ISSN 2674-8053

Mais uma crise na Terra Santa

Ap√≥s semanas de uma escalada de tens√Ķes, est√° em andamento a mais grave crise envolvendo israelenses e palestinos, desde 2014.

O mundo acompanha pela imprensa e pela internet a pirotecnia das cenas de explos√Ķes de foguetes lan√ßados pelo Hamas contra diversas cidades israelenses e dos bombardeios a√©reos e de artilharia das For√ßas de Defesa Israelenses √† Faixa de Gaza. As v√≠timas civis j√° podem ser contadas nas casas das centenas. Al√©m das a√ß√Ķes no campo militar, a disputa pela conquista de apoios, simpatias ou aliados √© travada com ferocidade, de parte a parte, e as pessoas que observam de longe se veem em meio ao fogo cruzado da guerra de narrativas, expostos que est√£o a an√°lises s√©rias, mas tamb√©m √† pura propaganda, muitas vezes sem condi√ß√Ķes de diferenciar uma da outra.

Os acontecimentos que culminaram com o violento conflito atual têm como causa imediata a ordem judicial de despejo de famílias palestinas que moram no bairro Sheikh Jarrah, em Jerusalém Oriental, e também os incidentes que ocorreram nas cercanias do Monte do Templo e da Mesquita de Al-Aqsa, no mesmo bairro.

As tens√Ķes entre judeus e palestinos, dentro do territ√≥rio israelense, j√° estavam mais altas do que o normal h√° algumas semanas, em raz√£o da ‚Äúintifada do TikTok‚ÄĚ, em que v√≠deos com jovens israelenses √°rabes agredindo jovens israelenses judeus ortodoxos viralizaram no aplicativo. Esses conflitos internos, entre os pr√≥prios cidad√£os de Israel, que inclusive se intensificaram e ocorreram em diferentes cidades ao longo da semana, s√£o pouco comuns, e n√£o ocorreram com essa intensidade marcante em outros momentos de conflito entre israelenses e palestinos.

O calend√°rio deste ano aproximou duas datas m√≥veis importantes para mu√ßulmanos e judeus. Dia 08 de maio, os isl√Ęmicos comemoraram o in√≠cio da revela√ß√£o do Alcor√£o pelo anjo Gabriel a Maom√©, a chamada Noite do Poder, n√£o s√≥ a mais importante data do Ramad√£, mas de todo o calend√°rio da f√© isl√Ęmica. Por outro lado, os judeus se preparavam para comemorar o ‚ÄúDia de Jerusal√©m‚ÄĚ, no dia 10, data em que eles rememoram o que consideram ser a reunifica√ß√£o da cidade, ocorrida com a conquista da por√ß√£o oriental de Jerusal√©m na Guerra dos Seis dias, em 1967. Os grupos se encontraram no lugar que √© sagrado para ambos, em Jerusal√©m Oriental, e o confronto foi inevit√°vel.

Os √Ęnimos acirrados pela s√©rie de acontecimentos recentes acabaram em violentos confrontos entre policiais israelenses e palestinos, ocorridos nas cercanias do Monte do Templo e da Mesquita sagrada de Al-Aqsa, o que enfureceu os mu√ßulmanos israelenses e palestinos. Assim, na segunda-feira, dia 10, o Hamas emitiu um in√©dito ultimato aos israelenses, informando que, caso a pol√≠cia n√£o se retirasse das redondezas da Mesquita de Al-Aqsa e do bairro de Sheikh Jarrah at√© as 18h, agiriam em repres√°lia. Os israelenses n√£o retiraram a pol√≠cia e os palestinos iniciaram o lan√ßamento de foguetes a partir de 18:05h. Um fato importante a se destacar √© que os palestinos lan√ßaram seus foguetes contra a capital de Israel, Tel Aviv, a√ß√£o que eles vinham evitando nos √ļltimos anos. E bombardearam Jerusal√©m, cidade sagrada para judeus e para mu√ßulmanos, pela primeira vez na hist√≥ria.

Tudo isso acontece em meio a uma crise política que ocorre simultaneamente, tanto em Israel quanto nos territórios palestinos. O Primeiro-Ministro Benjamin Netanyahu falhou em sua tentativa de estabelecer um governo de coalizão após a 4ª eleição em apenas dois anos. Ele enfrenta baixos índices de popularidade e seu governo, neste momento, carece da legitimidade do mandato popular.

Ao mesmo tempo, o presidente palestino Mahmoud Abbas acaba de cancelar as elei√ß√Ķes presidenciais que estavam previstas ‚Äď as primeiras desde 2006 ‚Äď ap√≥s perceber que seu partido, o Fatah, estava indo mal nas pesquisas eleitorais. Com os dois l√≠deres precisando amentar suas popularidades, o risco de que eles possam tomar decis√Ķes mais duras, ou precipitadas, passa a ser mais alto. Isso √© especialmente verdadeiro em rela√ß√£o √† Israel, onde o l√≠der oposicionista Yair Lapid estava tentando montar o governo com o apoio da extrema direita nacionalista, que havia abandonado Netanyahu, e tamb√©m dos partidos √°rabes, uma tentativa in√©dita. Com a escalada das tens√Ķes esse movimento se inviabilizar√°, com claros benef√≠cios para Netanyahu.

Os conflitos entre os israelenses e os Estados √°rabes, que j√° os levaram √† guerra em quatro oportunidades, arrefeceram nos √ļltimos anos, inclusive com a celebra√ß√£o, no ano passado, dos chamados Acordos de Abra√£o, entre Israel, Emirados √Ārabes Unidos e Bahrein, que se uniram a Egito e Jord√Ęnia, aumentando o n√ļmero de pa√≠ses √°rabes que mant√©m rela√ß√Ķes normais com Israel.

Entretanto, como essa crise mais uma vez comprova, as rela√ß√Ķes entre israelenses e palestinos n√£o lograram conquistar praticamente nenhum avan√ßo. Construir um ambiente de confian√ßa m√ļtua que proporcione a paz e uma solu√ß√£o definitiva para o conflito n√£o parece ser um objetivo pr√≥ximo de ser alcan√ßado.

Paulo Roberto da Silva Gomes Filho
Oficial de cavalaria do Ex√©rcito, formado na Academia Militar das Agulhas Negras, em 1990. Foi comandante do 11¬ļ Regimento de Cavalaria Mecanizado, em Ponta Por√£/MS; instrutor da Academia Militar das Agulhas Negras, da Escola de Aperfeicoamento de Oficiais e da Escola de Comando e Estado-Maior do Ex√©rcito.
Atualmente serve no Comando de Opera√ß√Ķes Terrestres - COTER - em Bras√≠lia/DF.

Os artigos publicados s√£o de opini√Ķes pessoais. N√£o fala em nome do Ex√©rcito. As ideias aqui expressas s√£o fruto da sua experi√™ncia profissional e dos estudos que realizou.