Os Sufistas e o caminho para o paraíso

“Um dia, o sol admitiu:
Sou apenas uma sombra,
quisera poder mostrar-te a infinita incandescência
que lançou minha imagem brilhante.
Quisera poder mostrar-te, quando você se sentir só ou na escuridão,
a surpreendente luz do seu próprio ser.”

                               Khwaja Samsu d-Din Muhammad Hafez (1310 / 1337)


Estou dando um curso sobre as religiões da Ásia na ESPM – agora “virtualmente”-, coincidentemente neste momento em que um vírus perverso vai nos roubando parentes e amigos e nos confrontando, aleatoriamente, com a questão essencial para a maioria de nós, que é a inevitabilidade da Morte.

Neste clima tenso – e imponderável -, achei que poderia (deveria…) compartilhar com os amigos algumas reflexões sobre as religiões que estou abordando com os meus alunos. Acredito que o exercício de nos voltarmos para a nossa essência possa ser “salutar” na busca de encontrarmos forças para ultrapassar estes momentos trágicos.

A primeira delas que pensei em abordar, por sua importância na atualidade, é o Islã. Mas, dentro dele escolhi a corrente sufista, que tanta celeuma levanta entre os próprios muçulmanos: afinal, os sufistas são muçulmanos ”à part entière”? Se não, o que são eles?

Vamos recorrer à História para as nossas reflexões. Mas antes disto, vamos tentar definir – palavra tão relativa…- o que é o sufismo. Em árabe – تصوف – em persa: صوفیگری – o sufismo é popularmente conhecido como a corrente “mística” do Islã. A palavra em árabe que designa este processo é “tasawwuf”.

O esteio da fé é o Alcorão, tal como ditado pelo Anjo Gabriel ao Profeta Maomé. Sobre esta base os sufistas procuram desenvolver um relacionamento íntimo, contínuo e direto com Allah = Deus = o Divino. O sufismo é, em última instância, um processo de autoconhecimento. Seus adeptos lançam mão de práticas que nem sempre seguem um padrão determinado, e são frequentemente incompreensíveis para o “outsider”, por lhe parecerem demasiado “esotéricas”. Às orações, cânticos, música e a prática do jejum no Ramadã, eles incorporaram manifestações cuja legalidade é objeto de divergência entre os teólogos islâmicos: por exemplo, o uso do haxixe nas cerimônias para “liberar” a consciência e colocar o oficiante em sintonia com o Divino.

A principal controvérsia que levantam seus irmãos de fé é a respeito do conceito do Divino. Os sufis acreditam que Deus/Allah é “Amor”. Assim, o contato com o Ser Supremo pode ser alcançado através de uma união mística, independentemente da religião praticada. Neste caminho, os sufistas mais radicais chegam a ir além da ideia de um Deus/Allah único e onipotente e se se aproximam do conceito de “energia”, similar ao hinduísmo, ao budismo, e até o próprio taoismo. É em razão deste conceito, radical e contrário à ideia convencional do Deus/Allah do Alcorão, que os sufistas são muitas vezes acusados de blasfêmia, e têm sofrido perseguições.

As ordens sufis (“turug”) podem estar associadas tanto ao Islã sunita quanto xiita, uma vez que não se trata de uma divisão dentro da fé, mas sim de uma visão interior – esotérica – da vida e do ser. Não obstante,a corrente conta com mais adeptos entre os sunitas.

O pensamento sufi se fortaleceu no Oriente Médio, no século VIII, e hoje se encontra difundido por todo o mundo. Em muitos países da Ásia, do Oriente Médio e da África, as ordens sufistas foram as responsáveis pela introdução do Islã. Durante a Idade Média, o “santo” sufi Alfazali (1059–1111) afastou-se da vida mundana para empreender sua busca por Allah/Deus; seus escritos ajudaram a amalgamar aspectos considerados heréticos do sufismo com o islamismo ortodoxo. Em números, os sufis atingiram seu auge na era moderna, entre 1550 e 1800. E ainda que perseguidos em alguns países islâmicos, eles estão presentes atualmente em diversas partes do mundo.

Um dos exercícios contemplativos importantes para os sufis é o “zikr”. Em formação circular, os oficiantes se movimentam em fileiras dispostas em formato de anéis que se entrelaçam, acompanhando a cadência de um canto rudimentar. O movimento do corpo, a batida dos pés e o som que emitem preenchem o ambiente, ao tempo em que a voz de um deles entoa cânticos em reverência a Allah. Neste clima, os praticantes “abandonam” o seu corpo físico e se elevam ao espaço do sagrado. Esta cerimônia é muito praticada na Turquia. Tive o privilégio de assistir a uma delas em Istambul, local em que os adeptos são conhecidos como “whirling dervishes”. É uma cerimônia muito comovedora…Assisti a uma outra, também, muito diferente, em Lahore, no Paquistão.

Foi na época medieval que os sufis aprenderam a disfarçar em poesias complexas qualquer afirmação que pudesse ser considerada um desafio à crença num “Deus Único”. Desta forma, só os”iniciados” podiam decifrá-las. A poesia passou a ser desde então um dos principais alimentos da fé. Dentre os milhares destes eleitos, destaca-se a figura do grande poeta Rumi (Jalāl al-Dīn Rūmī), que viveu no século XIII. Ele é considerado o maior poeta místico da história da humanidade.

Sua obra foi traduzida em várias línguas, inclusive em português. Aqui vai um exemplo:

Faltam-te pés para viajar?
Viaja dentro de ti mesmo, e reflete como a mina de rubis,
Os raios de sol para fora de ti.

A viagem conduzirá a teu ser.
transmutará teu pó em ouro puro.”

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Doutor em Direito Internacional Público em Paris. Ingressou na carreira diplomática em 1976, serviu nas embaixadas de Bruxelas, Buenos Aires, Nova Déli, Washington, Pequim, Tóquio, Islamabade (onde foi Embaixador do Brasil, em 2004). Também cumpriu missões transitórias no Vietnã e Taiwan. Viveu 15 anos na Ásia, para onde orientou sua carreira por considerar que o continente seria o mais importante do século 21 – previsão que, agora, vê cada vez mais perto da realidade.