As Coreias se aproximam

A julgar pelos últimos acontecimentos no tortuoso processo de reaproximação das duas Coreias, parece que elas estão chegando, finalmente, ao que importa…E sem as “bênçãos” de D.T…

Passados os dias do encontro entre Kim Jong-un e Donald Trump num luxuoso resort na costa sul de Cingapura, em junho passado, do qual subsistem, pelo menos até agora, apenas um documento generalista (na ocasião, Kim se comprometeu a obter, em termos vagos, “a desnuclearização da península”) e as suspeitas de que, no fundo, tudo se tratou mais de uma “photo op” para justificar a incapacidade (?) do presidente americano de cumprir suas ameaças contra o norte-coreano, parece que, do lado das Coreias, a História está andando… .

Pois é…Kim Jong-un hospedará, a partir de hoje, por três dias, seu vizinho, Moon Jae-in, em Pyongyang, para uma reunião de cúpula com vistas a (enfim ???), tentar encerrar um capítulo doloroso e inconcluso da Guerra Fria e da “herança” que compartilham desde o dia 27 de julho de 1953, quando a impossibilidade dos países + ONU envolvldos no conflito acabarem com uma guerra fratricida, desembocou num armistício, apenas.

A julgar pelas imagens que registraram a chegada do sul-coreano, acompanhado da esposa (o que acrescenta uma mensagem simbólica), o clima não poderia ser melhor. Kim recebeu pessoalmente o seu convidado no Aeroporto Internacional de Pyongyang, onde os dois dirigentes se abraçaram efusivamente. Mais ainda, este é o terceiro encontro entre ambos desde abril deste ano, quando se apertaram as mãos na zona desmilitarizada da fronteira entre os dois países..

A meu ver, ao presidente sul-coreano Moon Jae-in, fiel seguidor da política de acercamento entre as duas irmãs – a “Sunshine Policy” – de Kim Dae-jung, o presidente sul-coreano que, por seus esforços recebeu o “Prêmio Nobel da Paz”, em 2000, cabe o principal reconhecimento por tudo o que está acontecendo. Desde que tomou posse, em maio do ano passado, Moon tem-se empenhado em retomar o diálogo. Forçoso é reconhecer que no afã de D.T. de “roubar a cena” no processo de desnuclearização da península – “American style”-, Moon viu-se relegado ao papel de coadjuvante num processo no qual é, junto com Kim, o principal interessado, e beneficiário…

A Historia se incumbirá de “colocar os pingos nos is”, assim espero. Mais ainda, a História também reconhecerá o papel fundamental que a China de Xi Jinping desempenhou em todo o processo.Diferentemente da estridência dos americanos, os chineses mantiveram, com grande destreza – e sabedoria- o “low profile” requerido para o bom encaminhamento das negociações. Afinal, não podemos esquecer de que foi a Pequim que o mandatário norte-coreano se deslocou antes de iniciar os primeiros movimentos de aproximação.

De de tudo o que aconteceu fica a lição: “os cães ladram e a caravana passa”, ou seja, o principal de toda esta h(H)istória é que as duas irmãs estão finalmente buscando o entendimento. E assim, “la Nave Va”…

Pergunta que não quer se calar: e se Kim Jong-un (ironia) e Moon Jae-in forem galardoados com o “Prêmio Nobel da Paz”???????

Aconselho aos amigos que leiam a matéria abaixo.


Presidente sul-coreano chega à Coreia do Norte para 3ª cúpula com Kim Jong-un

Líder norte-coreano recebeu Moon Jae-in no Aeroporto Internacional de Pyongyang. O presidente sul-coreano Moon Jae-in acena ao caminhar ao lado do líder norte-coreano Kim Jong-um no aeroporto de Pyongyang AFP O presidente sul-coreano, Moon Jae-in, chegou a Pyongyang nesta terça-feira (18) para sua terceira cúpula com Kim Jong-un, enquanto tenta reiniciar as negociações de desnuclearização entre a Coreia do Norte e os Estados Unidos. Centenas de pessoas se alinharam no asfalto do aeroporto internacional de Pyongyang – onde Kim supervisionou o lançamento de mísseis no ano passado enquanto as tensões aumentavam – exibindo bandeiras norte-coreanas e da península não dividida. Kim recebeu pessoalmente o seu convidado no Aeroporto Internacional de Pyongyang, onde os dois dirigentes se abraçaram após Moon descer as escadas do avião. Os dois líderes, acompanhados de suas esposas, riram durante alguns minutos. Moon, cujos pais fugiram do Norte durante a Guerra da Coreia, passará três dias na Coreia do Norte, seguindo assim os passos de seus antecessores Kim Dae-jung, que viajou a Pyongyang no ano 2000, e Roh Moo-hyun, seu mentor e que visitou o vizinho em 2007. Esta visita pouco frequente é um novo sinal do atual degelo na península, que já permitiu uma primeira cúpula intercoreana, no final de abril, na localidade de Panmunjom, situada na Zona Desmilitarizada que separa as duas Coreias. O presidente sul-coreano, que voltou a se reunir com Kim em maio, teve um papel-chave para permitir a cúpula histórica entre o líder norte-coreano e o presidente americano, Donald Trump, em 12 de junho em Singapura. Na ocasião, Kim se comprometeu a obter “a desnuclearização da península”, uma meta confusa que permite todo tipo de interpretação. De fato, Washington e Pyongyang ainda tratam de chegar a um acordo sobre o significado exato deste compromisso. Moon e Kim, que mostraram uma boa relação pessoal durante seus encontros anteriores, se reunirão ao menos duas vezes em Pyongyang. O presidente sul-coreano tentará convencer as autoridades do Norte a adotar medidas significativas para o desarmamento.

Originalmente disponível em https://www.noticias.srv.br/2018/09/18/presidente-sul-coreano-chega-a-coreia-do-norte-para-3a-cupula-com-kim-jong-un/

Fausto Godoy
Doutor em Direito Internacional Público em Paris. Ingressou na carreira diplomática em 1976, serviu nas embaixadas de Bruxelas, Buenos Aires, Nova Déli, Washington, Pequim, Tóquio, Islamabade (onde foi Embaixador do Brasil, em 2004). Também cumpriu missões transitórias no Vietnã e Taiwan. Viveu 15 anos na Ásia, para onde orientou sua carreira por considerar que o continente seria o mais importante do século 21 – previsão que, agora, vê cada vez mais perto da realidade.