
O indiciamento de Raúl Castro pelos Estados Unidos nesta semana não representa apenas mais um capítulo das históricas tensões entre Washington e Havana. O episódio expõe uma fragilidade política que até recentemente permanecia parcialmente escondida sob a estrutura rígida do regime cubano: ninguém sabe exatamente quem comandaria Cuba caso o último grande sobrevivente da geração revolucionária desaparecesse de cena de forma abrupta.
A acusação formal apresentada por autoridades americanas, relacionada ao abatimento de aeronaves civis em 1996, possui um peso muito maior do que o aspecto jurídico. Ela funciona como um instrumento de pressão política e psicológica. O objetivo não parece ser apenas atingir Raúl Castro, hoje com 94 anos, mas testar a capacidade de reação da elite cubana em um momento de enorme desgaste econômico e institucional.
Nos bastidores internacionais, a comparação imediata foi com a Venezuela. O roteiro lembra parcialmente o processo utilizado contra Nicolás Maduro: pressão econômica extrema, isolamento diplomático, sanções, acusação criminal internacional e tentativa de produzir fissuras internas dentro do grupo governante. Mas é justamente neste ponto que Cuba se diferencia profundamente da experiência venezuelana.
Na Venezuela existiam várias correntes de poder relativamente visíveis. O chavismo nunca foi um bloco totalmente homogêneo. Havia militares ligados ao setor petrolífero, grupos ideológicos próximos a Cuba, empresários beneficiados pelo regime, facções regionais e lideranças civis disputando influência desde a morte de Hugo Chávez. Nicolás Maduro, inclusive, jamais foi unanimidade dentro do próprio chavismo. Sua ascensão ocorreu muito mais por necessidade de equilíbrio entre grupos rivais do que por liderança natural.
Quando a crise venezuelana se aprofundou, parte dessas facções passou a enxergar alternativas internas capazes de preservar o sistema sem necessariamente manter Maduro como figura central. Isso abriu espaço para negociações discretas, rearranjos internos e aproximações internacionais. A então vice-presidente acabou sendo vista por setores relevantes como alguém mais administrável, menos desgastada e potencialmente útil para uma transição controlada. A existência de múltiplos polos de influência facilitou a ação externa porque havia atores internos capazes de negociar saídas.
Em Cuba, o cenário é muito diferente. Apesar de Miguel Díaz-Canel ocupar formalmente a presidência, o poder real da ilha continua profundamente associado à estrutura construída pelos irmãos Castro ao longo de décadas. O regime cubano nunca permitiu o surgimento claro de sucessores independentes. A lógica sempre foi impedir lideranças autônomas fortes demais. Isso garantiu estabilidade por muito tempo, mas criou um problema gigantesco agora: a ausência de herdeiros políticos legítimos e consensuais.
A elite cubana funciona quase como um sistema de equilíbrio fechado entre Partido Comunista, Forças Armadas e o conglomerado econômico-militar conhecido como GAESA, responsável por setores estratégicos da economia cubana, incluindo turismo, portos, comércio exterior e infraestrutura. Grande parte do país real passa por essa estrutura militarizada.
O problema é que Raúl Castro ainda é visto como o elo histórico capaz de manter essas engrenagens alinhadas. Mesmo afastado oficialmente do governo, ele continua exercendo influência simbólica e estratégica sobre decisões importantes. Sua presença opera como um fator de estabilidade psicológica dentro da própria elite.
A consequência disso é paradoxal. Quanto mais envelhece, mais indispensável Raúl Castro parece se tornar para a manutenção da unidade interna.
Washington entende isso. Por essa razão, o indiciamento possui também uma dimensão geopolítica muito mais sofisticada do que aparenta. Não se trata apenas de buscar justiça por um episódio ocorrido nos anos 1990. A movimentação americana parece testar se existe em Cuba algum setor disposto a negociar um rearranjo político semelhante ao observado parcialmente na Venezuela. Até agora, os sinais indicam que não.
Não há em Havana uma figura equivalente claramente preparada para assumir o controle com apoio simultâneo dos militares, do Partido Comunista e dos operadores econômicos ligados ao regime. Díaz-Canel possui autoridade institucional, mas não possui o capital revolucionário da geração histórica. Outros nomes ligados às Forças Armadas possuem influência econômica, mas carecem de legitimidade política ampla. Já membros da família Castro surgem como possibilidades simbólicas, porém sem experiência suficiente para consolidar uma sucessão estável. Esse vazio gera uma enorme hesitação externa.
Uma mudança abrupta em Cuba poderia produzir consequências extremamente imprevisíveis. Diferentemente da Venezuela, onde a fragmentação do chavismo permitia imaginar algum tipo de rearranjo interno relativamente administrável, em Cuba existe o risco de colapso simultâneo de toda a estrutura de comando.
Isso preocupa inclusive atores internacionais que tradicionalmente se opõem ao regime cubano. A China, por exemplo, observa a situação com cautela porque Cuba continua sendo um símbolo político importante no hemisfério ocidental. Uma implosão descontrolada poderia abrir espaço para instabilidade regional no Caribe, aumento migratório massivo e disputas estratégicas mais agressivas envolvendo Estados Unidos, Rússia e Pequim.
Ao mesmo tempo, a crise econômica cubana nunca esteve tão grave desde o chamado Período Especial dos anos 1990. A redução do apoio venezuelano, os apagões constantes, a escassez de combustível, o colapso da infraestrutura e a fuga contínua de jovens tornaram o ambiente interno muito mais vulnerável. Em várias regiões da ilha, a população já convive diariamente com falta de energia por longos períodos e deterioração acelerada dos serviços básicos.
Esse contexto ajuda a explicar por que o indiciamento de Raúl Castro possui um impacto tão delicado. Ele não ameaça apenas um ex-presidente. Ele atinge o principal ponto de sustentação simbólica de um sistema político que ainda não conseguiu resolver sua própria sucessão.
Existe também outro fator importante: Cuba sempre trabalhou para evitar personalismos excessivos fora da família revolucionária. O modelo cubano preferiu instituições controladas pelo partido e pelos militares, ao invés de lideranças individuais muito fortes. Isso foi eficiente para impedir divisões internas durante décadas, mas agora dificulta enormemente qualquer transição. Na prática, a ilha parece presa em uma espécie de limbo político.
Os Estados Unidos pressionam, mas não sabem exatamente quem poderia substituir o núcleo histórico sem provocar um efeito dominó imprevisível. A oposição cubana no exílio possui força midiática e apoio político em Miami, mas pouca capacidade real de organização interna na ilha. Os militares controlam setores estratégicos da economia, mas também sabem que uma ruptura desordenada poderia destruir seus próprios interesses.
O resultado é um cenário de enorme cautela. Ao contrário da narrativa simplificada que frequentemente aparece no debate público, o problema central não é apenas derrubar ou não derrubar o regime cubano. O problema real é que ninguém possui clareza sobre o que surgiria imediatamente depois. E justamente por isso o caso cubano talvez seja hoje mais complexo do que foi a própria Venezuela.
Pós-Doutor em Competitividade Territorial e Indústrias Criativas, pelo Dinâmia – Centro de Estudos da Mudança Socioeconómica, do Instituto Superior de Ciencias do Trabalho e da Empresa (ISCTE, Lisboa, Portugal). Doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (2007). É Diretor Executivo do Mapa Mundi. ORCID https://orcid.org/0000-0003-1484-395X
