
Durante décadas, a ascensão da China foi apresentada como uma trajetória quase inevitável. O país crescia mais rapidamente do que as principais economias ocidentais, transformava-se na fábrica do mundo, acumulava reservas, modernizava suas Forças Armadas e ampliava sua presença na Ásia, África e América Latina. A pergunta parecia simples: quando a China alcançaria os Estados Unidos e passaria a disputar diretamente a liderança mundial?
Essa pergunta continua importante, mas já não é suficiente.
A China tornou-se poderosa demais para ser contida facilmente, mas ainda não é poderosa o suficiente para reorganizar o sistema internacional segundo seus interesses. Essa diferença entre possuir poder e conseguir transformá-lo em liderança talvez seja um dos aspectos mais importantes da política internacional atual.
Pequim conseguiu algo extraordinário. Em poucas décadas, deixou de ocupar uma posição periférica na economia mundial e tornou-se indispensável para o funcionamento de inúmeras cadeias produtivas. Sua indústria possui escala dificilmente reproduzível, suas empresas avançaram em setores tecnológicos sofisticados e sua capacidade de financiamento permitiu construir infraestrutura em dezenas de países.
Ainda assim, quanto maior se tornou a presença chinesa, maiores também ficaram as resistências.
Isso aparece primeiro na própria economia. O crescimento chinês permanece elevado quando comparado ao das economias desenvolvidas, mas já está distante das taxas que marcaram as décadas anteriores. Depois de crescer 5% em 2025, a economia chinesa entrou em 2026 enfrentando uma combinação delicada de consumo doméstico relativamente fraco, dificuldades prolongadas no mercado imobiliário, envelhecimento populacional e menor crescimento da produtividade.
O problema não é que a China tenha parado de crescer. É que o modelo responsável por sua ascensão encontra limites cada vez mais claros.
Durante muito tempo, investimentos em infraestrutura, expansão imobiliária, industrialização e exportações conseguiram sustentar taxas extraordinárias de crescimento. Hoje, repetir a mesma fórmula produz retornos menores. O governo chinês procura estimular o consumo e desenvolver setores tecnológicos de maior valor agregado, mas essa transformação exige mudanças econômicas profundas.
Ao mesmo tempo, o sucesso industrial chinês criou um novo problema externo. Quanto mais a produção do país supera sua capacidade doméstica de absorção, maior é a necessidade de mercados internacionais. Veículos elétricos, baterias, painéis solares, equipamentos industriais e produtos eletrônicos chineses ganharam competitividade extraordinária. Para Pequim, isso demonstra eficiência industrial. Para muitos concorrentes, representa uma ameaça.
Estados Unidos e União Europeia passaram a utilizar tarifas, subsídios e outras medidas para proteger setores considerados estratégicos. A Índia também procura desenvolver sua própria indústria e reduzir vulnerabilidades diante da China. Países que durante décadas defenderam mercados cada vez mais abertos passaram a tratar determinadas cadeias produtivas como questões de segurança nacional.
A China descobriu, assim, um paradoxo. Sua capacidade industrial é uma de suas maiores fontes de poder, mas a expansão dessa capacidade também incentiva outros países a criar barreiras contra ela.
A tecnologia apresenta problema semelhante.
Pequim realizou avanços importantes em telecomunicações, veículos elétricos, baterias, energia solar, inteligência artificial e diferentes áreas da indústria avançada. O objetivo de reduzir a dependência tecnológica externa tornou-se central para o planejamento chinês.
Mas alguns dos componentes mais sofisticados da economia digital ainda dependem de cadeias internacionais que a China não controla integralmente.
O caso dos semicondutores é emblemático. Não basta dominar a fabricação de produtos eletrônicos. Os chips mais avançados dependem de uma rede extraordinariamente complexa envolvendo empresas e tecnologias dos Estados Unidos, Taiwan, Coreia do Sul, Japão e Países Baixos. Restrições impostas por Washington demonstraram que a interdependência econômica pode ser transformada em instrumento de pressão geopolítica.
A resposta chinesa foi acelerar investimentos nacionais e procurar diminuir vulnerabilidades. Ao mesmo tempo, Pequim possui instrumentos próprios de pressão, inclusive sua posição importante no processamento de minerais estratégicos e em diferentes segmentos das cadeias de tecnologias verdes.
A disputa, portanto, não demonstra fraqueza chinesa. Mostra algo mais interessante: mesmo uma potência industrial da dimensão da China continua dependendo de um sistema econômico que não controla sozinha.
Essa limitação também aparece na Ásia.
A China é o maior parceiro comercial de muitos países da região e sua importância econômica é impossível de ignorar. Isso, porém, não significa que seus vizinhos desejem uma Ásia organizada exclusivamente em torno de Pequim.
O Japão aprofundou sua cooperação estratégica com os Estados Unidos. A Índia fortaleceu sua presença no Indo-Pacífico e participa do Quad. Filipinas e Estados Unidos ampliaram sua cooperação militar diante das disputas no Mar do Sul da China. Austrália reforçou vínculos estratégicos com Washington e Londres. Vietnã, embora mantenha fortes relações econômicas com a China, também procura diversificar seus parceiros.
O resultado é aparentemente contraditório. Quanto mais poderosa a China se torna, mais alguns países asiáticos procuram mecanismos para evitar que esse poder se transforme em predominância regional.
Taiwan representa a manifestação mais delicada desse limite.
Para Pequim, a reunificação é uma questão central de soberania e identidade nacional. A China possui hoje capacidade militar incomparavelmente maior do que algumas décadas atrás e aumentou a pressão política e militar sobre a ilha. Ainda assim, transformar essa superioridade em controle efetivo envolveria riscos enormes.
Uma operação militar contra Taiwan poderia produzir uma guerra regional, provocar a participação dos Estados Unidos, afetar dramaticamente o comércio asiático e atingir justamente algumas das cadeias tecnológicas das quais a própria China depende. O poder militar existe, mas seu uso teria custos difíceis de calcular.
É um exemplo clássico da diferença entre capacidade e liberdade de ação.
A Iniciativa Cinturão e Rota revela outra dimensão desse problema. O projeto permitiu à China financiar portos, ferrovias, estradas, usinas e outras obras de infraestrutura em países da Ásia, África, Oriente Médio e América Latina. Para muitos governos, os investimentos chineses ofereceram alternativas que não estavam disponíveis nas instituições financeiras tradicionais.
A iniciativa ampliou enormemente a presença chinesa, mas também mostrou que influência econômica não produz automaticamente alinhamento político.
Paquistão possui uma relação estratégica profunda com a China, mas enfrenta instabilidade interna que afeta projetos e interesses chineses. Países da Ásia Central ampliaram relações com Pequim sem abandonar seus vínculos com Rússia, Turquia, Europa e outros parceiros. Na África, governos recebem investimentos chineses enquanto simultaneamente negociam com Estados Unidos, União Europeia, Índia, Turquia e países do Golfo.
Esses países não querem necessariamente escolher entre China e Ocidente. Querem utilizar a competição entre diferentes potências para aumentar sua própria capacidade de negociação.
Esse comportamento cria um limite importante para a liderança chinesa.
Durante alguns anos, análises ocidentais frequentemente apresentaram a expansão da China na África e na América Latina como se cada porto financiado, ferrovia construída ou contrato assinado representasse automaticamente uma expansão da influência política de Pequim. A realidade mostrou-se mais complexa.
O Brasil tem a China como seu principal parceiro comercial, mas preserva relações fundamentais com Estados Unidos e Europa. A Arábia Saudita aprofundou extraordinariamente seus vínculos econômicos com Pequim sem abandonar sua relação de segurança com Washington. A Indonésia recebe investimentos chineses importantes e, ao mesmo tempo, procura preservar autonomia estratégica.
A China tornou-se indispensável sem necessariamente tornar-se dominante.
Esse talvez seja seu maior sucesso e, simultaneamente, seu maior limite.
Há também um problema relacionado à natureza da liderança internacional. Ser poderoso significa possuir recursos econômicos, militares e tecnológicos. Liderar exige algo adicional: convencer outros países de que uma ordem organizada em torno de sua influência também pode ser vantajosa para eles.
Os Estados Unidos construíram essa capacidade ao longo de décadas por meio de alianças militares, instituições financeiras, universidades, empresas, tecnologia, cultura e acesso ao seu mercado. Isso nunca eliminou conflitos ou resistências ao poder norte-americano, mas criou uma extensa rede de países cuja segurança e prosperidade ficaram profundamente conectadas à ordem liderada por Washington.
A China construiu uma rede comercial extraordinária, mas ainda encontra dificuldades para reproduzir essa combinação.
O BRICS ajuda a perceber essa diferença. Sua expansão demonstra insatisfação crescente com a concentração de poder nas instituições internacionais tradicionais e oferece à China um espaço importante de atuação. Mas o grupo não constitui uma aliança chinesa.
Índia não pretende aceitar uma ordem asiática dominada por Pequim. Brasil procura preservar autonomia. África do Sul possui seus próprios interesses regionais. Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos desenvolvem políticas externas cada vez mais independentes. Mesmo países que defendem uma ordem internacional menos concentrada no Ocidente não desejam necessariamente uma ordem concentrada na China.
O mundo multipolar favorece a ascensão chinesa justamente porque reduz a predominância norte-americana. Mas essa mesma multipolaridade impede que Pequim simplesmente ocupe o espaço deixado por Washington.
Há uma diferença importante entre substituir uma potência e participar da fragmentação do poder.
A China provavelmente continuará aumentando sua capacidade tecnológica, militar e diplomática. Também continuará sendo um dos principais centros da economia mundial. Nada indica um retorno ao cenário no qual as grandes decisões internacionais podiam ser tomadas sem considerar os interesses chineses.
Mas isso não significa que o século XXI será simplesmente um século chinês.
O cenário que começa a surgir é mais complexo. Estados Unidos continuam possuindo vantagens militares, financeiras e tecnológicas extraordinárias. Índia ganha peso econômico e estratégico. Japão e Coreia do Sul mantêm capacidades tecnológicas essenciais. Países do Golfo transformam capital e energia em influência. Potências médias procuram evitar alinhamentos rígidos. África e América Latina possuem mais alternativas de parceiros do que tiveram durante grande parte das últimas décadas.
A China é uma das principais responsáveis pela criação desse mundo. Ao desafiar a concentração de poder que marcou o período posterior à Guerra Fria, Pequim ajudou a ampliar o espaço disponível para outros países.
Agora precisa conviver com uma consequência que talvez não estivesse inteiramente prevista: esses mesmos países aprenderam a usar a multipolaridade também para limitar o poder chinês.
A grande questão, portanto, deixou de ser quando a China substituirá os Estados Unidos. Talvez isso nunca aconteça da forma como tantas previsões imaginaram. O desafio de Pequim será mais difícil: transformar sua enorme capacidade econômica e tecnológica em influência duradoura sem provocar coalizões destinadas a contê-la e oferecer aos demais países razões para cooperar que vão além da dependência econômica.
A China já demonstrou que consegue transformar riqueza em poder. Está descobrindo que transformar poder em liderança é uma tarefa muito mais difícil.
Pós-Doutor em Competitividade Territorial e Indústrias Criativas, pelo Dinâmia – Centro de Estudos da Mudança Socioeconómica, do Instituto Superior de Ciencias do Trabalho e da Empresa (ISCTE, Lisboa, Portugal). Doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (2007). É Diretor Executivo do Mapa Mundi. ORCID https://orcid.org/0000-0003-1484-395X
