que, embora frequentemente justificadas em nome da democracia e da estabilidade, acabam por reforçar padrões históricos de dependência e limitar a autonomia dos países da região. Em vez de uma relação baseada em cooperação equilibrada, o que se observa é a continuidade de práticas que muitos analistas classificam como formas contemporâneas de ingerência, com impactos profundos sobre a capacidade dos Estados latino-americanos de conduzirem seus próprios destinos políticos e econômicos. Nos últimos anos, Washington tem intensificado sua atuação em temas considerados estratégicos, como eleições, políticas ener...
Quando o esporte morto não produz indignação
Américas, Estados Unidos, Irã, Israel, Oriente Médio

Quando o esporte morto não produz indignação

Fiz a checagem e a conclusão é esta: a notícia tem base factual, mas está circulando com detalhes imprecisos. Há vários relatos publicados no fim de fevereiro e no início de março de 2026 dizendo que um ataque a um ginásio em Lamerd, na província iraniana de Fars, matou cerca de 20 jovens jogadoras de vôlei. O ponto mais forte de confirmação é que a FIVB publicou em 1º de março de 2026 uma nota oficial dizendo estar “chocada” com relatos de que “several young volleyball players in Iran” haviam sido mortas.  O que não consegui confirmar foi a formulação exata de que isso ocorreu “em 3 de março”. Os registros encontrados apontam o episódio para 28 de fevereiro ou sua repercussão em 1 e 2 de março, e não especificamente no dia 3. Também há diferença entre as versões sobre a atribuição...
A nova fronteira invisível da desigualdade digital
Américas, Ásia, Brasil, Chile, China, Índia, México, Organizações Internacionais, Sul Global

A nova fronteira invisível da desigualdade digital

A crescente pressão de países desenvolvidos para regulamentar a inteligência artificial tem sido apresentada como um esforço necessário para garantir segurança, ética e transparência no uso dessas tecnologias. No entanto, por trás desse discurso normativo, emerge uma dinâmica mais profunda e menos debatida: a utilização da regulação como instrumento de poder, capaz de reorganizar hierarquias globais e consolidar uma nova forma de dependência tecnológica. Para o Sul Global, esse movimento pode representar não apenas exclusão digital, mas a consolidação de uma espécie de colonização digital moderna. A lógica é sutil, mas eficaz. Ao estabelecer padrões técnicos, requisitos de governança e critérios de certificação altamente complexos, os países mais avançados em tecnologia criam barreiras ...
A recusa espanhola e o novo tabuleiro geopolítico contra o Irã
Américas, Espanha, Estados Unidos, Europa, Irã, Oriente Médio

A recusa espanhola e o novo tabuleiro geopolítico contra o Irã

A decisão da Espanha de restringir o uso de seu espaço aéreo por aeronaves militares dos Estados Unidos reacendeu um debate mais amplo sobre a crescente pressão de Washington e Tel Aviv contra o Irã e sobre a natureza desse movimento no cenário internacional. Mais do que um episódio isolado de divergência entre aliados ocidentais, o gesto espanhol sinaliza fissuras em uma estratégia que, para muitos observadores, carrega traços de um neocolonialismo adaptado ao século XXI, no qual poder militar, sanções econômicas e narrativas políticas se combinam para moldar comportamentos de Estados considerados dissidentes. O pano de fundo dessa tensão envolve a intensificação das ações dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, especialmente no que diz respeito ao programa nuclear iraniano e à su...
Américas, Estados Unidos, ONU, Organizações Internacionais

A erosão silenciosa da ordem internacional

A crescente interferência de Estados sobre outros sem respaldo claro no ordenamento jurídico internacional tem se consolidado como uma das principais características da atual fase das relações globais, com os Estados Unidos ocupando papel central nesse processo e contribuindo para o enfraquecimento das regras que sustentaram a ordem internacional no pós-Guerra Fria. Esse movimento, marcado por ações unilaterais, sanções extraterritoriais e intervenções indiretas, tem provocado reações em diferentes regiões do mundo e alimentado uma transição rumo a um sistema mais fragmentado e imprevisível. Nas últimas décadas, a arquitetura jurídica internacional foi construída sobre princípios como soberania, não intervenção e resolução multilateral de conflitos. Instituições como as Nações Unidas fo...
Quando a “agenda verde” se transforma em instrumento de poder
África, Américas, Ásia, Brasil, Europa, Irã, Oriente Médio, Rússia, Ucrânia, Venezuela

Quando a “agenda verde” se transforma em instrumento de poder

A proteção ambiental tornou-se uma das grandes prioridades do século XXI. Mudanças climáticas, degradação de ecossistemas, perda de biodiversidade e poluição global exigem respostas urgentes e coordenadas entre países. Ao mesmo tempo, porém, a crescente centralidade da agenda verde nas políticas internacionais também abriu espaço para um debate cada vez mais sensível: até que ponto medidas ambientais podem se transformar em instrumentos de pressão econômica e geopolítica. Em vários casos recentes, políticas ambientais passaram a ser utilizadas de forma unilateral, criando barreiras comerciais ou restrições econômicas que acabam limitando a atuação de outros países no sistema internacional. A importância da proteção ambiental é difícil de contestar. Fenômenos como o aumento da temperatur...