ISSN 2674-8053

Os brasileiros e a Jihad

A mat√©ria “MPF acusa 11 brasileiros de promover Estado Isl√Ęmico” que o Jornal do Brasil replica do Estad√£o de hoje, de autoria de Tulio Kruse, levanta um tema sobre o qual n√≥s pouco nos debru√ßamos at√© agora.

A den√ļncia do Minist√©rio P√ļblico Federal contra onze brasileiros acusados de estarem recrutando jihadistas para se juntarem ao Estado Isl√Ęmico, com base num alerta da pol√≠cia espanhola, nos faz recordar a pris√£o, durante as Olimp√≠adas do Rio, em 2016, de dez suspeitos de estarem planejando atos terroristas durante o evento.Todos brasileiros, com sobrenomes tipicamente nossos, e sem qualquer descend√™ncia mu√ßulmana.

O espraiamento das a√ß√Ķes do Estado Isl√Ęmico tamb√©m pelo Brasil, realidade at√© agora aparentemente long√≠nqua, leva-nos a refletir sobre uma s√©rie de quest√Ķes relativas ao universo mu√ßulmano. Pouco se sabe no Brasil sobre o que √© o Estado Isl√Ęmico, afora os lugares comuns e as “p√≥s-verdades” fabricadas por parte da imprensa (repercutindo as ag√™ncias de not√≠cias internacionais). Tive a oportunidade de servir em v√°rios pa√≠ses mu√ßulmanos – Paquist√£o, Afeganist√£o, Bangladesh e Cazaquist√£o, al√©m da √ćndia, cuja popula√ß√£o maometana √© a terceira maior do planeta – e vivenciar as v√°rias “cores” do Isl√£. A f√© e o Livro Sagrado s√£o os mesmos, mas a forma pela qual se observam os seus preceitos tem um fundo eminentemente civilizacional e pol√≠tico, o que as pessoas no Ocidente teimam em n√£o entender.

A raiz est√° na morte do Profeta, em 632 d.C., quando se colocou a quest√£o da sua sucess√£o. Isto parece long√≠nquo, mas est√° na base de tudo o que est√° ocorrendo hoje: a cis√£o do Isl√£ entre sunitas e xiitas. Os primeiros entregaram a sucess√£o de Maom√© √† “Uma”, o grupo de seguidores mais pr√≥ximos dele: ou seja, a um “governo” (n√£o nos esque√ßamos de que ele foi o √ļnico l√≠der religioso que comandou ex√©rcito, diferentemente de Cristo, Buda, Mahavir, etc…). Portanto, a ideia de “Estado” est√° no pr√≥prio nascedouro da vertente sunita do Isl√£. Os que entregaram a lideran√ßa √† descend√™ncia sangu√≠nea de Maom√©, atrav√©s de sua filha Fatima, constituem a vertente xiita. A quest√£o de um “Estado” pr√≥prio n√£o se coloca para eles. Nada disto tem a ver, portanto, com os preceitos do Alcor√£o, mas com a “institucionalidade” do Isl√£.

Quando eu morava em Islamabade, e nas vezes que fui por trabalho a Cabul, em 2004/7, a ciz√Ęnia interconfissional n√£o se colocava ainda, ou de forma muito “mild”: eram todos “irm√£os na f√©”. Mas j√° havia acontecido as Torres G√™meas e as invas√Ķes do Afeganist√£o e do Iraque, que abriram a “caixa da Pandora” e expuseram todas as “chagas” multisseculares entre as duas grandes correntes. Os sunitas, grande maioria no Paquist√£o e no Afeganist√£o, foram os que mais se empenharam na expuls√£o dos sovi√©ticos ateus; e os talib√£s, formados nas madrassas, escolas cor√Ęnicas paquistanesas (“talib” em urdu significa “estudante”), foram os seus empenhados guerreiros. O Estado Isl√Ęmico √© uma “deriva√ß√£o” dos talib√£s, que os futuros jihadistas do Daesh/ISIS consideravam haverem-se acomodado na luta pela “jihad” e compactuado com os “invasores ocidentais”. Foram, ent√£o, na busca de criar um Estado pr√≥prio (portanto, encampar um territ√≥rio)… e sabemos todos o que aconteceu deste ent√£o: Iraque, Afeganist√£o, S√≠ria, etc…

Mas o que isto tem a ver com o Ocidente, e conosco? Quem s√£o os jihadistas ocidentais – e brasileiros – que se autodenominam membros do “Estado Isl√Ęmico”?

S√£o todos aqueles que por uma raz√£o ou outra, sobretudo os de ascend√™ncia √°rabe na Europa – mas nem europeus “√† part enti√®re” (o franc√™s √© proposital…) e nem magrebinos, porque as ra√≠zes se afastaram – que, profundamente ressentidos com a xenofobia que grassa contra a comunidade no Continente, n√£o v√™em futuro para suas vidas e v√£o encontrar na viol√™ncia contra seus pr√≥prios conterr√Ęneos crist√£os (na maioria) sua revanche e uma raz√£o de existir. Tr√°gico…

Em outras palavras, com a crescente perda dos territ√≥rios que havia alcan√ßado no Oriente M√©dio, o Estado Isl√Ęmico √© hoje sobretudo a INTERNET! √Č ali que se aliciam os desajustados e ressentidos.

Seria este o caso do Brasil?


MPF denuncia 11 brasileiros por promover Estado Isl√Ęmico

Jornal do Brasil
O Minist√©rio P√ļblico Federal (MPF) denunciou 11 brasileiros por forma√ß√£o de organiza√ß√£o criminosa e promo√ß√£o do grupo terrorista Estado Isl√Ęmico (EI) no pa√≠s.De acordo com a den√ļncia, os brasileiros tentaram recrutar jihadistas para lutar na S√≠ria, al√©m de falarem sobre atentados no Brasil. A informa√ß√£o foi divulgada nesta quinta-feira (17) pelo jornal “O Estado de S.Paulo”.Cinco dos 11 denunciados tamb√©m respondem pelo crime de corrup√ß√£o de menores, j√° que o grupo teria recrutado jovens e crian√ßas.A den√ļncia se baseia em conversas e trocas de mensagens em aplicativos e redes sociais, as quais foram interceptadas pela Pol√≠cia Federal, e √© resultado da Opera√ß√£o √Ātila, mantida em sigilo at√© mar√ßo. Desde outubro do ano passado, sete pessoas foram detidas e prestaram depoimento sob condu√ß√£o coercitiva.Dois envolvidos permanecem presos preventivamente: Jhonatan Sentinelli Ramos, de 23 anos, e Welington Moreira de Carvalho, de 46 anos.As investiga√ß√Ķes, por√©m, come√ßaram em novembro de 2016, quando as autoridades espanholas notificaram as brasileiras de que n√ļmeros de celulares do pa√≠s apareciam em grupos de WhatsApp suspeitos de “promover, organizar ou integrar” o Estado Isl√Ęmico.Um dos grupos identificados continha 43 integrantes e levava o nome de “Estado do Califado no Brasil”. L√°, os membros discutiram a cria√ß√£o de uma c√©lula terrorista no pa√≠s.Em julho de 2016, a ANSA publicou que um grupo extremista no Brasil havia declarado lealdade ao EI, em um canal na rede social Telegram, similar ao WhatsApp, e interceptado pela ag√™ncia privada de contraterrorismo SITE.De acordo com a especialista Rita Katz, aquela tinha sido a primeira vez que uma organiza√ß√£o anunciava alian√ßa com o Estado Isl√Ęmico na Am√©rica do Sul.

Originalmente publicado em: http://www.jb.com.br/internacional/noticias/2018/05/17/mpf-denuncia-11-brasileiros-por-promover-estado-islamico/

Fausto Godoy
Doutor em Direito Internacional P√ļblico em Paris. Ingressou na carreira diplom√°tica em 1976, serviu nas embaixadas de Bruxelas, Buenos Aires, Nova D√©li, Washington, Pequim, T√≥quio, Islamabade (onde foi Embaixador do Brasil, em 2004). Tamb√©m cumpriu miss√Ķes transit√≥rias no Vietn√£ e Taiwan. Viveu 15 anos na √Āsia, para onde orientou sua carreira por considerar que o continente seria o mais importante do s√©culo 21 ‚Äď previs√£o que, agora, v√™ cada vez mais perto da realidade.