Hindutva e o crescimento de forças conservadoras na Índia

Um dos principais problemas da Índia hoje é a violência comunal, (caracterizada pelo uso político da religião e a formação de fatores identitários antagônicos). Basta ler as notícias diárias dos jornais indianos, que podemos ver casos de linchamento, discriminação contra minorias religiosas, inúmeros outros tipos de violência e até mesmo o posicionamento conservador do governo federal e dos governos estaduais sobre determinados assuntos. Estes acontecimentos ameaçam constantemente a convivência plural e inclusiva da sociedade indiana

O mais recente caso envolve um dos grandes símbolos históricos e culturais do país, o Taj Mahal, mausoléu construído em 1632 sob o mandato do imperador Mughal Shah Jahan em memória a sua esposa Mumtaz Mahal. O Governo de Uttar Pradesh, estado onde está localizado o monumento listado como patrimônio mundial da UNESCO, excluiu o Taj Mahal da brochura de turismo oficial do estado. Yogi Adityanath (atual governador do estado e do mesmo partido do atual primeiro ministro Narendra Modi, BJP) declarou que o Taj Mahal não representa a “cultura indiana”.

Em meio à polêmica gerada por este acontecimento, outros representantes do governo BJP buscaram justificar a ação. Sangeet Som, em seu discurso disse que o governo de Uttar Pradesh está no centro de um movimento para mudar a história do estado e do país. Segundo ele, o governo está trabalhando arduamente para “consertar a história” e remover os “resquícios dos traidores da nação”.

Esse tipo de declaração faz parte da atual agenda política do BJP, que utiliza – e manipula – elementos e símbolos considerados “verdadeiramente patrióticos e nacionais”. Peça chave dessa agenda é o movimento nacionalista conservador intitulado como Hindutva.

As origens do Hindutva estão enraizadas no crescimento do chauvinismo hindu durante a colonização britânica da Índia, período marcado pelo nascimento de movimentos que enfatizavam o antagonismo entre comunidades religiosas diferentes.  Visão esta que fez emergir dois “nacionalismos religiosos” – um Hindu e outro Mulçumano, estimulados pela versão colonial da história do subcontinente, que estabelecia a continuação da teoria de “duas nações” como inerente da sociedade daquela região, em que a identidade da nação indiana sempre teria sido baseada em uma identidade religiosa.

Essa interpretação da história indiana põe em cheque a ideia de nacionalismo, discutida pelos movimentos de independência, anticoloniais e seculares, pois enaltece uma versão em que a identidade de uma nação prioriza um grupo dominante ou uma identidade única, (religiosa, étnica ou linguística) em oposição ao debate que enfatiza a pluralidade e a democracia inclusiva.

Nesse contexto, o Hindutva, que gira em torno do conceito “Hindu Rashtra” (dominação hindu),  surge como voz dessa versão comunal de nacionalismo, através da narrativa que sugere que os hindus caracterizam a população original da Índia, e que, portanto, seriam eles os “herdeiros legítimos” do passado do subcontinente. É nessa linha de pensamento que afirmações como “vamos consertar a história dessa nação” são elaboradas. Conceito este de “nação” que procura se sobrepor perante todos os cidadãos, e tenta promover a superioridade de uma versão ideológica do que é a Índia, marcada por um caráter estritamente excludente.

A historiadora indiana Romila Thapar faz uma crítica provocadora a esse processo. Thapar diz que o nacionalismo pode ser uma força positiva se for usado como unificação de comunidades, mas também pode ser uma força extremamente negativa se for enfatizado direitos exclusivos de uma comunidade baseado em um único fator identitário. Ela cita como exemplo de nacionalismo negativo o regime nazista na Alemanha que propagou a ideia de pureza da “raça” ariana e da origem dos europeus arianos. Com esse exemplo, Thapar procura destacar os sentimentos que excluem minorias, e que por razões absurdas, são consideradas indesejáveis.

As forças conservadoras que levantam a bandeira desse “pseudo-nacionalismo” procuram frequentemente elementos para serem tachados de “antinacionais”, no intuito de promover uma ideia homogeneizante de nação e identidade. Os ataques são direcionados a universidades, como a Jawaharlal Nehru University, Hyderabad University e entre várias outras que são centros de pensamento crítico e de ativismo político na Índia, como também são apontados como “antinacionais” até mesmo monumentos como o Taj Mahal, Red Fort e uma série de lugares de importância fundamental para a história e sociedade indiana. E são essas acusações que fomentam sentimentos de ódio e violência e geram a aversão contra o “outro”, contra diversidade que foi historicamente construída, e que sempre esteve fortemente presente em um território marcado pela multiplicidade de valores.

É diante de um cenário delicado como este que a Índia enfrenta essa grande força chamada “Hindutva”, motor de um nacionalismo míope e discriminatório, que se expande com o interesse político de partidos como o BJP. A resposta para esse crescimento de expressões nacionalistas negativas tem de surgir com o fortalecimento de movimentos críticos que procuram combater visões distorcidas da história, que marginalizam diversas comunidades, e negam o nacionalismo como capacidade de unir, de assegurar o bem-estar social e de garantir a dignidade de todos os cidadãos da sociedade.

Vitor Pascale
Mestrando em Política Internacional pela Jawaharlal Nehru University (JNU) – Nova Delhi, Índia, com a dissertação sobre "Resistência do Sul Global nas Relações Internacionais: Brasil e Índia à luz dos estudos pós-coloniais". Bacharel em Relações Internacionais pela ESPM.
Áreas de estudo e interesse: Sul Global, Pós-colonialismo, Sul asiático, Relações Brasil-Índia, Cooperação Sul-Sul