E os chineses (estão) vêm aí…

Esta matéria do Estadão já é antiga (29/11), mas permanece atualíssima. Não pude comentar antes porque estava às voltas com as provas finais da ESPM. Agora, tenho tempo – e empenho – para tentar analisar a crescente presença das empresas chinesas por aqui (que um amigo meu, radical, chamou de “invasão”…).

Ao lermos o artigo, de autoria de Renée Pereira e Mônica Scaramuzzo, nos damos conta de que o Brasil é o segundo país do mundo – após os EUA – a receber investimentos de parte dos chineses. Significativo…muito…e, mais ainda, o fato de que grande parte das empresas investidoras são estatais – State Grid, China Three Gorges, CCCC – ou têm participação acionária do governo – Hainan Airlines, Hunan Dakang Pasture Farming, Bank of Communications. Ou seja,a julgar pelo perfil delas, foram escolhidas pelos estrategistas do governo as áreas no Brasil que têm a ver com alguns dos – possívelmente – mais relevantes gargalos para o desenvolvimento continuado da China: energia, grãos, portos, finanças, engenharia, e por aí vamos. Chama a atenção, por exemplo, que o porto de São Luis tenha 100% de capital acionário da CCCC (estatal), que, aliás, tenciona investir R$ 40 bilhões no nosso setor de infraestrutura.

É particularmente significativo o trecho da matéria que, referindo-se à CCCC, menciona que “…o apetite da gigante chinesa no Brasil não se restringe à Malha Sul, mas também negocia a entrada no consórcio que vai construir a Ferrogrão, uma ferrovia de quase mil quilômetros de trilhos” na região sul (proposta esta ainda pendente de autorização do TCU). É o caminho para os portos do Pacífico, of course…

Quer Isto dizer que o governo chinês decidiu alavancar a “parceria estratégica” que estabelecemos quando o então Vice-Primeiro-Ministro, encarregado das Finanças da RPC, Zhu Rongji,nos visitou, em março de 1993? Aliás, partiu dele a proposta…

O buraco é, para mim, mais embaixo, e tem a ver com a visão de longuíssimo prazo que embasa a política macroeconômica do governo chinês. A saber, com um território ingrato (bem mais da sua metade composta de desertos e montanhas acidentadas), a questão da segurança alimentar é essencial para um país/sociedade que almeja transformar-se numa potência pós-industrial até 2050…A propósito, já tratei em postagens anteriores do “China Dream” de Xi Jinping.

E onde estão os territórios que podem fornecer comida, liberando espaços para os chineses se concentrarem nesse futuro diferenciado? no Brasil e na África, certamente! Daí a “quase invasão” do continente africano pelas empresas chinesas, que teve início por projetos de cooperação técnica para o desenvolvimento patrocinados pelo governo, na década de 90, e hoje estendem seus “tentáculos” por toda a economia do continente.E o Brasil tornou-se, também, num foco privilegiadíssimo para os investimentos sínicos (com s).

E onde está a tecnologia de ponta que alavancará a pesquisa e o desenvolvimento dos chineses? Na Europa Ocidental, principalmente: a Volvo Cars, já pertence à “Zhejiang Geely Holding (Geely Holding) of China”, desde 2010; a Pirelli, italiana (?), foi comprada recentemente pela “China National Chemical Corp” (ChemChina)/ fabricante estatal chinesa de pneus. E por aí vamos…

Ou seja, os chineses revisitaram o Tratado de Tordesilhas, e o reinventaram, no sentido norte-sul…Alimentos +/X tecnologia de ponta, eis a “receita de sucesso” para a China/2017, 18, 19………A China multimilenar, e sábia, segue a sua trajetória.

Muito bem, parabéns aos nossos irmãos chineses pela clarividência, e pela determinação.

Mas, e nós? Onde nos encaixamos nesta equação, além de nos contentarmos em ser a “cozinha” dos chineses? Vamos deixar que a nossa “parceria estratégica” se restrinja às “commodities” apenas? Não era no nosso sonho em 1993… Tanto que criamos o projeto binacional CBERS/”Satélite Sino-Brasileiro de Recursos Terrestres” para o monitoramento da Amazônia (tema que vou tocar numa outra postagem).

Mas, estamos preparados – sociedade e governo – para interagirmos com a que será dentro em breve a maior economia do planeta?Quantas escolas ensinam mandarim (fundamental…)? Quantas universidades se dedicam, com afinco, a estudar essa cultura, ao mesmo tempo milenar e pós-moderna? Quantos empresários brasileiros estão efetivamente preparados para lidar com os chineses?

Perguntas sem resposta, ainda. Angustiante…


Gigante chinesa CCCC quer comprar participação na Malha Sul

29 Novembro 2017 | 05h00

Setor ferroviário entrou no radar da companhia asiática, que está disposta a fazer aporte de capital de R$ 2 bilhões no ativo e a investir mais R$ 6 bilhões em dez anos; negócio, porém, está atrelado à renovação da concessão da Malha Paulista

Para fechar o negócio, um exército de profissionais da CCCC está trabalhando num processo de “due diligence” (auditoria) para avaliar as necessidades de investimentos na infraestrutura, que engloba os três Estados da região Sul. A proposta inicial envolve um aporte de R$ 2 bilhões e investimentos da ordem de R$ 6 bilhões num período de dez anos.

Depois de adquirir a Concremat Engenharia e o projeto portuário de São Luís, no Maranhão, a gigante chinesa CCCC mira o setor ferroviário. A empresa negocia a compra de participação na Malha Sul, concessão de 7.208 quilômetros (km) que hoje está nas mãos da Rumo (ex-ALL), do grupo Cosan. Fontes ligadas ao grupo afirmaram que a companhia asiática tem planos de ficar com uma fatia de 55% a 60% da malha, mas não descarta ser acionista minoritário, uma vez que a Rumo não quer abrir mão do controle, apurou o Estado.

Mas não se trata de uma negociação fácil. A chinesa, que no Brasil é representada pelo Banco Modal, tem concorrência de peso na disputa pela concessão ferroviária. No páreo, estão as japonesas Mitsubishi e Sumitomo, de acordo com pessoas familiarizadas com as negociações. Todas as três empresas estão conversando separadamente com a Rumo, que está sendo assessorada pelo Bank of America Merrill Lynch. Além disso, a venda de participação da ferrovia estaria atrelada ao processo de renovação da concessão da Malha Paulista.

Trata-se de um trecho de 2.039 km dentro do Estado de São Paulo, cuja concessão vencerá em 2028. Se o governo aceitar, a Rumo continuaria a administrar a ferrovia por mais 30 anos e, em troca, investiria quase R$ 5 bilhões. As empresas interessadas na Malha Sul entendem que, se houver a prorrogação do trecho paulista, as demais também seriam autorizadas. Sem a renovação, a compra de participação na ferrovia não se viabiliza no momento.

Um dos motivos é a necessidade de investimentos para recuperar a infraestrutura da malha, que é alta. Segundo fontes, não há tempo para recuperação do capital injetado na ferrovia se não houver prorrogação. Dados da Agência Nacional de Transportes Terrestre (ANTT), mostram que de 2006 para cá, a movimentação de cargas na Rumo Malha Sul caiu de 28,9 mil toneladas úteis para 18,3 mil.

Fontes afirmaram que, mesmo com os investimentos, alguns trechos da ferrovias não deverão ser retomados por causa da viabilidade econômica. Nem todos os ramais têm movimentação com rentabilidade. Desde o começo do ano, por exemplo, a Rumo desativou o transporte de carga que vai para a Argentina.

No radar. O apetite da gigante chinesa no Brasil não se restringe à Malha Sul. A empresa também negocia a entrada no consórcio que quer construir a Ferrogrão, uma ferrovia de quase mil quilômetros de trilhos e R$ 8 bilhões de investimentos. O projeto, idealizado por grandes produtores, como Maggi, ADM, Bunge, Cargill e Dreyfus, está em fase de audiências públicas e depois deverá ser encaminhado ao Tribunal de Contas da União (TCU). As ferrovias Norte Sul, Oeste Leste e Transnordestina também estão no radar da chinesa.

Apesar de ter R$ 40 bilhões para investir em infraestrutura, a empresa chinesa estreou no mercado brasileiro com um negócio considerado modesto. Em novembro do ano passado, a companhia comprou 80% da construtora Concremat Engenharia, por R$ 350 milhões. Em abril deste ano, fechou acordo para comprar uma participação no porto de São Luis, no Maranhão, que está sendo feito em parceria com a construtora WTorre.

A CCCC, cujo faturamento global é US$ 60 bilhões por ano, vai fazer um aporte de R$ 1,7 bilhão no projeto. Procurados, Rumo, CCCC, Modal, Mitsubishi e Bofa não comentaram. A Sumitomo não retornou os pedidos de entrevista.

http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,gigante-chinesa-cccc-quer-comprar-participacao-na-malha-sul,70002100834

Fausto Godoy
Doutor em Direito Internacional Público em Paris. Ingressou na carreira diplomática em 1976, serviu nas embaixadas de Bruxelas, Buenos Aires, Nova Déli, Washington, Pequim, Tóquio, Islamabade (onde foi Embaixador do Brasil, em 2004). Também cumpriu missões transitórias no Vietnã e Taiwan. Viveu 15 anos na Ásia, para onde orientou sua carreira por considerar que o continente seria o mais importante do século 21 – previsão que, agora, vê cada vez mais perto da realidade.