Shinzo Abe Global?

A política externa japonesa tem sempre se mostrado tímida, e dependente das relações privilegiadas com os norte-americanos. Ainda traumatizada pela derrota da II Guerra Mundial? Intimidada pela animosa vizinhança regional? Insegura a respeito do seu verdadeiro poder (de terceira maior economia do planeta…)?

“Trocando em miúdos”, onde os americanos vão, os japoneses seguem atrás, até porque estão atados pelo “Tratado de Cooperação e Segurança Mútuas”, que os dois países firmaram em 1951 (revisado em 1960), após a derrota do Japão na II Guerra Mundial. Segundo este documento, ao se terem comprometido a “renunciar eternamente à guerra” – palavras inscritas indelevelmente no artigo IX da sua chamada “constituição pacifista”, de 1947 (praticamente “ditada” pelos americanos ocupantes) – os japoneses delegaram aos EUA a defesa do seu território. Para os críticos, uma verdadeira “vassalagem” numa área vital para a sobrevivência do país.

Entre estes, o próprio Primeiro-Ministro Shinzo Abe,que desde que assumiu o cargo pela segunda vez, em 2012, vem tentando emendar a constituição a fim de permitir que as Forças de Auto-Defesa ampliem seu mandato e possam atuar em terrenos de guerra ao lado de seus aliados. Como sabemos, até agora o papel delas tem-se resumido à defesa do território, apenas, e, mais recentemente – até por mobilização de Shinzo Abe – a prestar apoio humanitário nos teatros de guerra.

Numa atitude ousada (arriscada, mesmo, segundo alguns), Abe-san destituiu a “Dieta” (o parlamento), em setembro, e convocou novas eleições um ano antes do previsto. Seu gesto foi entendido como uma estratégia audaz, aproveitando a fragilidade da oposição e a alta de sua popularidade graças à crise com a Coreia do Norte. A vitória expressiva de seu partido – Partido Liberal Democrata – na última segunda-feira, abriu-lhe a oportunidade de reescrever a Constituição…

Por que?

Apesar do bom relacionamento que Abe insiste em manter com Donald Trump, ele sabe – até porque D.T. já sinalizou seu “mal estar” com relação aos custos que a presença da 7a. Tropa (“7th Fleet”), que patrulha o Mar do Japão e a região adjacente, para cumprir o acordo de 1951, implica para o erário estadunidense – que o Japão não deveria “colocar todas as fichas nos EUA”.

Dito e feito, Abe-san partiu num exercício de “sedução” junto aos líderes mundiais que lhe interessam: realizou uma reunião de cúpula com Vladimir Putin; mantém boas relações com Narendra Modi, da Índia; tentou “consertar” a relação com Xi Jinping, apesar da relutância dos chineses; e desde 2012, viajou para mais de cinquenta países – inclusive ao Brasil. Nisto difere radicalmente de seus predecessores, “recatados” em termos de política externa.

A vitória poderá prolongar sua permanência no cargo até 2021, tornando-o no mais longevo na História do Japão. Isto lhe daria tempo para perseguir seu objetivo de revisar a Constituição, tarefa árdua, porque, ainda traumatizada pelas bombas de Hiroshima e Nagasaki, a população japonesa – à exceção da extrema-direita militante – é muito reticente em reabrir uma questão tão dolorosa.

Mas, será que ela pode “fechar os olhos” diante do que passa ao seu redor? Será que poderá depender dos Estados Unidos e dos humores erráticos de D.T. enquanto Kim Jong-Un lança mísseis, da vizinha Coreia do Norte, que atravessam o seu território? Será que poderá fazer “vista grossa” ao armamentismo chinês? E as disputas pelas ilhas Senkaku/Diaoyu?

Estadista “moderno”, Abe-san, decidiu tornar-se “global”. Para mim, já não era sem tempo…

Para a reflexão dos amigos. Sugiro que leiam a matéria do “Asahi Shimbun”:

 


Abe set to take foreign, security policies further after poll victory

THE ASAHI SHIMBUN – October 23, 2017 at 18:20 JST

Prime Minister Shinzo Abe is poised to press ahead in his hard-line approaches to foreign and security policies with renewed confidence in light of the Liberal Democratic Party’s resounding victory in the Lower House election on Oct. 22.

Discussing the North Korean situation during Radio Nippon Co.’s news program that night, Abe said, “I will firmly apply more pressure and create a situation in which North Korea could say, ‘We will change our policy, so why don’t we discuss it?’”

“For that purpose, we need strong diplomatic power,” Abe added.

Two important summits are scheduled for November, starting with U.S. President Donald Trump’s first visit to Japan, on Nov. 5-7.

Abe repeatedly trumpeted his close relationship with Trump in the Lower House election campaign, and he plans to use the upcoming meeting as an opportunity to strengthen Japan-U.S. ties, appealing to Japan and the world.

In mid-November, a meeting between Abe and Russian President Vladimir Putin is scheduled to take place at the Asia Pacific Economic Cooperation (APEC) summit in Vietnam.

Abe is likely to place more emphasis on cooperation with Russia and China, who have influence over North Korea, in a bid to deal with the isolated nation’s nuclear weapons and missile crisis.

Another subject to broach with Russia is whether to present a detailed road map for resolving the long-standing Northern Territories dispute, which dates to the end of World War II.

Moves toward improving the relationship with China are also being mulled. Abe wants to realize his ambition to visit China in 2018, and for Chinese President Xi Jinping to visit Japan.

Key priorities regarding China are whether to proceed with Foreign Minister Taro Kono’s planned visit to the nation, and to host a summit meeting with China and South Korea in Tokyo in December.

While applying stronger pressure to North Korea via diplomatic channels, the Japanese government also plans to further enhance its ballistic missile defense system.

The outline of a new defense plan is set to be formulated by the end of 2018, along with the midterm defense buildup program. The center of attention will be to what extent the missile defense system will be bolstered, including a land-based Aegis Ashore missile interceptor system.

The Japanese government will also possibly accelerate plans to consider acquiring the capability to attack enemy bases, based on the outcome of a ruling party panel.

Originalmente publicado em: http://www.asahi.com/ajw/articles/AJ201710230058.html

Fausto Godoy
Doutor em Direito Internacional Público em Paris. Ingressou na carreira diplomática em 1976, serviu nas embaixadas de Bruxelas, Buenos Aires, Nova Déli, Washington, Pequim, Tóquio, Islamabade (onde foi Embaixador do Brasil, em 2004). Também cumpriu missões transitórias no Vietnã e Taiwan. Viveu 15 anos na Ásia, para onde orientou sua carreira por considerar que o continente seria o mais importante do século 21 – previsão que, agora, vê cada vez mais perto da realidade.