Quem é Xi Jinping?

O semanário inglês “The Economist” publicou em sua última edição uma extensa matéria dedicada ao Presidente da China, Xi Jinping. E chamou-o de “o homem mais poderoso do mundo”. A matéria foi reproduzida no Estadão do dia 15/10.

O articulista faz uma comparação entre Xi e Donald Trump, que seriam os líderes da primeira e segunda maior economia do planeta. Segundo o Economist, “…o líder do mundo democrático tem uma visão tacanha das relações internacionais e, no plano interno, parece incapaz de implementar seu programa de governo….por sua vez, o presidente da maior potência autoritária do planeta age com desenvoltura no exterior…”

Afirma, também, que Xi “leva a China com rédea mais curta do que qualquer outro líder desde Mao”, e que “internamente, os instintos de Xi são tão antidemocráticos quanto os de Putin. O líder chinês acredita que a mais rarefeita dose de liberdade política poderia significar seu fim, e o do próprio regime comunista”.

Será? E quem é  Xi Jinping?

Vamos por partes…De quem ele é filho? Simplesmente de Xi Zhongxun, companheiro de Mao desde a Grande Marcha e membro influente do Partido Comunista Chinês, que, por suas posições políticas moderadas, foi alvo ao longo de sua vida de represálias de seus pares. Foi inclusive encarcerado durante a Revolução Cultural, em 1968. Reabilitado por Deng Xiaoping, Xi-pai foi o verdadeiro inspirador, em 1979, da política de abertura da economia da China para o mundo. Ele convenceu Deng a convidar as empresas estrangeiras a se instalarem e investirem na província de Guandong, nas regiões vizinhas a Hong Kong e Macau – então colônias da Grã-Bretanha e de Portugal, respectivamente – que eram as portas mais próximas para o exterior de um país que se mantivera fechado por mais de trinta anos. Ou seja, velho Xi foi o “pai” das Zonas Econômicas Especiais, que desempenharam papel tão fundamental no processo de internacionalização da China: um internacionalista “avant la lettre”, em suma.

Envolvido na politicagem de “caças às bruxas” que contaminou e convulsionou o país nas décadas de 50 e 60, Xi-filho, hoje Presidente da RPC, então com quinze anos, foi enviado para a área rural na província de Shaanxi. Não suportando essa vida, ele fugiu para Pequim e, capturado, foi obrigado a juntar-se aos dissidentes que trabalhavam na abertura de estradas pelo país. Ou seja, um espírito rebelde e “libertário”.

A sua carreira tomou impulso ao final da Revolução Cultural, em 1971. Desempenhou-se com eficiência em cargos político-burocráticos em várias províncias até ser designado Governador de Fujian, uma das mais importantes do país, em 2000. A partir daí sua carreira foi meteórica, ainda que cheia de percalços diante de sua postura rígida contrária à corrupção que grassa pelas várias instâncias do PCC (postura esta que seus críticos acusam de parcial e “targeted” para afastar os que possam se opor às suas ambições de poder…).

Casado com uma cantora famosa de música pop, Pen Liyuan, Xi tem uma visão modernizante e globalizante do país que, para ele, deve ser a China. São de sua inspiração pelo menos três projetos que, financiados pelas enormes reservas cambiais de que a RPC dispõe, poderão levá-la a um protagonismo na cena internacional inimaginável por qualquer de seus antecessores:  1) o “um Cinturão, uma Rota”/”One Belt, One Road”, ou a “Nova Rota da Seda”, que visa interligar o país a toda a Eurásia, restabelecendo – e ampliando – o traçado da maior corrente de comércio  – e civilização – da História; 2) o “Made in  China 2025”, que definiu  dez setores de alta tecnologia que nortearão a política econômica do país na próxima década; e, 3) mais ambiciosamente, a consecução do enunciado pelo cientista político e professor da “National Defense University” chinesa, Liu Yazhou, que, num livro editado em 2015, intitulado “O Sonho da China” (“The China Dream”) prognosticou que a China tornar-se-á a nação/economia líder do planeta. Xi refere-se ao “China Dream” em quase todos os seus discursos: tornou-se, para ele, quase um “mantra”.

Autocrata? Antidemocrático e temeroso de que “a mais rarefeita dose de liberdade política poderia significar seu fim”, como afirma o “The Economist”?

Vamos, uma vez mais, por partes. Minha experiência na China me leva a relativizar conceitos que, embora se apliquem neste lado do mundo, não se enquadram na psique social chinesa. Sabemos que um dos pilares dessa civilização é o conceito do “Mandato do Céu”, que foi desenvolvido durante a dinastia Zhou (1046 – 256 a.C.). Ele determina que um governante deve possuir as virtudes necessárias para reinar. Caso isto ocorra, a sociedade lhe delega o poder. Esta outorga, entretanto, não é absoluta, senão está condicionada ao seu bom desempenho. Se não cumprir, com virtude, suas funções, o líder perde o Mandato do Céu, e com isto, o direito de reinar/governar. E será deposto. Este preceito tem vigorado ao longo da História plurimilenar da China e – até hoje – justifica e dá “legimitidade”, em última instância, ao Partido Comunista Chinês, e ao seu líder maior, Xi Jinping.

Por que?

Porque a população nunca viveu tão bem quanto hoje em dia. Quando eu morei na China – 1994/96 – nenhum chinês possuía casa própria, convivia com uma pobreza generalizada e não podia sequer residir fora da sua região. Ou seja, não tinha “objetivos, concretos, de vida” (a não ser que fizesse parte da elite política). Evidentemente, não creio que estes valores sejam os ideais para todos e cada um de nós, mas para uma população que então vivia de forma tão espartana, hoje poder ter mais um filho, casa própria e carro, seu próprio negócio e andar pelo mundo afora (ainda que isto ainda seja reservado aos poucos que lotam os grandes destinos turísticos internacionais), e até mesmo poder mandar seus filhos estudar no exterior, este padrão de vida tornou-se o “novo normal”, como afirma Xi. E certamente, aos olhos da população, ele, e o PCC, merecem reconhecimento, e confiança. Ou seja, detêm o “Mandato do Céu”. Deslumbramento “pequeno-burguês”? Ambição mesquinha? Certamente, dirão os bem-pensantes deste lado do planeta. Mas, e para eles que descobrem e se encantam com uma outra forma de vida?

Será que, com sua cabeça pragmática, os chineses não achariam que sua condição de vida atualmente é muito superior à do período conturbado das ideologias do Grande Salto Adiante e da Revolução Cultural, que custaram tantas vidas e tantas frustrações? E se esta sensação de “neo-abundância” (???) retardar qualquer julgamento crítico a respeito das vicissitudes do capitalismo, postergando para outro momento o questionamento do tal Mandato que justifica as ações e a permanência de Xi Jinping – e do PCC – no poder? So what?

Porém, até quando será que esta população, exposta cada vez mais a outras culturas e a parâmetros e valores distintos dos seus, sobretudo no que toca às liberdades individuais, concordará em calar-se diante das restrições de seus direitos em troca de um bem-estar condicionado? Até quando os chineses se resignarão à submissão inquestionada do indivíduo à sociedade, e a perseguir, neste início de século XXI, valores – confucionistas – milenares que, por conflitarem com as atuais ambições de afluência, correm o risco de se tornarem cada vez mais anacrônicos?

Globais, ou Chineses? Profundo dilema com que se defronta Xi Jinping e seus compatriotas.

Esta matéria do “The Economist” nos convida a uma reflexão profunda sobre o papel da China nestes tempos de “pós-globalização”.


O homem mais poderoso do mundo

Xi Jinping é um líder mais influente do que Donald Trump, e isso deveria deixar o mundo preocupado

The Economist, O Estado de S.Paulo, 15 Outubro 2017 | 04h00

Os presidentes americanos têm o hábito de falar com certo assombro de seus colegas chineses. Um Richard Nixon bajulador disse a Mao Tsé-tung que seus escritos haviam “transformado o mundo”. Para Jimmy Carter, Deng Xiaoping era uma sucessão de adjetivos lisonjeiros: “perspicaz, firme, inteligente, franco, corajoso, bem-apessoado, autoconfiante, afável”. Bill Clinton descreveu o então presidente da China, Jiang Zemin, como um “visionário”, “um homem de inteligência extraordinária”. Donald Trump não parece menos impressionado. Segundo o Washington Post, ele teria dito que o atual líder da potência asiática, Xi Jinping, é “provavelmente o mais poderoso” que a China já teve em cem anos.

Talvez Trump tenha razão. E, se para um presidente americano a afirmação não significasse um suicídio político, poderia ter acrescentado: “Xi Jiping é o líder mais poderoso do mundo”. É bem verdade que a economia da China ainda perde em tamanho para a americana; e, apesar de estar rapidamente se fortalecendo, seu Exército não é páreo para o dos EUA.

Mas pujança econômica e poderio militar não são tudo. O líder do mundo democrático tem uma visão tacanha das relações exteriores e, no plano interno, parece incapaz de implementar seu programa de governo. Os EUA ainda são a maior potência do mundo, mas seu líder é mais fraco internamente e menos efetivo no exterior do que seus antecessores recentes, sobretudo porque despreza os valores e alianças que alicerçam a influência americana.

Por sua vez, o presidente da maior potência autoritária do planeta age com desenvoltura no exterior. E leva a China com rédea mais curta do que qualquer outro líder desde Mao. Sem contar que, enquanto a China de Mao era um país caótico e miserável, a de Xi é o principal motor do crescimento mundial. Dentro de alguns dias, ele terá uma oportunidade única para se exibir em toda a sua imponência.

Na quarta-feira, o Partido Comunista chinês realizará em Pequim seu congresso quinquenal. Será o primeiro a ser presidido por Xi. Os 2,3 mil delegados certamente entoarão loas ao grande líder. Observadores mais céticos talvez estejam mais preocupados em saber se ele usará seu poder extraordinário para o bem ou para o mal.

Em seus numerosos giros pelo exterior, Xi procura se apresentar como um apóstolo da paz e da amizade, a voz da razão num mundo tumultuoso e problemático. Os defeitos de Trump tornam a tarefa bem mais fácil. No início do ano, em Davos, Xi prometeu à elite global que seria um defensor da globalização, do livre comércio e do acordo de Paris. Na plateia, muitos ficaram aliviados com o que ouviram. O discurso do líder chinês indicava, pensaram eles, que haveria ao menos uma grande potência disposta a lutar pelas coisas certas, mesmo que Trump (que tomaria posse três dias depois) não desse bola para a coisa.

Se as palavras de Xi têm peso, isso se deve, em parte, ao fato de que elas são respaldadas pelas maiores reservas em moeda estrangeira do mundo. Sua iniciativa “um Cinturão, uma Rota” talvez tenha um nome esquisito, mas a mensagem é clara: a estratégia de desenvolvimento anunciada em 2013 prevê o investimento de centenas de bilhões de dólares em ferrovias, portos, usinas de energia elétrica e outras obras de infraestrutura que levarão prosperidade a vastas extensões territoriais do planeta. É o tipo de liderança que os EUA não exercem desde os idos do pós-guerra, quando implementaram o Plano Marshall na Europa Ocidental (que era consideravelmente menor).

Xi também pretende dotar a China de um poderio militar no exterior que o país nunca teve. Em agosto, inaugurou, no Djibuti, a primeira base militar chinesa em território estrangeiro. A China diz que jamais invadiria outros países para impor seus desígnios (exceção feita a Taiwan, que os chineses não consideram ser um país). A construção de bases militares teria por objetivo oferecer apoio a missões de paz, ações antipirataria e esforços humanitários. Quanto às ilhas artificiais com pistas de pouso que o país está construindo no Mar do Sul da China, sua finalidade seria puramente defensiva.

Ao contrário do presidente da Rússia, Vladimir Putin, Xi não é um encrenqueiro global que pretenda subverter a democracia e desestabilizar o Ocidente. Apesar disso, é tolerante demais com seus aliados encrenqueiros, os norte-coreanos. E certos comportamentos da China na área militar preocupam não só seus vizinhos no Sudeste Asiático, como também a Índia e o Japão.

Internamente, os instintos de Xi são no mínimo tão antidemocráticos quanto os de Putin. O líder chinês acredita que até a mais rarefeita dose de liberdade política poderia significar seu fim, e o do próprio regime comunista. O destino da União Soviética o apavora, e essa insegurança tem consequências. Xi desconfia não apenas dos inimigos que seus expurgos criaram, mas também da classe média chinesa, que, empunhando smartphones, cresce a olhos vistos, e dos rebentos de sociedade civil que germinavam quando ele assumiu o poder. Daí que pareça tão determinado a aumentar o controle sobre a sociedade chinesa, em especial por meio da ampliação dos poderes de vigilância do Estado, e a manter a economia sob o comando firme do partido. Essas coisas farão com que a China seja menos próspera do que poderia ser. Também reforçarão o ambiente repressivo que vigora no país.

Antes, as pessoas de inclinações liberais lamentavam as reformas que deixaram de ser realizadas nos “dez anos perdidos” sob o governo do antecessor de Xi, Hu Jintao. Agora, esses dez anos se tornaram 15 e correm o risco de passar de 20. Alguns otimistas dizem que Xi ainda não mostrou sua verdadeira cara.

O congresso da próxima semana, sustentam, servirá para que ele consolide seu poder e, a partir daí, comece a implementar reformas sociais e econômicas abrangentes. Mas, se realmente é um adepto enrustido do pluralismo, Xi disfarça bem. E, para a preocupação dos que acreditam que todos os líderes têm uma data de validade, há rumores de que o líder chinês não pretende deixar o poder em 2022, como seria de esperar que fizesse, conforme o precedente estabelecido por seus antecessores.

Xi talvez pense que concentrar ainda mais poder nas mãos de um homem que governa uma população de 1,4 bilhão de pessoas é, para usar uma de suas expressões favoritas, o “novo normal” da política chinesa. Mas não é normal; é perigoso. Ninguém deveria ter tanto poder. O governo de um homem só acabará provocando instabilidade na China, como já aconteceu no passado – basta lembrar de Mao e sua Revolução Cultural. Também produzirá comportamento arbitrário no exterior, coisa especialmente preocupante num momento em que os EUA de Trump se retiram do cenário internacional, criando um vácuo de poder. O mundo não deseja um Estados Unidos isolacionista nem uma ditadura na China. Infelizmente, corre o risco de ter ambas as coisas.

© 2017 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

http://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,o-homem-mais-poderoso-do-mundo,70002044545


 

Fausto Godoy
Doutor em Direito Internacional Público em Paris. Ingressou na carreira diplomática em 1976, serviu nas embaixadas de Bruxelas, Buenos Aires, Nova Déli, Washington, Pequim, Tóquio, Islamabade (onde foi Embaixador do Brasil, em 2004). Também cumpriu missões transitórias no Vietnã e Taiwan. Viveu 15 anos na Ásia, para onde orientou sua carreira por considerar que o continente seria o mais importante do século 21 – previsão que, agora, vê cada vez mais perto da realidade.