A história se repete

Este assunto passou quase despercebido por aqui, mas tem consequências importantes: o Governo chinês proibiu a venda da Bíblia Sagrada nas grandes lojas da China e até nas livrarias online. A medida foi anunciada no fim de semana passado e entrou em vigor na última quinta-feira. Das grandes religiões, o cristianismo foi a única atingida pela medida; as outras não sofreram a mesma restrição. Segundo transpirou na imprensa internacional, a medida parte de um esforço do Presidente Xi Jinping de promover o budismo e o taoísmo, religiões tradicionais da China.

Isto tem implicações profundas…e antigas, Várias são elas:

A primeira tem a ver com a reemergência do viés nacionalista travestido da fé. Lembremos que, no período do maoísmo “hard”, a questão religiosa não era objeto sequer de cogitação, ao menos de público. O maoísmo era por si mesmo uma religião, ainda que laica; haja vista à destruição pelos jovens Guardas Vermelhos de monumentos budistas de valor civilizacional inestimável na turbulência fanática que dominou a “Revolução Cultural”.

Entretanto, o buraco é mais embaixo. A tentativa de Pequim de promover o “renascimento” das religiões tradicionais trás embutidas memórias pungentes da difícil convivência dos chineses – sobretudo durante o último período imperial – com os “demônios brancos” que chegaram às suas terras para difundir uma religião alienígena, e com ela, valores civilizacionais que lhes eram alheios. Senão, lembremo-nos: embora o cristianismo existisse na China desde o século VI, quando dois monges nestorianos chegaram à região (e contrabandearam casulos do bicho-da-seda para Bizâncio), foi com a chegada dos jesuítas, no século século XVI, que as tentativas de conversão da população tomaram impulso. Ainda que a contribuição dos religiosos tenha sido expressiva para a introdução de algumas ciências e técnicas do Ocidente, o fervor pela conversão despertou sempre reações violentas da elite e da população..

A bem da verdade, a história da China é permeada de episódios traumáticos deslanchados por conflitos interconfissionais. Ainda que alguns mandatários, como o Imperador Kangxi, no século XVII, tenham estabelecido um trato amável com os missionários cristãos, foi sempre acirrada a reação da população contra a ameaça de intromissão de referenciais idólatras em sua cultura .A História registra, por exemplo, pelo menos dois: a “Rebelião dos Taiping” (“taiping” signfica “a grande paz”) que ameaçou até a sobrevivência da dinastia Qing, em meados do século XIX (seu líder, Hong Xiuquan, se declarava filho filho de Deus, irmão de Jesus, e queria estabelecer o Reino dos Céus na terra).

Algo muito similar ocorreu novamente nos estertores da dinastia, entre os anos de 1899 e 1900, quando um grupo nacionalista se insurgiu contra a presença dos estrangeiros em seu território, tendo por foco os missionários cristãos que buscavam converter a população rural. Para proteger seus expatriados, tropas ocidentais sediadas na China intervieram e puseram fim à insurgência. E foi firmado um Acordo de Paz, que obrigou o governo de Pequim a pagar uma pesada indenização e liberar vários de seus portos às embarcações estrangeiras. A História registrou este momento traumático como a “Rebelião dos Boxers”. Foram estes e outros eventos ocorridos durante o século XIX que levaram os chineses a qualificá-lo de “o Século das Humilhações”.

Neste contexto, o cristianismo foi sempre visto pelos chineses como uma alavanca para as potências ocidentais se “infiltrarem” no país, e o exercício da religião (mesmo que oficialmente a China conte com vinte milhões de protestantes e seis milhões de católicos) como uma forma de se imporem valores que não correspondem ao âmago da nação.

Portanto, não é de se estranhar, neste momento em que Xi Jinping luta para restabelecer a moralidade na elite política, que os valores ocidentais (D.T. teria algo a ver com isto?), sobretudo os que rememorem as humilhações do século XIX voltem a ser objeto de reação. Este é mais um sinal de que a “nova China” busca firmar um perfil muito definido no século XXI, que poderíamos chamar de o “Século do Resgate”…

E daí? Sugiro que os amigos leiam a matéria abaixo:


China proíbe venda de Bíblias em livrarias online

A China impediu que a Bíblia Sagrada fosse vendida nas livrarias online e nas grandes lojas de livros do país.

FONTE: GUIAME, COM INFORMAÇÕES DE THE TELEGRAPH

ATUALIZADO: QUARTA-FEIRA, 4 ABRIL DE 2018 AS 12:07

Depois de anunciar oficialmente seu apoio à liberdade religiosa, a China impediu que a Bíblia Sagrada fosse vendida nas livrarias online e nas grandes lojas de livros do país.

Na segunda-feira (2), a China divulgou seu primeiro livro branco sobre liberdade religiosa em mais de duas décadas. No documento oficial, o governo prometeu proteger a liberdade religiosa, mas também pediu que as religiões se adaptassem ao socialismo.

Na prática, a liberdade religiosa ocorre de maneira diferente. As principais plataformas de e-commerce chinesas como Alibaba’s Taobao, JD.com e Amazon não vendem mais Bíblias. O mesmo acontece nas maiores livrarias de Pequim, de acordo com funcionários.

A remoção da Bíblia nas livrarias acontece em meio a tensões entre China e Roma, por causa de um acordo que daria ao Vaticano mais controle sobre a nomeação de bispos chineses.

O acordo tem despertado preocupação entre alguns católicos chineses. Eles acreditam que reconhecer o papel do governo da China na Igreja Católica representaria uma traição de sua fé.

Restrição

Os cristãos na China estão afirmando nas mídias sociais que as pessoas estão sendo proibidas de comprar a Bíblia pela internet. O site da livraria Xinhua, uma das maiores do país, também mostra que não há Bíblias para venda.

Um funcionário da livraria em Wangfujing, uma rua de comércios em Pequim, disse ao The Telegraph que a Bíblia havia sido impedida de ser vendida por algum tempo, mas não sabia o motivo.

As autoridades chinesas confirmaram que foram emitidos avisos para alguns varejistas online.

De acordo com o jornal chinês Global Times, os reguladores do governo conversaram com a JD.com “sobre a venda de produtos ilegais, publicações e outros materiais impressos online”.

A empresa “não conseguiu regulamentar os produtos e causou um impacto social negativo”, disseram os reguladores.

Fonte: https://guiame.com.br/gospel/missoes-acao-social/china-proibe-venda-de-biblias-em-livrarias-online.html

Fausto Godoy
Doutor em Direito Internacional Público em Paris. Ingressou na carreira diplomática em 1976, serviu nas embaixadas de Bruxelas, Buenos Aires, Nova Déli, Washington, Pequim, Tóquio, Islamabade (onde foi Embaixador do Brasil, em 2004). Também cumpriu missões transitórias no Vietnã e Taiwan. Viveu 15 anos na Ásia, para onde orientou sua carreira por considerar que o continente seria o mais importante do século 21 – previsão que, agora, vê cada vez mais perto da realidade.