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Quando os Estados Unidos deixam de querer o mundo

Durante boa parte do último século, uma das maiores vantagens dos Estados Unidos não esteve em seu território, em suas reservas naturais ou mesmo em suas empresas. Esteve na capacidade de atrair pessoas. Cientistas europeus, engenheiros indianos, empreendedores chineses, médicos latino-americanos, pesquisadores africanos e estudantes de praticamente todas as regiões do planeta ajudaram a construir universidades, empresas e centros tecnológicos norte-americanos. Agora, o governo de Donald Trump está colocando em questão uma parte desse modelo. A ampliação das restrições, revisões e revogações de vistos pode satisfazer uma parcela importante do eleitorado norte-americano no curto prazo, mas também cria uma contradição estratégica: na tentativa de proteger os Estados Unidos dos estrangeiros, Washington pode estar reduzindo uma das principais fontes históricas do poder norte-americano.

O episódio mais recente ajuda a entender a dimensão dessa mudança. O governo norte-americano prepara a revogação dos vistos de negócios e turismo de estrangeiros que entraram legalmente no país e posteriormente solicitaram asilo. A medida pode atingir até 200 mil pessoas e, se implementada nessa escala, representará a maior revogação coletiva de vistos da história dos Estados Unidos.

O argumento da administração Trump é relativamente simples. Quem solicita um visto de turismo ou negócios declara que pretende permanecer temporariamente nos Estados Unidos. Se posteriormente pede asilo e tenta permanecer no país, estaria demonstrando que sua intenção original poderia ter sido diferente daquela apresentada às autoridades consulares. Para o governo, o sistema de asilo teria se transformado em uma maneira de contornar as regras migratórias.

Vista isoladamente, a medida parece apenas mais uma tentativa de fechar uma brecha do sistema. O problema é que ela não está ocorrendo isoladamente.

Desde o retorno de Trump à Casa Branca, em 2025, Washington vem construindo um sistema migratório significativamente mais restritivo. Houve ampliação da análise das redes sociais dos solicitantes de vistos, aumento dos mecanismos de verificação, restrições para cidadãos de dezenas de países, endurecimento das condições para estudantes estrangeiros e tentativas de elevar dramaticamente os custos relacionados à contratação de trabalhadores estrangeiros altamente qualificados.

Em março de 2026, por exemplo, o Departamento de Estado ampliou a análise da presença digital de diferentes categorias de solicitantes. Estudantes e participantes de programas de intercâmbio já estavam entre aqueles submetidos a verificações desse tipo. Candidatos a vistos destinados a profissionais altamente qualificados também passaram a enfrentar controles adicionais.

Ao mesmo tempo, Washington suspendeu ou restringiu a emissão de vistos para cidadãos de dezenas de países. Em outra frente, o governo passou a aplicar critérios mais rigorosos relacionados à possibilidade de futuros imigrantes dependerem de benefícios públicos. O Brasil chegou a aparecer entre os países atingidos por uma suspensão na emissão de determinados vistos de imigração.

Separadamente, estudantes estrangeiros passaram a enfrentar limitações maiores sobre o tempo de permanência e suas possibilidades de alterar cursos ou instituições. Profissionais estrangeiros altamente qualificados também foram atingidos. Uma tentativa de estabelecer uma cobrança de US$ 100 mil para novos vistos H-1B, utilizados especialmente pelo setor tecnológico, acabou derrubada pela Justiça em junho de 2026.

É a soma dessas iniciativas que revela uma mudança maior.

A política migratória do governo Trump parte de uma concepção segundo a qual a abertura dos Estados Unidos ao exterior produziu benefícios desproporcionais para estrangeiros, empresas multinacionais e setores urbanos altamente qualificados, enquanto parte da população norte-americana teria arcado com os custos. Essa leitura não surgiu com Trump, mas ele conseguiu transformá-la em uma poderosa plataforma política.

Para uma parcela importante do eleitorado republicano, imigração deixou de ser apenas uma discussão econômica. Tornou-se uma questão relacionada à soberania, identidade nacional, segurança e capacidade do Estado de controlar suas próprias fronteiras.

Isso ajuda a explicar por que argumentos econômicos nem sempre conseguem alterar o debate.

Uma empresa de tecnologia pode afirmar que precisa contratar engenheiros indianos porque não encontra profissionais suficientes nos Estados Unidos. Uma universidade pode demonstrar que estudantes chineses financiam parte importante de suas atividades. Um hospital pode depender de médicos formados no exterior. Ainda assim, para parte do eleitorado, essas vantagens não respondem à pergunta considerada central: quem decide quem pode entrar no país?

Nesse sentido, a política de vistos é também uma demonstração de autoridade.

A mensagem transmitida pelo governo é que entrar nos Estados Unidos não constitui um direito adquirido pelo funcionamento da economia global. É uma concessão do Estado norte-americano e pode ser revista caso Washington considere que os interesses nacionais mudaram.

Existe ainda uma dimensão eleitoral evidente. O discurso de Trump foi construído durante anos em torno da ideia de que as elites políticas e econômicas permitiram que os interesses dos Estados Unidos fossem subordinados aos interesses da globalização. A imigração funciona particularmente bem dentro dessa narrativa porque torna uma discussão abstrata extremamente concreta. Fronteiras, vistos, deportações e fiscalização são elementos facilmente compreensíveis pelo eleitor.

Mas existe uma diferença importante entre controlar a imigração ilegal e tornar mais difícil a entrada de estudantes, pesquisadores, empresários e profissionais qualificados. É justamente nesse ponto que começa a aparecer o custo estratégico da política.

Os Estados Unidos construíram durante décadas uma extraordinária máquina de importação de capital humano.

Um jovem indiano particularmente talentoso podia estudar engenharia em Bangalore, fazer pós-graduação no MIT, conseguir emprego em uma empresa do Vale do Silício e eventualmente criar sua própria companhia. Um pesquisador chinês podia estudar em Pequim e desenvolver sua carreira científica em Stanford. Um médico nigeriano podia completar sua formação nos Estados Unidos e trabalhar em um hospital norte-americano.

O país não precisava pagar pela educação básica dessas pessoas. Muitas chegavam aos Estados Unidos depois de seus países de origem terem realizado parte significativa do investimento necessário para formá-las.

Era uma espécie de subsídio invisível oferecido pelo restante do mundo à economia norte-americana.

A importância desse mecanismo aparece particularmente no setor tecnológico. Indianos e chineses tornaram-se componentes fundamentais do ecossistema de inovação dos Estados Unidos. Algumas das maiores empresas norte-americanas são comandadas ou foram criadas por imigrantes ou filhos de imigrantes. O indiano Sundar Pichai chegou ao comando do Google. Satya Nadella, também nascido na Índia, tornou-se presidente da Microsoft. Elon Musk nasceu na África do Sul e chegou aos Estados Unidos depois de passar pelo Canadá.

O fenômeno está longe de se limitar aos executivos famosos. Laboratórios, universidades, hospitais, empresas de inteligência artificial, biotecnologia e semicondutores dependem de milhares de profissionais estrangeiros que raramente aparecem no debate político.

Há também um benefício financeiro direto. No ano acadêmico de 2024-2025, estudantes internacionais movimentaram aproximadamente US$ 43 bilhões na economia norte-americana e ajudaram a sustentar mais de 350 mil empregos. Como estrangeiros normalmente não têm acesso aos mesmos subsídios destinados aos estudantes norte-americanos e frequentemente pagam mensalidades integrais, tornaram-se especialmente importantes para as finanças de muitas universidades.

Por isso, a redução da atratividade dos Estados Unidos começa a produzir efeitos mensuráveis.

Em 2026, o número de estrangeiros candidatos a universidades norte-americanas caiu aproximadamente 10%, a maior redução registrada em cerca de uma década. A queda foi particularmente significativa entre candidatos da Ásia e da África.

Isso deveria preocupar Washington porque estudantes internacionais não são apenas consumidores de educação. Eles constituem uma espécie de primeiro estágio da competição internacional por talentos.

Um estudante que realiza doutorado em inteligência artificial nos Estados Unidos pode permanecer no país, trabalhar para uma empresa norte-americana, registrar patentes, criar uma startup e eventualmente tornar-se cidadão. Durante décadas, universidades como MIT, Stanford, Harvard, Berkeley e Caltech funcionaram simultaneamente como instituições de ensino e gigantescos sistemas internacionais de recrutamento.

A novidade é que outros países perceberam essa oportunidade.

A China passou as últimas décadas tentando reverter a fuga de cérebros que beneficiou os Estados Unidos. Pequim criou programas para estimular pesquisadores chineses formados no exterior a regressar e investiu pesadamente em universidades e centros tecnológicos. Ainda existem razões pelas quais muitos pesquisadores preferem permanecer nos Estados Unidos, incluindo salários, liberdade acadêmica em determinadas áreas, infraestrutura científica e acesso a capital. Mas a diferença entre os dois ambientes diminuiu.

Singapura oferece outro exemplo. O pequeno país asiático construiu parte de sua estratégia econômica justamente sobre a capacidade de importar profissionais qualificados. Universidades, centros financeiros, empresas tecnológicas e institutos de pesquisa funcionam em um ambiente deliberadamente internacionalizado.

Índia também pode acabar recebendo um benefício inesperado. Durante décadas, uma parcela dos melhores engenheiros formados no país considerava os Estados Unidos o destino natural para desenvolver suas carreiras. Se o caminho norte-americano se tornar excessivamente caro ou incerto, Bangalore, Hyderabad e outras cidades indianas passam a ter melhores condições de reter profissionais que anteriormente seguiriam para a Califórnia ou para o Texas.

Europa, Canadá e Austrália também participam dessa disputa. Alemanha e França vêm tentando ampliar sua capacidade de atrair pesquisadores e estudantes internacionais. Mesmo países que enfrentam seus próprios movimentos anti-imigração percebem que existe diferença econômica entre imigração indiscriminada e políticas destinadas especificamente à atração de profissionais qualificados.

Surge assim uma situação curiosa. Enquanto Washington torna a entrada mais difícil, seus concorrentes podem transformar o fechamento norte-americano em política de recrutamento.

A questão torna-se ainda mais importante com inteligência artificial, semicondutores, computação quântica, biotecnologia e outras áreas consideradas estratégicas. A disputa tecnológica entre Estados Unidos e China costuma ser apresentada em termos de fábricas, chips, investimentos e sanções comerciais. Mas existe outro recurso igualmente importante: pessoas capazes de desenvolver essas tecnologias.

Nesse campo, nacionalidade e talento nem sempre coincidem.

Um dos maiores trunfos históricos dos Estados Unidos foi justamente conseguir transformar talento estrangeiro em poder norte-americano.

Albert Einstein nasceu na Alemanha. Enrico Fermi nasceu na Itália. Wernher von Braun nasceu na Alemanha. Décadas depois, sucessivas gerações de cientistas indianos, chineses, iranianos, russos e de muitas outras nacionalidades continuaram alimentando universidades e empresas norte-americanas.

A União Soviética nunca conseguiu reproduzir essa capacidade na mesma escala. A China ainda enfrenta dificuldades semelhantes. Os Estados Unidos, ao contrário, conseguiram fazer com que algumas das pessoas mais talentosas do mundo desejassem espontaneamente mudar de país e trabalhar para instituições norte-americanas.

Esse talvez seja um dos exemplos mais concretos daquilo que normalmente chamamos de poder brando.

Não é necessário convencer um engenheiro indiano de que os Estados Unidos são geopoliticamente superiores à China. Basta fazer com que ele considere Stanford a melhor universidade para estudar e o Vale do Silício o melhor lugar para construir uma empresa.

A política de vistos interfere diretamente nesse mecanismo.

Isso não significa que toda restrição migratória seja necessariamente prejudicial à economia norte-americana. Existe um argumento relevante do outro lado. Empresas podem utilizar trabalhadores estrangeiros não apenas porque faltam profissionais norte-americanos, mas porque determinados mecanismos migratórios criam trabalhadores mais dependentes de seus empregadores e, portanto, com menor capacidade de negociação salarial. Programas como o H-1B são criticados inclusive por setores do próprio mercado de trabalho tecnológico norte-americano.

Há também abusos reais nos sistemas de asilo e imigração. Pessoas podem entrar como turistas já planejando permanecer no país. Empresas podem utilizar mecanismos destinados à atração de profissionais excepcionais como instrumentos para reduzir custos trabalhistas. Instituições educacionais de baixa qualidade podem funcionar essencialmente como portas de entrada migratórias.

A administração Trump parte de problemas que não são inteiramente imaginários.

A questão está na resposta.

Quando o controle deixa de ser seletivo e passa a criar uma percepção geral de hostilidade ou imprevisibilidade, o efeito ocorre antes mesmo da negativa de um visto. Um estudante brilhante de Mumbai não precisa ter seu visto rejeitado para abandonar a ideia de estudar nos Estados Unidos. Basta acreditar que poderá enfrentar problemas depois de chegar.

Esse elemento é especialmente importante porque decisões educacionais e profissionais são tomadas com anos de antecedência.

Um doutorado pode durar cinco ou seis anos. Um pesquisador que precisa decidir hoje onde desenvolver sua carreira não considera apenas as regras atuais. Ele tenta imaginar quais serão as regras quando terminar seus estudos.

Incerteza também funciona como barreira migratória.

É justamente aí que a política de Trump pode produzir um resultado diferente daquele pretendido. A administração deseja selecionar mais rigorosamente quem entra nos Estados Unidos. Mas os profissionais mais qualificados são justamente aqueles que possuem maior número de alternativas.

Um trabalhador desesperado para entrar nos Estados Unidos pode aceitar burocracia, custos elevados e insegurança jurídica. Um engenheiro disputado por empresas de vários países pode simplesmente escolher outro destino.

Quanto maior o talento, maior tende a ser a capacidade de escolha.

Existe ainda uma transformação mais profunda acontecendo. O governo Trump parece menos interessado em preservar a globalização construída pelos Estados Unidos depois da Segunda Guerra Mundial e mais interessado em renegociar as condições sob as quais o país participa dela.

Isso aparece nas tarifas, nas relações com aliados, na política industrial, nas universidades e agora também na imigração.

A lógica é semelhante: acesso ao mercado norte-americano, às universidades norte-americanas e ao território norte-americano deixa de ser tratado como componente relativamente previsível de uma ordem internacional e passa a funcionar como instrumento de negociação e poder.

O estrangeiro precisa demonstrar que sua presença beneficia diretamente os Estados Unidos.

É uma inversão importante. Durante décadas, Washington acreditou que manter o país como centro do sistema internacional já constituía, por si só, uma vantagem estratégica. Pessoas estudavam nos Estados Unidos, empresas levantavam dinheiro em Nova York, pesquisadores trabalhavam em universidades norte-americanas e governos mantinham reservas em dólares. Cada uma dessas atividades reforçava a centralidade norte-americana.

A nova visão parece perguntar se cada relação individual oferece benefício suficiente ao país.

Politicamente, isso pode funcionar. Estrategicamente, o cálculo é mais complicado.

A maior vantagem dos Estados Unidos na competição com a China talvez não seja possuir mais engenheiros norte-americanos que a China possui engenheiros chineses. Com uma população quatro vezes maior, Pequim possui uma enorme base humana própria. A vantagem dos Estados Unidos sempre foi poder disputar também os engenheiros indianos, brasileiros, europeus, africanos e até chineses.

Ao transformar o acesso ao país em algo mais difícil, caro e imprevisível, Washington abre mão de uma parcela dessa vantagem.

E outros países não precisam superar completamente os Estados Unidos para se beneficiar. Precisam apenas capturar uma parte dos talentos que anteriormente seguiriam quase automaticamente para universidades e empresas norte-americanas.

Talvez seja esse o paradoxo mais interessante da nova política migratória. Trump promete colocar os Estados Unidos em primeiro lugar, e boa parte de sua base eleitoral entende o controle das fronteiras como condição necessária para isso. Mas a história do poder norte-americano mostra que colocar os Estados Unidos em primeiro lugar nem sempre significou manter os estrangeiros do lado de fora.

Durante muito tempo significou exatamente o contrário: fazer com que as pessoas mais ambiciosas do mundo quisessem entrar.

A disputa que se desenha, portanto, não é simplesmente entre um país aberto e um país fechado. É entre duas maneiras de compreender o poder. Uma acredita que poder significa controlar rigorosamente quem atravessa a fronteira. A outra entende que um país poderoso é aquele para o qual as pessoas mais talentosas do planeta continuam querendo atravessá-la.

Os Estados Unidos passaram décadas conseguindo fazer as duas coisas ao mesmo tempo. A política atual está testando até que ponto será possível privilegiar a primeira sem perder a segunda.

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