Impactos da pandemia na educação da Europa

Em 11 de março de 2020 a Organização Mundial da Saúde decretou a Covid uma pandemia e desde então parte significativa das atividades de vários setores tiveram que ser reformuladas para atender aos novos critérios sanitário e, com a educação, não foi diferente, afetando diretamente um total de aproximadamente 897 milhões de alunos que frequentam escola, sem falar do ensino superior. Porém, o que chama atenção foi como um número considerável de países europeus lidou com os impasses, pois várias nações conseguiram voltar às aulas em poucos dias.

Outrossim, durante a segunda onda de COVID-19 na Europa, muitos países optaram por manter restrições, cada um com sua especificidade, para a população, a fim de evitar o contágio da      população e fazer com que o sistema de saúde não colapsasse. Porém, várias nações europeias optaram por manter determinados estabelecimentos fechados enquanto as escolas continuaram abertas, e essa decisão ocorreu por conta de vários motivos. Um deles, é o fato de que a minoria dos casos de COVID nos países da União Europeia foram identificados em crianças, cerca de 5% apenas de acordo com o ECDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças da Europa). Além disso, havia uma enorme preocupação com os efeitos negativos que afastamento de jovens de atividades escolares presenciais pudesse causar, principalmente na saúde mental dessas pessoas.

Vale ressaltar, que há diferentes argumentos sobre as aulas presenciais na Europa durante a pandemia. Por exemplo, lideranças políticas escocesas disseram que atividades escolares presenciais não contribuíram com a disseminação da doença, por outro lado, autoridades irlandesas reforçaram a preocupação com a reabertura das escolas, além de enfatizar que não queriam que jovens irlandeses também fossem vítimas da pandemia.

Além disso, alguns países foram referência em questão de manter as aulas nesse momento tão difícil. Destacando-se França e Alemanha que utilizaram diversas medidas sanitárias para evitar o contágio mesmo com os alunos atendendo às aulas presencialmente. Uma das principais medidas utilizadas foi o distanciamento, que deveria contar com o espaçamento de um metro entre os estudantes, além de permitir somente 15 alunos dentro da sala de aula e a modificação dos horários de aula, em que foram feitos cronogramas que planejavam a alternação de alunos nas salas de aula.

Dessa forma, ao se dirigir a Europa, mais especificamente, para os seguintes países: Finlândia, Noruega, França, Alemanha, Dinamarca, Estônia e Irlanda pode-se perceber que esses Estados ficaram com as escolas fechadas por no máximo 70 dias. Todavia, uma comparação com os países fora do continente que optaram por fechar suas escolas, como Brasil, Costa Rica, Colômbia, demonstram que mesmo com a menor circulação de estudantes, esses lugares não conseguiram atingir melhores resultados com relação a Covid, pois se assemelham aos números de pessoas infectadas por covid-19, algo entre 40-60 mil por milhões de habitantes. Vale ressaltar, que todas as nações europeias citadas anteriormente mantiveram um número inferior ou igual a 40 mil casos de pessoas infectadas.[1]

Ademais, outro ponto que deve ser enfatizado para a análise da situação é a posição do ranking PISA (Programme for International Student Assessment) tanto pelo ponto de vista dos que conseguiram quanto aos que não conseguiram (ou demoraram muito) para reabrir as escolas – tendo em vista que o PISA dimensiona o índice de qualidade da educação dos países e, consequentemente, a estrutura e competência do ensino-. Dessa forma, quando se observa as regiões que ocupam altas colocações há um paralelo com o número de dias que escolas foram fechadas, na medida que se avalia os países com piores indicadores de educação mais dias foram necessários para terem condições de abrir.

Portanto, parte da explicação sobre o fato citado acima se deve à forte capacidade dos países que encabeçam as primeiras colocações do PISA de se adequarem às novas condições sanitárias exigidas pela pandemia, pois por já serem portadores de estruturas de ensino consideráveis tiveram uma vantagem a mais comparado aos outros e puderam tornar o ambiente escolar mais seguro sem tantas mudanças drásticas. Sendo assim, ficou nítida diferença de organização e logística por parte da Europa em relação a outras regiões que não dispõem de uma infraestrutura similar. Afinal, enquanto os países europeus      mencionados detêm notas entre 480-520 (sendo 600 a nota máxima), Costa Rica, Brasil e Colômbia encontram-se entre aqueles listados com notas entre 400-440 no ranking de leitura, por exemplo. Com a mesma situação se aplica aos índices de matemática e ciência.

Entretanto, com relação ao ensino superior, por já serem portadores de maior autonomia em comparação a alunos do ensino médio, acabaram migrando para o formato online, afinal, o relatório da União Europeia afirma que 89,3% dos estudantes são detentores de computadores. Porém, mesmo com esse percentual alto, outras variáveis preocupam, como: 60% relataram que nem sempre possuem uma conexão de internet confiável e 34,4% dos alunos disseram que não costumam ter um local tranquilo para estudar.

Dado o exposto, é possível dizer que a Europa em relações a outras regiões não foi afetada de maneira muito grande pela pandemia na área da educação, e isso se deve a diversos fatores. Um deles, é o fato do continente europeu ser bastante desenvolvido, o que faz com que várias famílias tenham condições favoráveis para manter seus filhos estudando em casa, ou até mesmo em uma programação híbrida, em que em alguns dias da semana os alunos vão presencialmente para as aulas, e em outros dias as assistem de casa no modo online, tanto para os alunos do ensino médio quanto para os universitários. Além, claro, da segurança garantida pela infraestrutura que permitem a realização das poucas aulas.

Por Gustavo Cunha e Matheus Colucci

Referências:

Coronavírus: as estratégias e desafios dos países que estão reabrindo suas escolas. BBC. Disponível em: https://www.todamateria.com.br/referencia-site-abnt/#:~:text=Refer%C3%AAncia%20de%20site%20de%20jornal,Se%C3%A7%C3%A3o%20(caso%20exista). Acesso em: 10 de junho de 2021.

Chade, Jamil. Europa enfrenta covid-19 na volta às aulas com novo manual para ir à escola. UOL. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/colunas/jamil-chade/2020/09/06/volta-as-aulas-suica-europa-covid-19.htm. Acesso em: 10 de junho de 2021.

Estela de Souza Pinto, Ana. Países com rede de ensino forte fecharam escolas por menos dias, diz OCDE. Folha de São Paulo. Disponível em: https://paywall.folha.uol.com.br/folha/retorno?done=https%3A%2F%2Fwww1.folha.uol.com.br%2Fmundo%2F2021%2F04%2Fpaises-com-rede-de-ensino-forte-fecharam-escolas-por-menos-dias-diz-ocde.shtml%3Forigin%3Dfolha. Acesso em: 10 de junho de 2021.

Santana, Felipe. Mesmo com nova onda de Covid-19, países mantêm escolas abertas para minimizar impacto da pandemia na educação. G1. Disponível em: https://g1.globo.com/educacao/noticia/2020/12/07/mesmo-com-nova-onda-de-covid-19-paises-mantem-escolas-abertas-para-minimizar-impacto-da-pandemia-na-educacao.ghtml. Acesso em: 10 de junho de 2021.

França fecha escolas e anuncia extensão da quarentena para todo o país por um mês. O Globo. Disponível em: https://oglobo.globo.com/mundo/franca-fecha-escolas-anuncia-extensao-da-quarentena-para-todo-pais-por-um-mes-24949899. Acesso em: 10 de junho de 2021.

Oliveira, Juliana. Volta às aulas na pandemia: o que as escolas da Europa têm a nos ensinar. Estado de Minas. Disponível em: https://www.em.com.br/app/noticia/educacao/2020/09/21/internas_educacao,1187232/volta-as-aulas-na-pandemia-o-que-as-escolas-da-europa-tem-a-ensinar.shtml. Acesso em: 10 de junho de 2021.

The impact of COVID-19 on higher education: a review of emerging evidence. European Commission. Disponível em: https://op.europa.eu/en/publication-detail/-/publication/876ce591-87a0-11eb-ac4c-01aa75ed71a1/language-en. Acesso em: 23 de junho de 2021.


[1] Informações correspondentes a dezembro de 2020.

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