A China e a África

Uma matéria paga, de página inteira, publicada no Estadão de hoje como “INFORME PUBLICITÁRIO”, sobre as relações entre a RPC e a África chama a atenção: primeiramente por ser paga, o que deixa insinuar que por trás tem a mão dos órgãos oficiais chineses, e depois por tratar de um tema que para a maioria dos brasileiros está longe da nossa realidade…

O que diz a matéria? Segundo o(s) autor(es), “apesar da distância geográfica, os chineses e africanos gozam de uma amizade que vem passando por provocações do tempo”(sic)… e que “em setembro, o tapete vermelho será esticado para dar boas-vindas aos líderes africanos que participarão da Cúpula de Beijing 2018 do Fórum de Cooperação-China-África (FOCAC na sigla em inglês)” (igualmente sic). Os termos do texto insinuam, para mim, que se trata de uma versão, talvez em várias línguas, publicada em diferentes países, a mando de Pequim. Ou seja, propaganda sobre o seu relacionamento com o continente africano no contexto do encontro do FOCAC.

A matéria também afirma que “independentemente das mudanças na ordem internacional, a China continuará mantendo a política de sinceridade, resultados reais, afinidade e boa fé, e defenderá a justiça e os interesses compartilhados para apoiar continuamente a África a atingir a prosperidade”, palavras de Xi Jinping. Mais adiante, “a China é o maior parceiro comercial da África desde 2009. Guangzhou é a maior prova disso. Muitos africanos chamam a cidade no sul da China de “casa”…”. E o texto continua enaltecendo as “maravilhas” do relacionamento entre o continente e a República Popular.

Por que uma matéria paga sobre este tema num jornal brasileiro?Aí tem…

Acho que podemos vislumbrar os motivos: a República Popular de Xi Jinping vem assumindo um protagonismo no cenário internacional impensável há vinte anos, quando servi na nossa Embaixada em Pequim. A “modéstia” de então foi substituída por uma assertividade “erga omnes”. Isto preocupa não somente aos seus vizinhos regionais, senão também ao Ocidente.

Diante deste “namoro”, o Ocidente já arregaça suas mangas: a matéria do “Financial Times” abaixo reage -“Xi Jinping’s pledge of $60bn in new loans to Africa has triggered a wave of grumbling in China, the latest sign of popular hostility to the president’s international ambitions and to the tightening of political controls at home”… e mais adiante: “…the president’s largesse prompted rare criticism among Chinese on social media over why their government was not spending the money on them, with one blogger suggesting that $60bn could fund China’s cash-strapped ministry of education for three years”…

Será??? Será que o “mocinho” já está se tornando “vilão”? Será que já existe este grau de conscientização da sociedade chinesa a respeito dos efeitos “nefastos” da desenvoltura internacional de Xi? Será que a massa, notoriamente satisfeita com uma afluência que nunca teve, já atingiu tal grau de politização?…..Ou será que o Ocidente não está se sentindo cada vez mais ameaçado pelo protagonismo do mandatário chinês na cena internacional e procura engendrar pós-verdades e “fake news”?…

No fundo, no fundo, qual é a sinopse desta opereta? Ela me parece clara: a África, com seus abundantes recursos naturais, imensos territórios cultiváveis, mão-de-obra barata e crescente mercado de consumo já é, desde algum tempo, um dos pilares da política externa chinesa. Eles estão por todos os cantos, lá. E, para os africanos, não existe com relação à RPC a mesma desconfiança e, principalmente, os mesmos rancores que perduram com relação aos antigos colonizadores: ou seja, não há (ainda…) uma relação “amor-ódio” que contamine o relacionamento. E existem, por ora, os $$$$$$$, mutuamente interessantes (pelo menos para as elites africanas).

É desta forma que a China ganha territórios internacionais a passos largos, incomoda (o que se sabe sobre a política americana com relação à África???…) e incorpora mais uma feitoria à “Nova Rota da Seda”.

Sugiro aos amigos que leiam a matéria do “Financial Times “:


China pledge of $60bn loans to Africa sparks anger at home

https://www.ft.com/content/fb7436d6-b006-11e8-8d14-6f049d06439c

Fausto Godoy
Doutor em Direito Internacional Público em Paris. Ingressou na carreira diplomática em 1976, serviu nas embaixadas de Bruxelas, Buenos Aires, Nova Déli, Washington, Pequim, Tóquio, Islamabade (onde foi Embaixador do Brasil, em 2004). Também cumpriu missões transitórias no Vietnã e Taiwan. Viveu 15 anos na Ásia, para onde orientou sua carreira por considerar que o continente seria o mais importante do século 21 – previsão que, agora, vê cada vez mais perto da realidade.