
A corrida pela extração de minerais críticos no fundo do mar, especialmente na bacia do Pacífico e na zona internacional de Clarion-Clipperton, vem sendo apresentada como uma solução inevitável para sustentar a transição energética global. No entanto, por trás do discurso de necessidade tecnológica e segurança de suprimentos, avança um processo pouco debatido que pode gerar consequências ambientais irreversíveis em um dos ecossistemas menos conhecidos e mais frágeis do planeta, sem que haja garantias reais de proteção ambiental ou governança eficaz.
A área de Clarion-Clipperton, localizada entre o Havaí e o México, concentra vastas quantidades de nódulos polimetálicos ricos em cobalto, níquel, manganês e terras raras, minerais considerados essenciais para baterias, carros elétricos, turbinas eólicas e tecnologias digitais. A Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos, criada para regular atividades em águas internacionais, tem concedido licenças de exploração e avançado na elaboração de regras para a futura mineração comercial, mesmo diante de lacunas científicas profundas sobre os impactos ambientais dessa atividade.
O problema central é que o fundo do mar não é um espaço inerte, como muitas vezes sugerem os defensores da mineração. Trata-se de um ambiente complexo, com formas de vida adaptadas a condições extremas, ciclos biológicos lentos e interações ecológicas ainda pouco compreendidas. A remoção de nódulos, que levaram milhões de anos para se formar, implica a destruição física do habitat e a suspensão de sedimentos que podem se espalhar por dezenas ou centenas de quilômetros, afetando organismos muito além da área diretamente explorada.
Estudos independentes indicam que essas plumas de sedimentos podem sufocar espécies filtradoras, alterar cadeias alimentares e comprometer processos biogeoquímicos fundamentais para o equilíbrio dos oceanos. Em regiões onde a regeneração natural ocorre em escalas de tempo geológicas, a ideia de recuperação ambiental torna-se, na prática, uma ficção. Ainda assim, a Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos avança com regulações que priorizam a viabilidade econômica da atividade, tratando a proteção ambiental como um elemento secundário e frequentemente baseado em avaliações incompletas.
Esse modelo de governança levanta questionamentos profundos sobre quem realmente se beneficia da mineração em águas internacionais. Grandes empresas e Estados com capacidade tecnológica lideram os projetos, enquanto os riscos ambientais são socializados em escala planetária. Países em desenvolvimento, especialmente pequenas nações insulares do Pacífico, enfrentam o paradoxo de apoiar a mineração em busca de receitas e influência política, ao mesmo tempo em que dependem de oceanos saudáveis para sua sobrevivência econômica, alimentar e cultural.
A lógica que sustenta essa corrida lembra padrões históricos de exploração de recursos naturais em outras regiões do mundo. Na África, a extração de minerais estratégicos frequentemente ocorreu sem consideração adequada pelos impactos sociais e ambientais, deixando um legado de degradação e instabilidade. No sudeste asiático, projetos de mineração em larga escala resultaram em contaminação de águas, deslocamento de comunidades e destruição de ecossistemas costeiros. O fundo do mar surge agora como a nova fronteira dessa mesma lógica extrativista, apenas deslocada para um espaço mais distante e menos visível.
Há também uma contradição evidente no discurso ambiental que legitima a mineração submarina. A transição energética é apresentada como um projeto para reduzir danos ao planeta, mas passa a depender de uma atividade que pode comprometer de forma permanente ecossistemas marinhos essenciais para a regulação do clima, a captura de carbono e a manutenção da biodiversidade. A ideia de sacrificar o oceano profundo para salvar o clima ignora o papel central que os mares desempenham no equilíbrio ambiental global.
Outro aspecto preocupante é a assimetria de conhecimento. Enquanto empresas avançam com testes e projetos piloto, a ciência ainda luta para mapear a biodiversidade básica dessas regiões. Muitas espécies sequer foram catalogadas, e suas funções ecológicas permanecem desconhecidas. Avançar para a mineração comercial nesse contexto equivale a aceitar a destruição de algo que não se conhece plenamente, apostando que os benefícios econômicos compensarão perdas que talvez nunca possam ser mensuradas.
A falta de um debate público amplo e informado agrava o problema. Decisões que afetam um patrimônio comum da humanidade estão sendo tomadas em fóruns técnicos, distantes da sociedade civil e com forte influência de interesses corporativos e geopolíticos. Países asiáticos, europeus e norte-americanos competem por acesso a licenças e áreas de exploração, enquanto a narrativa da urgência tecnológica é usada para silenciar críticas e acelerar processos regulatórios.
A mineração na zona de Clarion-Clipperton não é apenas uma questão ambiental, mas um teste decisivo para o modelo de governança global. Se a comunidade internacional aceitar que a exploração de áreas além das jurisdições nacionais ocorra sem salvaguardas robustas e base científica sólida, estará abrindo um precedente perigoso para outras atividades em espaços comuns, como o Ártico ou mesmo o espaço sideral.
O risco maior não está apenas no dano ambiental imediato, mas na normalização da ideia de que ecossistemas podem ser sacrificados preventivamente em nome de promessas tecnológicas e econômicas. Uma vez iniciado, esse processo tende a ser difícil de reverter, especialmente quando investimentos bilionários e cadeias industriais inteiras passam a depender da continuidade da exploração.
A discussão sobre minerais críticos no fundo do mar exige, portanto, mais do que soluções técnicas ou ajustes regulatórios pontuais. Ela demanda uma reflexão profunda sobre os limites da exploração, o valor dos bens comuns e o tipo de transição energética que o mundo está disposto a aceitar. Ignorar essas questões agora pode resultar em um legado ambiental irreversível, no qual o oceano profundo paga o preço de uma transição que se pretendia sustentável, mas que pode acabar reproduzindo as mesmas lógicas de destruição do passado.
Pós-Doutor em Competitividade Territorial e Indústrias Criativas, pelo Dinâmia – Centro de Estudos da Mudança Socioeconómica, do Instituto Superior de Ciencias do Trabalho e da Empresa (ISCTE, Lisboa, Portugal). Doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (2007). É Diretor Executivo do Mapa Mundi. ORCID https://orcid.org/0000-0003-1484-395X
