ISSN 2674-8053

Antes tarde…

A not√≠cia segundo a qual o Itamaraty parece estar finalmente olhando para a √Āsia com maior interesse merece todo o apoio.

Ainda que tardia, esta aproxima√ß√£o n√£o √© somente necess√°ria, mas imprescind√≠vel.J√° perdemos muito tempo assistindo passivamente – enclausurados e alienados – a transfer√™ncia do eixo geoecon√īmico (e geopol√≠tico ?) para a regi√£o do Pac√≠fico. Com a acelera√ß√£o deste processo e o paulatino distanciamento dos “grandes her√≥is do s√©culo XX” – leia-se EUA e Europa Central – da lideran√ßa mundial, temos de criar √≠mpeto – e coragem (?) – para enfrentarmos um universo que desconhecemos quase que inteiramente. Mas n√£o podemos nos dar ao luxo de postergarmos mais este processo.

Entretanto, a √Āsia n√£o √©, decididamente, para ne√≥fitos. Nos meus quase dezesseis anos de viv√™ncia por onze pa√≠ses daquele Continente, a primeira li√ß√£o que pude aprender – se √© que apreendi realmente…- √© a necessidade de borrarmos a fronteira que separa os nossos conceitos e as nossas “verdades ocidentais” de uma realidade plurimilenar e de grande complexidade (a exemplo, ali√°s, de se definir o que √© “Am√©rica Latina”…).

O desafio √© civilizacional, mais que tudo! Parece tautol√≥gico, mas n√£o √©. A superficialidade com que jogamos no mesmo balaio, por exemplo, afeg√£os paquistaneses, bengaleses e cazaques, todos mu√ßulmanos, na imensa maioria – acreditando que o Isl√£ √© o mesmo para todos. √© confundir a burka afeg√£ com a minissaia cazaque. Sim, ambas existem – testemunhei – e vestem mulheres das duas culturas. Ou achar que o zen-budismo “Mahayana” sincr√©tico japon√™s se assemelha ao budismo “theravada” birman√™s: outro engano. Buda √© o mesmo, mas os caminhos para o “Nirvana” s√£o distintos, ainda que levem ao mesmo destino…

Mas, será que isto é importante???

Para mim, √© fundamental, at√© na escolha dos parceiros asi√°ticos mais promissores para n√≥s. Leio, por exemplo, na mat√©ria do Estad√£o que o roteiro escolhido para a visita (adiada por este momento) que o Chanceler Aloysio Nunes tenciona(va) cumprir inclu√≠(a) a China, a Coreia do Sul, a Indon√©sia, o Jap√£o, Cingapura, a Tail√Ęndia e o Vietn√£. Ou seja, um roteiro √≥bvio, a meu ver, ainda que importante…√© preciso come√ßar por algum ponto.

Mas notei que alguns pa√≠ses que maiores oportunidades poderiam apresentar para n√≥s est√£o ausentes.Refiro-me, por exemplo, a tr√™s deles – Bangladesh, Filipinas e Cazaquist√£o – que est√£o assumindo um papel cada vez mais relevante na geoeconomia regional, e mundial: o “Goldman Sachs” incluiu os dois primeiros entre os “Next Eleven” – sucessores dos BRICS ; al√©m disto, as Filipinas foram o pais que mais cresceu no planeta no ano passado!. O Cazaquist√£o, de sua parte, det√©m algumas das maiores reservas de min√©rios e de petr√≥leo em todo o planeta, e √© um dos principais eixos no roteiro da “Nova Rota da Seda” que os chineses querem criar ligando toda a Eur√°sia.

Vale muito o esfor√ßo do M.R.E. E j√° n√£o √© sem tempo. Mas acho que est√° faltando uma reflex√£o mas aprofundada sobre o(s) roteiro(s), a fim de irmos al√©m do itiner√°rio “evidente” (talvez numa pr√≥xima etapa). Isto me leva a pensar: estamos devidamente preparados para este esfor√ßo? Estaria o nosso empresariado convencido desta necessidade? J√° temos suficiente conhecimento e massa cr√≠tica para negociar com civiliza√ß√Ķes t√£o distintas?

Isto √© uma outra hist√≥ria, e uma li√ß√£o que aprenderemos ao longo do processo, caso, “latinamente”, n√£o nos desencorajemos diante do desafio.

Vale a iniciativa para o próximo governo, como diz a matéria. Aliás.mas do que Isto: é FUNDAMENTAL!


Itamaraty quer ampliar rela√ß√Ķes com a √Āsia

Brasil vai iniciar negociação com a Coreia do Sul; exportação para 4 países soma US$ 8 bi

Lu Aiko Otta, O Estado de S.Paulo | 12 Maio 2018 | 04h00

De olho nos estudos que apontam a √Āsia como o ‚Äúcentro de gravidade da economia global‚ÄĚ daqui a tr√™s d√©cadas, o Itamaraty j√° come√ßou um trabalho mais estruturado para fortalecer as rela√ß√Ķes com os pa√≠ses da regi√£o, para al√©m de parceiros tradicionais como Jap√£o e China. O chanceler Aloysio Nunes faz um giro pelo continente desde o in√≠cio desta semana. O roteiro inclui China, Coreia do Sul, Indon√©sia, Jap√£o, Cingapura, Tail√Ęndia e Vietn√£.

O ponto alto ser√° o lan√ßamento oficial das negocia√ß√Ķes do acordo Mercosul‚ÄďCoreia do Sul, no dia 23. A iniciativa, que causa preocupa√ß√£o em segmentos da ind√ļstria nacional por causa da perspectiva de maior concorr√™ncia com produtos de tecnologia produzidos naquele pa√≠s, faz parte do esfor√ßo do bloco sul-americano em buscar novas parcerias comerciais.

O ministro da Ind√ļstria, Com√©rcio Exterior e Servi√ßos, Marcos Jorge, viajar√° para a Coreia no final da semana que vem para o lan√ßamento das negocia√ß√Ķes. ‚ÄúVamos dialogar e negociar com a devida cautela‚ÄĚ, disse ele ao Estad√£o/Broadcast.

Mas h√° interesse tamb√©m nos demais pa√≠ses da regi√£o. S√≥ para Cingapura, Indon√©sia, Tail√Ęndia e Vietn√£, pa√≠ses que o presidente Michel Temer estaria visitando caso n√£o tivesse desistido por causa de problemas na pol√≠tica interna, o Brasil exportou US$ 8 bilh√Ķes no ano passado. Somados, eles seriam o quinto principal parceiro comercial do Brasil, atr√°s de China, Estados Unidos, Argentina e Holanda, que √© o ponto de entrada de produtos para a Uni√£o Europeia.

Na semana passada, Aloysio autorizou a implanta√ß√£o do Sistema de Planejamento Estrat√©gico das Rela√ß√Ķes Exteriores (Sisprex). Os diplomatas v√£o elaborar, at√© o fim de 2018, um planejamento-piloto usando esse sistema. O trabalho, que tem a √Āsia como um dos focos, poder√° ser aproveitado pelo pr√≥ximo governo.

Al√©m de sistematizar o trabalho da pasta, o estabelecimento de metas e resultados responde a questionamentos do Tribunal de Contas da Uni√£o (TCU), que tem cobrado retornos √† sociedade do dinheiro p√ļblico gasto no Itamaraty. Por ser um trabalho feito nos bastidores, cujos resultados aparecem de forma dilu√≠da e no m√©dio e longo prazos, o trabalho dos diplomatas √© mais dif√≠cil de medir do que, por exemplo, a constru√ß√£o de estradas.

‚ÄúMuitas vezes, nosso trabalho √© evitar problemas‚ÄĚ, disse ao Estado o secret√°rio de Planejamento Diplom√°tico, Benoni Belli. Como transformar isso em um indicador de sucesso √© um desafio para chancelarias do mundo inteiro.

O projeto-piloto n√£o est√° pronto, mas vai prever um foco especial na √Āsia, informou Belli. Ele cita alguns dados coletados pelo Itamaraty que justificam essa dire√ß√£o.

Demanda. Um relat√≥rio publicado em 2012 pela Intelig√™ncia dos EUA diz que at√© 2030 o continente ter√° mais poder do que EUA e Europa juntos, levando-se em conta a popula√ß√£o, o Produto Interno Bruto (PIB), gastos militares e investimentos em tecnologia. A classe m√©dia da regi√£o saltar√° de 525 milh√Ķes de pessoas em 2009 para 3,3 bilh√Ķes em 2030 e ser√° respons√°vel por 80% do aumento da demanda no per√≠odo.

A regi√£o cresce a taxas de 5% ao ano h√° uma d√©cada. A √Āsia integra um ambicioso projeto de integra√ß√£o f√≠sica e econ√īmica com o Oriente M√©dio e a Europa, que envolve 65 pa√≠ses e prev√™ investimentos de US$ 4 trilh√Ķes a US$ 8 trilh√Ķes.

Originalmente publicado em http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,itamaraty-quer-ampliar-relacoes-com-a-asia,70002305401

 

Fausto Godoy
Doutor em Direito Internacional P√ļblico em Paris. Ingressou na carreira diplom√°tica em 1976, serviu nas embaixadas de Bruxelas, Buenos Aires, Nova D√©li, Washington, Pequim, T√≥quio, Islamabade (onde foi Embaixador do Brasil, em 2004). Tamb√©m cumpriu miss√Ķes transit√≥rias no Vietn√£ e Taiwan. Viveu 15 anos na √Āsia, para onde orientou sua carreira por considerar que o continente seria o mais importante do s√©culo 21 ‚Äď previs√£o que, agora, v√™ cada vez mais perto da realidade.