ISSN 2674-8053

Afghanistan “forever”???

Esta mat√©ria do autor e professor indiano Fareed Zakaria -A Guerra da qual Trump n√£o quer sair” -, published in Estad√£o do dia 07/09, trata do mais recenteimbroglioem gesta√ß√£o dasaganorte-americana/ocidental no Afeganist√£o. That is, D.T., depois de ter dito que n√£o, resolveu aumentar a presen√ßa das tropas norte-americanas no pa√≠s.

Zakaria afirma, a meu ver com raz√£o, what “n√£o existe sinal mais claro da fal√™ncia da pol√≠tica externa americana do que a estrat√©gia adotada para o Afeganist√£o”.

Por quê? Em qual direção?

A quest√£o, at the bottom, √© do v√°cuo de lideran√ßa, que impede as tropas americanas de abandonarem o solo afeg√£o. Mas ser√° que pashtuns, hazaras, uzbecks, guess, Turkmen, beluchis, pashais, nuristanis, gujiares e √°rabes, among others, que conformam o caleidosc√≥pio racial de um pa√≠s que chamam nominalmente de Afeganist√£o, mas que √© um emaranhado de Hist√≥ria, costumes, tradi√ß√Ķes, confrontos intertribais, e que nunca foi dominado por qualquerforasteiro”, at√© mesmo por Alexandre, the big, aceitariam uma lideran√ßa formulada (as a matter of fact, imposta) por pot√™ncias estrangeiras?

Ser√° poss√≠vel instalar uma democraciawestern stylenum mundo que se tem regido, h√° mil√™nios, por uma democracia tribal, na qual a assembl√©ia de l√≠deres – a “jirga” – decide os destinos da na√ß√£o, profundamente orgulhosae ciosada sua raiz multi√©tnica?

Esta tentativa j√° ocorreu quando os norte-americanos decidiram colocar na presid√™ncia do Afeganist√£o Hamid Karzai, da etnia majorit√°ria “pashtun”, in 2004. Deu no que deu…that is, em nada. THE “pobre coitadosequer podia sair de Cabul, sob pena de ser assassinado. E o atual Presidente, Ashraf Ghani Ahmadzai, claudicaEste sistema seguramente n√£o funciona nesse universo.

Foi o que ponderou um atento observador do Afeganist√£o, Dexter Filkins, quando indagado por Zakaria: “os afeg√£os n√£o gostam do Taleban, mas detestam o governo afeg√£o”.

Em outra pauta, ser√° que o fator presumidamente agregat√≥rioo Isl√£comum a quase a totalidade da popula√ß√£o,realmente agrega a sociedade? Ser√° que a F√© un√≠voca em Alah, e no Profeta, √© suficiente para esmaecer a cis√£o que divide a maioria sunita e a minoria xiita do pa√≠s (for example, os pashtuns s√£o sunitas, mas os hazaras, Shiites)? Quais s√£o as mesquitas que est√£o sendo objeto de atentados, over there, pelos talib√£s e pelo Estado Isl√Ęmico? Resposta: as xiitas

That is, o conflito se bifurca e se complica: on one side, as tropas ocidentais que nunca saem, e, do outro, The “religious divide”.

E quem s√£o os talib√£s? Sunitas, mas n√£o apenas (?) sunitas, sen√£o sunitas que enfrentaram os sovi√©ticos ateus, what “queriam erradicar a F√©no solo afeg√£o, apostasia e an√°tema, at the same time!!! Formados no fundamentalismo radical e no Isl√£ rudimentar das madrassas paquistanesas, eles se investiram no papel de defensores da F√© (“suni style”). E agora disputam terreno com o Estado Isl√Ęmico, que os acusa de se terem amansado e perdido achama sagrada”, o esp√≠rito dajihad”.

E neste emaranhado de desafios civilizacionais encontram-se os americanos e alguns poucos outros ocidentais remanescentes das tropas da ISAF. Como entender uma realidade cultural que escapa √† nossa realidade, e √† nossa maneira de ver o mundo? Como querer impingir solu√ß√Ķes que fatalmente dar√£o errado?

So, Zakaria termina seu artigo de forma melanc√≥lica: “…in other words, a um custo humano menor, os Estados Unidos repetem no Afeganist√£o a mesma estrat√©gia usada no Vietn√£. Um atoleiro menos profundo, poder√≠amos dizer”.

Haver√° solu√ß√£o? “To be continued”…


A guerra da qual Trump n√£o quer sair

Fareed Zakaria, The Washington Post, The State of S√£o Paulo

07 September 2017 | 05h00

N√£o existe sinal mais claro da fal√™ncia da pol√≠tica externa americana do que a estrat√©gia adotada para o Afeganist√£o. After 15 anos de guerra e a mobiliza√ß√£o de centenas de milhares de soldados, um novo presidente entrou no Sal√£o Oval determinado a mudar fundamentalmente essa pol√≠tica. Meses depois, prop√Ķe, com grande alarde, uma continua√ß√£o do mesmo. Result: os Estados Unidos est√£o agora firmemente presos a sua guerra sem fim no Afeganist√£o.

A estrat√©gia do presidente Donald Trump difere da herdada por ele apenas no aumento de 3,5 mil homens. Trump prometeu abster-se da constru√ß√£o do pa√≠s, dar √™nfase ao contraterrorismo, p√īr fim √† corrup√ß√£o naquele pa√≠s e responsabilizar o Paquist√£o. Barack Obama prometeu a mesma coisa. ‚ÄúEst√° na hora de nos concentrarmos na constru√ß√£o de um pa√≠s, aqui e l√° fora‚ÄĚ, disse ele em 2011, explicando a mudan√ßa de enfoque em rela√ß√£o √† estrat√©gia adotada pelo presidente George W. Bush.

As observa√ß√Ķes de Trump com rela√ß√£o ao Paquist√£o foram vistas por muitas pessoas como uma ruptura da pol√≠tica do governo anterior, mas parecem esquecer o depoimento extraordinariamente franco que o ent√£o comandante do Estado-Maior, Mike Mullen, prestou ao Congresso em 2011. Ele qualificou a rede Haqqani, um dos mais perigosos grupos terroristas do Afeganist√£o, de ‚Äúum bra√ßo dos servi√ßos de intelig√™ncia paquistaneses‚ÄĚ.

Nesse mesmo ano, a secret√°ria de Estado na √©poca, Hillary Clinton e o ent√£o diretor da CIA, David Petraeus, foram ao Paquist√£o para, nas palavras de Hillary, pressionar duramente os paquistaneses a n√£o dar mais apoio aos terroristas do Haqqani. E a press√£o foi uma das v√°rias a√ß√Ķes que deixaram os paquistaneses indignados, a ponto de fecharem as rotas de suprimento para as for√ßas lideradas pelos americanos no Afeganist√£o durante sete meses.

Manifestando seu apoio ao compromisso de Trump, o presidente da C√Ęmara, Paul Ryan, usou a velha e batida cita√ß√£o de que os Estados Unidos t√™m os rel√≥gios, mas o Taleban tem o tempo. ‚ÄúSe eles acham que temos uma data-limite, um cronograma, ent√£o estar√£o esperando pela nossa sa√≠da‚ÄĚ, stated. Mas isso √© n√£o entender absolutamente a natureza desse tipo de guerra. O Taleban esperar√° por n√≥s por uma raz√£o simples: seus integrantes vivem naquele pa√≠s.

Harry Summers, um oficial do Ex√©rcito muito sensato que participou da Guerra do Vietn√£, escreveu um livro sobre as li√ß√Ķes militares extra√≠das daquele conflito, livro que ele abre relatando uma conversa que manteve com um oficial vietnamita em 1975, pouco antes da queda de Saigon: ‚ÄúVoc√™s sabem que nunca nos derrotaram no campo de batalha‚ÄĚ, disse Summers a ele. O oficial respondeu: ‚ÄúPode ser, mas isso √© irrelevante‚ÄĚ. Toda for√ßa local sabe que um dia os estrangeiros ter√£o de voltar para casa.

Por que o Taleban est√° ganhando terreno no Afeganist√£o?, perguntei a Dexter Filkins, da New Yorker, um dos mais sagazes observadores dessa guerra. ‚ÄúOs afeg√£os n√£o gostam do Taleban, mas detestam o governo afeg√£o. Afirmamos que n√£o queremos construir uma na√ß√£o, mas voc√™ n√£o consegue criar um Ex√©rcito sem antes criar um Estado. As pessoas n√£o morrem por um Ex√©rcito, mas por um pa√≠s. E quem deseja morrer pelo atual governo afeg√£o?‚ÄĚ, respondeu.

Os militares americanos no Afeganist√£o sabem disso muito bem e √© por essa raz√£o que se referem ao governo afeg√£o como uma combina√ß√£o de redes corruptas que se estendem pelo pa√≠s. H√° at√© um apelido, ao estilo militar, para esse grupo ‚Äď Vice (Vertically Integrated Criminal Enterprise ‚Äď ou Empresa Criminosa Integrada Verticalmente).

Barnett Rubin, conhecido especialista em assuntos do Afeganist√£o, que assessorou as Na√ß√Ķes Unidas e o governo americano, explica a quest√£o de modo diferente: ‚ÄúO Estado afeg√£o n√£o consegue existir sem ajuda externa. N√£o consegue pagar suas contas sem ajuda americana. N√£o pode ser uma sociedade est√°vel sem ajuda do Paquist√£o, nem crescer economicamente sem com√©rcio e tr√Ęnsito com o Ir√£‚ÄĚ.

Referindo-se a not√≠cias de que o Afeganist√£o possuiria quase US$ 1 trilh√£o em recursos minerais, ele observou: ‚ÄúTenho certeza de que a Lua tem mais min√©rio, mas voc√™ tem de encontrar um meio para que ele chegue ao mercado. E para isso precisa de vizinhos amigos‚ÄĚ, disse. Para Rubin, a estrat√©gia de Trump est√° condenada, pois √© totalmente alheia aos interesses das outras pot√™ncias na regi√£o, especialmente R√ļssia, China e Ir√£.

On the other hand, o governo Trump oferece do mesmo em dose dupla. Mais dinheiro, bombas, soldados, press√£o sobre o Paquist√£o, mais severidade e apoio aos afeg√£os. √Č um enfoque t√°tico, concebido por generais, para garantir que n√£o fracassem. Mas n√£o h√° uma estrat√©gia para vencer a guerra. Em outras palavras, 25 years later, a um custo humano menor, os Estados Unidos repetem no Afeganist√£o a mesma estrat√©gia usada no Vietn√£. Um atoleiro menos profundo, poder√≠amos dizer. / TRADU√á√ÉO DE TEREZINHA MARTINO

Artigo originalmente publicado em http://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,artigo-a-guerra-da-qual-trump-nao-quer-sair,70001973783

Fausto Godoy
Doctor of Public International Law in Paris. He entered the diplomatic career in 1976, served in Brussels embassies, Buenos Aires, New Delhi, Washington, Beijing, Tokyo, Islamabade (where he was Ambassador of Brazil, in 2004). He also completed transitional missions in Vietnam and Taiwan. Lived 15 years in Asia, where he guided his career, considering that the continent would be the most important of the century 21 - forecast that, now, sees closer and closer to reality.