Bolsonaro e o fim da política externa brasileira

O Projeto Eleições Brasil 2018 vai apresentar uma reflexão sobre as propostas de política externa dos principais candidatos à presidência. As análises apresentadas se baseiam tanto nos programas de governo, quanto em declarações feitas pelos candidatos(as) na grande mídia.

Jair Bolsonaro tem despertado paixões tanto favoráveis quanto contrárias por suas posições tidas como fortes. Em termos de política externa, Bolsonaro não costuma se posicionar muito, mostrando que não tem neste tema a importância que dá a outros. Essa ausência relativa de tratamento da temática é delicada na medida em que as questões internacionais não são mais tão distantes quanto outrora, sendo definidoras de muitas questões desenvolvidas no Brasil.

Bolsonaro fez poucas viagens internacionais de natureza mais política, mas uma que chama a atenção foi a para Taiwan. Numa clara demonstração de confronto com a China, essa visita deverá levar a desgastes diplomáticos importantes numa possível presidência de Bolsonaro. Não podemos esquecer que a China é o mais importante parceiro comercial do Brasil, além de ser um dos membros dos BRICS, que deve fazer parte da estratégia de inserção internacional brasileira.

Em sua visita aos Estados Unidos, tinha como objetivo maior se mostrar como um candidato liberal, aproximando-se de posições hoje defendidas pelo presidente dos EUA, Donald Trump. No entanto, ao analisarmos suas falas no que se refere à política externa e relações internacionais, o que se vê é um candidato com uma agenda antiglobalizante muito forte, de forma que não se deve esperar uma adesão de um possível governo seu aos regimes internacionais.

A política externa brasileira é baseada, desde o Barão do Rio Branco, no princípio da multilateralidade e de uma inserção ativa do Brasil. Uma tentativa de isolamento do país, dadas suas características e atual grau de internacionalização, seguramente tirará o papel que o Brasil tem em muitos dos fóruns.

Outra mostra de sua falta de compromisso com o multilateralismo é a proposta que fez de revogar a Lei dos Refugiados e propor a criação de um campo de refugiados em Roraima. Esse tipo de proposta mostra um desconhecimento do direito internacional e sua importância. A questão dos refugiados não pode ser tratada como uma questão de polícia ou isolamento. Isso sem contar com a negação do passado do próprio Brasil: além de sermos um país de imigrantes, também tivemos muitos brasileiros emigrados e aceitos pelos países. Reconhecer nossa história e retribuir aos demais países deve ir além de crenças ufanistas.

Lembrando que essa análise foca-se exclusivamente na questão da política externa e dos posicionamentos do candidato Bolsonaro, suas propostas neste campo são poucas, superficiais e inadequadas para um país como o Brasil. Caso leve suas ideias à cabo, o que veremos é um apequenar da política externa brasileira, que servirá a discursos vazios.

Rodrigo Cintra
Pós-Doutor em Competitividade Territorial e Indústrias Criativas, pelo Dinâmia – Centro de Estudos da Mudança Socioeconómica, do Instituto Superior de Ciencias do Trabalho e da Empresa (ISCTE, Lisboa, Portugal). Doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (2007), Mestre em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (2001) e Bacharel em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1998). Atualmente é Coordenador do curso de graduação em Relações Internacionais e da Pós em Negócios Internacionais da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), além do gestor da Diretoria de Internacionalização.