
Durante mais de três décadas, a Alemanha viveu uma situação excepcional para uma potência de seu tamanho. Era a maior economia da Europa, uma das maiores exportadoras do mundo e o principal centro industrial do continente, mas podia se comportar internacionalmente como se não precisasse assumir integralmente os custos políticos e militares correspondentes a esse poder. Comprava energia relativamente barata da Rússia, vendia automóveis, máquinas e produtos químicos para a China, utilizava o enorme mercado integrado da União Europeia e permanecia protegida pela aliança militar liderada pelos Estados Unidos. Esse modelo está desaparecendo. A ruptura energética com Moscou, a transformação da China de mercado em concorrente e a crescente incerteza sobre a disposição norte-americana de sustentar a segurança europeia estão empurrando Berlim para uma nova posição. A Alemanha dos próximos anos tende a ser mais independente, mais armada e politicamente mais ambiciosa. E isso poderá alterar profundamente o equilíbrio de poder dentro da Europa e o próprio lugar dos europeus no sistema internacional.
A mudança começou pela energia porque era justamente ali que se encontrava uma das maiores vulnerabilidades alemãs.
Às vésperas da invasão da Ucrânia, aproximadamente metade do gás importado pela Alemanha vinha da Rússia. A dependência não era um acidente. Fazia parte de uma estratégia desenvolvida durante décadas e sustentada por governos de diferentes orientações políticas.
A lógica parecia bastante racional. A Rússia possuía enormes reservas de energia e precisava de compradores. A Alemanha possuía uma indústria extremamente competitiva e precisava de energia barata. Gasodutos ligariam os dois lados diretamente, criando uma relação de interdependência que beneficiaria economicamente alemães e russos.
Havia também uma expectativa política. Quanto mais a Rússia estivesse integrada à economia europeia, maiores seriam os custos de um confronto com o Ocidente. Comércio e investimento funcionariam, portanto, como instrumentos de estabilização.
O Nord Stream era a materialização dessa estratégia.
O gás russo chegaria diretamente à Alemanha pelo Báltico, transformando o país não apenas em consumidor, mas em um dos grandes centros de distribuição energética da Europa. Era particularmente atraente para uma economia baseada em indústrias intensivas em energia, como química, metalurgia, vidro, fertilizantes e diferentes segmentos da indústria de transformação.
A invasão da Ucrânia destruiu essa arquitetura.
Em poucos anos, aconteceu algo que parecia extremamente difícil antes de 2022. A Alemanha praticamente eliminou sua dependência direta do gás russo. Em 2024, cerca de 91% do gás importado pelo país chegou da Noruega, dos Países Baixos e da Bélgica. Não houve fornecimento de gás russo por gasodutos. Paralelamente, foram construídos rapidamente terminais para receber gás natural liquefeito transportado por navios.
Isso não significa que a Alemanha tenha alcançado independência energética.
Berlim continua dependendo fortemente de energia importada. Também existe uma zona cinzenta decorrente da integração do mercado europeu: gás que entra na União Europeia por outros países pode circular pelo continente, tornando mais difícil determinar a origem exata de cada parcela consumida.
Mas a transformação geopolítica é inequívoca.
A Rússia perdeu a capacidade de utilizar diretamente o fornecimento de gás como instrumento de pressão sobre a Alemanha.
Essa mudança tem uma consequência que ultrapassa em muito a política energética. Durante anos, qualquer deterioração extrema das relações entre Berlim e Moscou carregava um custo potencial gigantesco para a economia alemã. Hoje esse instrumento de pressão é significativamente menor.
A Alemanha tornou-se mais livre em relação à Rússia.
A liberdade, porém, teve um preço.
O antigo modelo fornecia energia abundante e relativamente barata diretamente por gasodutos. O novo sistema é mais diversificado, mas também expõe a Alemanha aos preços internacionais de gás natural liquefeito, à infraestrutura de países vizinhos e às condições do mercado mundial.
Isso ajuda a explicar parte das dificuldades enfrentadas pela indústria alemã desde 2022. A segurança energética aumentou, mas a vantagem econômica associada ao gás russo barato desapareceu.
O caso da gigantesca indústria química alemã é emblemático. Empresas que construíram suas cadeias produtivas em torno da disponibilidade de energia barata passaram a enfrentar concorrentes instalados em países onde gás e eletricidade custam menos. Alguns investimentos passaram a ser direcionados para fora da Alemanha.
É o primeiro grande paradoxo da transformação atual: a Alemanha ganhou autonomia geopolítica ao mesmo tempo em que perdeu uma vantagem econômica.
Mas algo ainda mais importante aconteceu.
Ao romper sua dependência energética da Rússia, Berlim descobriu que aquele era apenas um dos componentes de uma arquitetura de dependências muito maior.
Durante aproximadamente três décadas, o sucesso alemão esteve sustentado por três grandes relações externas: energia russa, mercado chinês e segurança norte-americana.
As três estão sendo simultaneamente questionadas.
A China talvez represente o problema econômico mais complexo.
Durante muito tempo, a ascensão chinesa pareceu uma extraordinária oportunidade para a Alemanha. Centenas de milhões de chineses ingressavam na classe média e queriam automóveis, equipamentos industriais, produtos químicos e máquinas sofisticadas. Era justamente aquilo que a Alemanha sabia produzir particularmente bem.
Volkswagen, BMW e Mercedes-Benz transformaram a China em um de seus mercados fundamentais. Empresas de engenharia venderam equipamentos para a expansão industrial chinesa. O crescimento da China alimentava as exportações alemãs.
Mas a relação mudou.
A China não quer permanecer indefinidamente comprando os produtos tecnologicamente sofisticados que a Alemanha produz. Quer fabricá-los.
E em algumas áreas já conseguiu.
Automóveis elétricos são provavelmente o exemplo mais visível. Fabricantes chineses passaram rapidamente de competidores domésticos para concorrentes internacionais. Empresas como BYD mostram que a indústria chinesa já consegue disputar mercados nos quais alemães, japoneses e norte-americanos dominaram durante décadas.
Situação semelhante começa a aparecer em máquinas industriais, produtos químicos, energia solar, baterias, equipamentos elétricos e diferentes tecnologias avançadas.
Para a Alemanha, isso representa uma transformação histórica.
A China está deixando de ser apenas um enorme cliente da indústria alemã para se tornar também um enorme concorrente da indústria alemã.
Ao mesmo tempo, abandonar o mercado chinês seria economicamente extremamente custoso.
Berlim enfrenta, portanto, um problema diferente daquele que tinha com Moscou. É possível substituir gás russo por gás norueguês, LNG norte-americano e outras fontes. Substituir completamente a China como mercado, fornecedor e componente das cadeias industriais é muito mais difícil.
Isso ajuda a explicar por que a política alemã em relação a Pequim tende a permanecer mais pragmática do que algumas posições defendidas em Washington.
A Alemanha deverá procurar reduzir vulnerabilidades em relação à China sem romper economicamente com ela.
É justamente essa diferença de interesses que poderá produzir uma política externa alemã progressivamente mais independente dos Estados Unidos.
Porque o terceiro pilar do antigo modelo alemão também está sendo colocado em dúvida.
Desde o final da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos constituem o elemento central da segurança da Alemanha Ocidental e, posteriormente, da Alemanha reunificada.
A presença militar norte-americana permitiu algo extraordinário: a maior economia da Europa pôde gastar proporcionalmente muito menos em defesa do que seria esperado de uma potência com sua dimensão.
Isso produziu enormes benefícios.
Recursos que poderiam ter sido destinados às Forças Armadas foram empregados em infraestrutura, proteção social, educação, competitividade industrial e outros objetivos domésticos.
Mas também criou uma dependência.
A Alemanha tornou-se uma potência econômica sem desenvolver plenamente os instrumentos militares de uma potência internacional.
Durante muito tempo isso não pareceu problemático. A União Soviética desapareceu, a Rússia parecia integrável à economia europeia e a presença norte-americana no continente parecia permanente.
A invasão da Ucrânia destruiu a primeira ilusão. Donald Trump abalou a segunda.
O problema para os alemães não é simplesmente saber se Trump gosta ou não da Europa. É perceber que a relação dos Estados Unidos com o continente passou por uma transformação estrutural que provavelmente sobreviverá ao próprio Trump.
Washington está progressivamente concentrando sua atenção estratégica na Ásia e principalmente na China. Ao mesmo tempo, existe crescente pressão política interna para que europeus assumam parcela maior dos custos de sua própria defesa.
Para Berlim, a conclusão começa a ser inevitável: mesmo que os Estados Unidos continuem sendo o principal aliado militar europeu, a Europa precisa ser capaz de se defender com participação norte-americana menor do que aquela à qual se acostumou.
A mudança alemã nessa área é extraordinária.
Em 2026, o orçamento regular de defesa alemão passou de 82 bilhões de euros, além dos recursos extraordinários destinados às Forças Armadas. Para 2027, o governo planejou elevar ainda mais esses gastos. A Alemanha assumiu compromissos que apontam para despesas de defesa equivalentes a 3,5% do PIB, além de outros investimentos relacionados à segurança.
Friedrich Merz foi ainda mais explícito ao afirmar que a Alemanha duplicará seu orçamento de defesa em quatro anos.
Não estamos falando simplesmente de comprar alguns tanques adicionais.
Estamos assistindo a uma alteração na maneira como a Alemanha entende sua própria posição internacional.
Isso é historicamente extraordinário porque toda a arquitetura política europeia posterior a 1945 foi construída, em alguma medida, em torno da limitação do poder alemão.
Depois de duas guerras mundiais, uma Alemanha militarmente poderosa era justamente aquilo que seus vizinhos não queriam.
A solução encontrada foi brilhante. Em vez de tentar manter a Alemanha permanentemente fraca, franceses, norte-americanos e outros europeus ajudaram a inseri-la em instituições que tornavam seu poder administrável.
A integração europeia vinculou economicamente a Alemanha aos vizinhos. A OTAN integrou sua defesa a uma aliança comandada pelos Estados Unidos. Posteriormente, o euro inseriu a potência monetária alemã dentro de uma estrutura europeia comum.
A Alemanha voltou a ficar extraordinariamente poderosa, mas seu poder tornou-se institucionalizado.
Essa característica provavelmente continuará.
É pouco plausível imaginar Berlim abandonando a União Europeia ou procurando construir uma política nacional completamente independente. O caminho mais provável é quase o inverso.
A Alemanha tentará aumentar seu poder através da Europa.
Esse talvez seja o ponto central para compreender a Alemanha que está surgindo.
Autonomia alemã não significa necessariamente distância da Europa. Significa uma tentativa de fazer da Europa um ator internacional mais autônomo.
Sozinha, a Alemanha possui pouco mais de 80 milhões de habitantes. É uma grande economia, mas não possui escala para competir isoladamente com Estados Unidos e China.
A União Europeia possui aproximadamente 450 milhões de habitantes, um gigantesco mercado consumidor, uma moeda internacional, enorme capacidade tecnológica e algumas das empresas mais sofisticadas do mundo.
Transformar esse potencial econômico em poder político é uma questão diferente.
E é exatamente aí que a Alemanha pode assumir uma função mais proeminente.
A França há muito defende a ideia de autonomia estratégica europeia. Paris possui armas nucleares, forças militares capazes de atuar fora do continente e uma cultura política muito mais confortável com o exercício tradicional do poder.
A Alemanha possui aquilo que falta à França: escala econômica e industrial muito maior.
Durante décadas, esses atributos produziram uma divisão implícita. A França pensava geopoliticamente, enquanto a Alemanha pensava economicamente.
Essa divisão começa a desaparecer.
Um sinal particularmente importante surgiu em 2026, quando Paris e Berlim decidiram aprofundar a cooperação sobre dissuasão estratégica. Os dois governos estabeleceram inclusive um grupo de alto nível para discutir questões nucleares, combinando capacidades convencionais alemãs com a força nuclear francesa.
A Alemanha não está procurando construir sua própria bomba atômica, nem há indicação de que pretenda abandonar a proteção nuclear da OTAN. Mas o simples fato de franceses e alemães começarem a discutir de maneira muito mais concreta como capacidades nucleares europeias se encaixariam na defesa do continente mostra quanto o ambiente mudou.
Existe aqui uma combinação potencialmente poderosa.
A França oferece tradição militar, capacidade nuclear e disposição política para utilizar força.
A Alemanha oferece escala industrial, recursos financeiros e uma posição central dentro da Europa.
Polônia, por sua vez, está emergindo como grande potência militar no leste europeu. Reino Unido continua possuindo capacidade nuclear, inteligência sofisticada e forças armadas relevantes, apesar de estar fora da União Europeia.
Uma arquitetura europeia de segurança mais autônoma poderá surgir justamente da combinação dessas capacidades.
E a Alemanha inevitavelmente estará no centro dela.
Isso não significa o fim da OTAN.
Na realidade, Berlim insiste exatamente no contrário. A estratégia alemã continua sendo fortalecer o componente europeu dentro da aliança transatlântica, não substituí-la.
Mas há uma diferença fundamental entre depender dos Estados Unidos e cooperar com os Estados Unidos.
É essa passagem que poderá definir os próximos anos.
Quanto mais os europeus forem capazes de financiar suas próprias Forças Armadas, fabricar munições, desenvolver sistemas de defesa aérea, produzir mísseis, manter tropas na fronteira oriental e sustentar a Ucrânia, menor será a capacidade de qualquer governo norte-americano de determinar sozinho os limites da política de segurança europeia.
A Alemanha já começou a assumir responsabilidades que seriam politicamente muito difíceis de imaginar duas décadas atrás. A presença militar alemã no flanco oriental da OTAN, inclusive na Lituânia, mostra como a memória histórica europeia está mudando.
Durante décadas, países do leste europeu temiam tropas alemãs.
Hoje alguns deles querem tropas alemãs em seu território para protegê-los da Rússia.
Poucas imagens demonstram melhor a transformação da posição alemã na Europa.
Mas a nova autonomia não será apenas militar.
A política industrial está se tornando política de segurança.
Semicondutores, inteligência artificial, baterias, infraestrutura digital, minerais estratégicos, indústria farmacêutica e energia deixaram de ser tratados exclusivamente como questões de mercado. São agora componentes da competição entre potências.
Isso obriga a Alemanha a reconsiderar outro elemento fundamental de sua identidade pós-guerra: a crença de que comércio e interdependência econômica inevitavelmente reduzem conflitos.
A Rússia demonstrou os limites dessa hipótese.
A China mostra que interdependência também pode produzir vulnerabilidade.
E até os Estados Unidos demonstram que aliados podem utilizar tarifas, tecnologia e acesso a mercados como instrumentos de negociação política.
O resultado não deverá ser uma Alemanha autárquica.
Ao contrário. Uma economia exportadora alemã não sobreviveria bem em um mundo de isolamento econômico.
O que Berlim parece buscar é diversificação.
Menos dependência energética de um único fornecedor. Menor vulnerabilidade industrial à China. Maior capacidade militar europeia. Mais acordos econômicos com outras regiões.
É nesse contexto que países como Índia, Brasil, Indonésia, Vietnã, México e diferentes economias africanas ganham importância.
Uma Alemanha mais autônoma precisará olhar muito mais para o chamado Sul Global.
Índia é particularmente importante. Além de ser uma das maiores economias do planeta, oferece mercado, mão de obra qualificada, capacidade tecnológica e uma alternativa parcial à excessiva concentração das cadeias produtivas na China.
Sudeste Asiático apresenta possibilidades semelhantes. Vietnã, Indonésia, Malásia e outros países tornam-se componentes de uma estratégia de diversificação econômica.
África também ganha outra dimensão. A transição energética europeia exigirá minerais, hidrogênio, novas cadeias produtivas e investimentos em infraestrutura. Para países africanos, isso cria oportunidades, mas também abre uma disputa entre europeus, chineses, norte-americanos, países do Golfo e outras potências.
A Alemanha terá de aprender a operar nesse ambiente de maneira diferente.
Durante décadas, sua política externa podia enfatizar comércio, direitos humanos, cooperação e instituições multilaterais enquanto questões de segurança mais duras permaneciam predominantemente sob responsabilidade norte-americana.
Esse luxo está diminuindo.
Uma Alemanha que precisa garantir matérias-primas, defender rotas comerciais, proteger infraestrutura crítica, competir por tecnologia e participar mais ativamente da segurança europeia inevitavelmente desenvolverá uma concepção mais explícita de interesse nacional.
Isso não significa que Berlim abandonará valores democráticos ou o multilateralismo.
Significa que valores e interesses precisarão conviver de maneira mais visível.
Há, porém, enormes obstáculos para que essa transformação seja bem-sucedida.
O primeiro está na própria economia alemã.
Poder internacional exige uma base econômica capaz de sustentá-lo. E justamente quando Berlim decide gastar muito mais em defesa, sua economia enfrenta problemas estruturais importantes.
A indústria automotiva precisa realizar uma transição tecnológica difícil. Energia continua cara. A população envelhece. Falta mão de obra. Infraestrutura necessita de modernização. Burocracia e regulamentação são frequentemente apontadas pelas próprias empresas alemãs como obstáculos aos investimentos.
Merz reconheceu explicitamente a relação entre as duas questões: sem recuperar competitividade e crescimento, a Alemanha terá dificuldade para sustentar ambições geopolíticas maiores.
O segundo obstáculo é político.
Uma política externa mais assertiva precisa de apoio social. Gastar dezenas de bilhões adicionais em defesa significa decidir onde esses recursos serão obtidos. A Alemanha possui um Estado de bem-estar amplo e uma população envelhecida, exatamente quando gastos previdenciários e de saúde tendem a aumentar.
Canhões e manteiga voltam a competir pelo orçamento alemão.
O terceiro problema está na própria Europa.
Uma Alemanha mais poderosa pode ser necessária para que a Europa tenha maior autonomia. Mas uma Alemanha excessivamente dominante também pode gerar resistência.
Esse dilema acompanha a Europa há mais de um século.
Países menores querem liderança alemã quando Berlim paga parte importante das contas europeias, sustenta a economia continental ou oferece proteção contra a Rússia. Podem ser muito menos receptivos quando liderança começa a significar capacidade alemã de determinar prioridades políticas.
França dificilmente aceitará simplesmente uma Europa dirigida por Berlim.
Polônia adquiriu peso político, econômico e militar crescente e possui sua própria visão sobre segurança europeia.
Itália, Espanha e os países menores também têm interesses específicos.
O desafio alemão será, portanto, converter poder em liderança sem transformar liderança em hegemonia.
A União Europeia oferece justamente o instrumento para isso.
Dentro das instituições europeias, a Alemanha pode exercer enorme influência sem precisar construir uma esfera de influência alemã tradicional.
Esse talvez seja o aspecto mais interessante do possível retorno alemão ao sistema das grandes potências.
A Alemanha do século XXI não precisa se parecer com as potências dos séculos XIX ou XX.
Não precisa conquistar território, construir império colonial ou possuir centenas de ogivas nucleares para exercer poder internacional.
Pode fazê-lo através da União Europeia, do euro, da capacidade industrial, da regulamentação, da tecnologia, do comércio e, cada vez mais, de uma força militar reconstruída.
O resultado provavelmente será uma Alemanha simultaneamente mais europeia e mais alemã.
Mais europeia porque somente através da Europa poderá adquirir escala comparável aos Estados Unidos e à China.
Mais alemã porque terá de definir de maneira muito mais clara seus próprios interesses e assumir custos que durante décadas puderam ser transferidos para aliados.
A Rússia acelerou essa transformação ao destruir a antiga relação energética.
A China a acelera ao desafiar a posição da indústria alemã.
Os Estados Unidos a aceleram ao exigir que europeus assumam responsabilidade maior por sua própria segurança.
Há uma ironia histórica nessa combinação.
Vladimir Putin queria reduzir a influência ocidental na Europa e acabou contribuindo para o maior rearmamento alemão desde o final da Guerra Fria.
Donald Trump quer que europeus dependam menos dos recursos militares norte-americanos e pode acabar contribuindo para o surgimento de um polo europeu muito mais autônomo em relação aos próprios Estados Unidos.
E a ascensão industrial chinesa pressiona a Alemanha a abandonar a confortável expectativa de que a globalização permitiria separar indefinidamente economia e geopolítica.
Nenhuma dessas transformações garante que a Alemanha conseguirá assumir uma posição internacional mais proeminente.
Mas todas apontam na mesma direção.
A Alemanha está sendo obrigada a adquirir atributos de poder que durante décadas preferiu não desenvolver.
Energia diversificada reduz a vulnerabilidade diante da Rússia. Rearmamento diminui progressivamente a dependência militar dos Estados Unidos. Política industrial busca reduzir vulnerabilidades diante da China. Novas parcerias internacionais ampliam alternativas econômicas. E a União Europeia oferece a escala necessária para transformar esses recursos em influência mundial.
Talvez, por isso, a melhor maneira de compreender o momento atual não seja dizer que a Alemanha decidiu subitamente tornar-se uma grande potência.
Ela nunca deixou de possuir muitos dos recursos de uma.
O que desapareceu foi o ambiente internacional que permitia a Berlim possuir enorme poder econômico sem precisar transformá-lo plenamente em poder estratégico.
Durante décadas, a Alemanha pôde responder às grandes questões internacionais perguntando o que faria a Europa, o que fariam os Estados Unidos ou como reagiriam os mercados.
A nova realidade exigirá que, com frequência crescente, outros países façam a pergunta inversa.
O que fará a Alemanha?
Pós-Doutor em Competitividade Territorial e Indústrias Criativas, pelo Dinâmia – Centro de Estudos da Mudança Socioeconómica, do Instituto Superior de Ciencias do Trabalho e da Empresa (ISCTE, Lisboa, Portugal). Doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (2007). É Diretor Executivo do Mapa Mundi. ORCID https://orcid.org/0000-0003-1484-395X