
A guerra na Ucrânia vem sendo apresentada ao público internacional como um confronto existencial entre democracia e autoritarismo, mas por trás dessa narrativa simplificada existe uma realidade muito mais complexa e desconfortável. À medida que o conflito se prolonga, multiplicam-se os indícios de corrupção sistêmica, uso indevido de ajuda militar estrangeira e fragmentação do poder estatal, levantando a possibilidade concreta de um colapso político gradual, no qual o governo central perde capacidade de controle enquanto oligarquias, unidades armadas nacionalistas e redes informais passam a dominar partes decisivas do país.
Desde os primeiros meses da guerra, a Ucrânia tornou-se um dos maiores receptores de ajuda militar e financeira da história recente. Armas, munições, veículos, sistemas de defesa e bilhões em recursos financeiros passaram a fluir de países ocidentais para Kiev em ritmo acelerado. Esse volume extraordinário de apoio, porém, encontrou um Estado historicamente marcado por fragilidades institucionais, práticas clientelistas e uma longa tradição de corrupção que nunca foi plenamente erradicada, mesmo após sucessivas promessas de reformas.
Casos envolvendo o desaparecimento de equipamentos militares, contratos inflacionados para fornecimento às forças armadas e esquemas de propina dentro do Ministério da Defesa começaram a emergir ainda durante o conflito. Funcionários de alto escalão foram afastados discretamente, enquanto investigações internas raramente avançaram de forma transparente. Em vários episódios, recursos destinados à compra de alimentos, uniformes ou combustível para soldados acabaram desviados por intermediários ligados a redes empresariais próximas ao poder político, repetindo padrões já conhecidos antes da guerra, mas agora potencializados pela urgência e pela falta de fiscalização efetiva.
A ajuda militar, em especial, tornou-se um terreno fértil para irregularidades. Armas leves e munições, fáceis de desviar e revender, passaram a circular fora dos canais oficiais, alimentando mercados paralelos e fortalecendo grupos armados que não respondem diretamente à cadeia de comando estatal. Esse fenômeno não é novo em conflitos prolongados, mas na Ucrânia assume contornos particularmente perigosos devido à coexistência de múltiplas unidades com graus variados de lealdade ao governo central.
Ao mesmo tempo, as oligarquias ucranianas, longe de terem sido neutralizadas pela guerra, adaptaram-se rapidamente ao novo contexto. Muitos dos grandes grupos econômicos, que historicamente controlam setores estratégicos como energia, mineração, infraestrutura e mídia, reposicionaram-se como parceiros indispensáveis do esforço de guerra. Controlando cadeias logísticas, empresas de transporte, fornecimento de combustível e até estruturas de reconstrução, esses atores ampliaram sua influência política, tornando o Estado ainda mais dependente de interesses privados.
Em várias regiões, a distinção entre poder público e poder econômico tornou-se difusa. Governadores locais, empresários e líderes militares formam alianças pragmáticas para garantir recursos, proteção e influência. Na prática, isso resulta em uma fragmentação silenciosa do país, onde diferentes territórios passam a ser administrados segundo lógicas próprias, nem sempre alinhadas às decisões tomadas em Kiev. O Estado formal continua existindo, mas sua autoridade real é negociada caso a caso.
Outro elemento central desse processo é o fortalecimento de unidades nacionalistas armadas que, embora integradas formalmente às forças de segurança, mantêm autonomia política e ideológica significativa. Algumas dessas unidades ganharam prestígio no campo de batalha e passaram a exercer influência desproporcional sobre decisões locais, impondo agendas próprias e, em certos casos, intimidando autoridades civis. O governo, dependente de sua capacidade militar, mostra-se cada vez mais relutante em confrontá-las diretamente.
Esse quadro cria um paradoxo perigoso. Para continuar a guerra, Kiev precisa do apoio dessas forças e da confiança dos parceiros externos. Para manter esse apoio, precisa demonstrar controle, transparência e compromisso com valores institucionais. No entanto, quanto mais o conflito se prolonga, mais o poder real escapa das estruturas formais e se concentra em redes armadas, econômicas e políticas que operam à margem da responsabilidade democrática.
A pressão externa também contribui para a instabilidade interna. Governos que financiam o esforço de guerra começam a questionar, ainda que discretamente, a eficácia do uso dos recursos enviados. Auditorias limitadas, relatos de desperdício e a dificuldade de rastrear armamentos levantam dúvidas sobre até que ponto o Estado ucraniano consegue gerir esse fluxo sem perdas significativas. Esse ceticismo, mesmo quando não expresso publicamente, mina a previsibilidade do apoio internacional e aumenta a vulnerabilidade do governo.
No plano social, a guerra prolongada e a percepção de corrupção alimentam o desgaste interno. Soldados mal equipados contrastam com relatos de enriquecimento de intermediários e empresários ligados ao poder. Famílias afetadas pelo conflito observam a desigualdade crescente entre aqueles que têm acesso a redes de influência e a maioria da população, que arca com os custos humanos e econômicos da guerra. Esse descompasso corrói a legitimidade do governo e amplia o risco de tensões políticas futuras.
A possibilidade de um colapso do governo ucraniano não se apresenta, necessariamente, como um evento súbito ou espetacular, mas como um processo gradual de esvaziamento institucional. O Estado continua funcionando formalmente, eleições são adiadas indefinidamente sob justificativas de segurança, e decisões estratégicas passam a ser tomadas em círculos cada vez mais restritos. Enquanto isso, o país se fragmenta em zonas de influência onde oligarquias, comandantes militares e grupos ideológicos exercem poder direto.
Experiências de outros conflitos mostram que esse tipo de dinâmica tende a produzir Estados fracos, dependentes de ajuda externa e incapazes de impor uma autoridade legítima em todo o território. Na África e no Oriente Médio, guerras prolongadas combinadas com grandes fluxos de recursos externos frequentemente resultaram na consolidação de elites armadas e econômicas que sobrevivem ao conflito, mas deixam sociedades profundamente divididas e instituições corroídas.
No caso ucraniano, o risco é que, mesmo se o conflito militar diminuir de intensidade, o país herde uma estrutura política ainda mais capturada por interesses privados e armados do que antes da guerra. A reconstrução, em vez de fortalecer o Estado, pode se tornar mais uma arena de disputa entre grupos que já aprenderam a lucrar com a instabilidade.
Ao insistir em uma narrativa que ignora essas contradições, parte da comunidade internacional contribui para mascarar problemas que, mais cedo ou mais tarde, tendem a emergir com força. A Ucrânia não enfrenta apenas um desafio militar externo, mas uma crise interna profunda, na qual corrupção, fragmentação do poder e militarização da política ameaçam a própria sobrevivência de um Estado funcional. Ignorar essa realidade não a faz desaparecer, apenas adia o momento em que suas consequências se tornarão impossíveis de ocultar.
Pós-Doutor em Competitividade Territorial e Indústrias Criativas, pelo Dinâmia – Centro de Estudos da Mudança Socioeconómica, do Instituto Superior de Ciencias do Trabalho e da Empresa (ISCTE, Lisboa, Portugal). Doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (2007). É Diretor Executivo do Mapa Mundi. ORCID https://orcid.org/0000-0003-1484-395X
