Os brasileiros e a Jihad

A matéria “MPF acusa 11 brasileiros de promover Estado Islâmico” que o Jornal do Brasil replica do Estadão de hoje, de autoria de Tulio Kruse, levanta um tema sobre o qual nós pouco nos debruçamos até agora.

A denúncia do Ministério Público Federal contra onze brasileiros acusados de estarem recrutando jihadistas para se juntarem ao Estado Islâmico, com base num alerta da polícia espanhola, nos faz recordar a prisão, durante as Olimpíadas do Rio, em 2016, de dez suspeitos de estarem planejando atos terroristas durante o evento.Todos brasileiros, com sobrenomes tipicamente nossos, e sem qualquer descendência muçulmana.

O espraiamento das ações do Estado Islâmico também pelo Brasil, realidade até agora aparentemente longínqua, leva-nos a refletir sobre uma série de questões relativas ao universo muçulmano. Pouco se sabe no Brasil sobre o que é o Estado Islâmico, afora os lugares comuns e as “pós-verdades” fabricadas por parte da imprensa (repercutindo as agências de notícias internacionais). Tive a oportunidade de servir em vários países muçulmanos – Paquistão, Afeganistão, Bangladesh e Cazaquistão, além da Índia, cuja população maometana é a terceira maior do planeta – e vivenciar as várias “cores” do Islã. A fé e o Livro Sagrado são os mesmos, mas a forma pela qual se observam os seus preceitos tem um fundo eminentemente civilizacional e político, o que as pessoas no Ocidente teimam em não entender.

A raiz está na morte do Profeta, em 632 d.C., quando se colocou a questão da sua sucessão. Isto parece longínquo, mas está na base de tudo o que está ocorrendo hoje: a cisão do Islã entre sunitas e xiitas. Os primeiros entregaram a sucessão de Maomé à “Uma”, o grupo de seguidores mais próximos dele: ou seja, a um “governo” (não nos esqueçamos de que ele foi o único líder religioso que comandou exército, diferentemente de Cristo, Buda, Mahavir, etc…). Portanto, a ideia de “Estado” está no próprio nascedouro da vertente sunita do Islã. Os que entregaram a liderança à descendência sanguínea de Maomé, através de sua filha Fatima, constituem a vertente xiita. A questão de um “Estado” próprio não se coloca para eles. Nada disto tem a ver, portanto, com os preceitos do Alcorão, mas com a “institucionalidade” do Islã.

Quando eu morava em Islamabade, e nas vezes que fui por trabalho a Cabul, em 2004/7, a cizânia interconfissional não se colocava ainda, ou de forma muito “mild”: eram todos “irmãos na fé”. Mas já havia acontecido as Torres Gêmeas e as invasões do Afeganistão e do Iraque, que abriram a “caixa da Pandora” e expuseram todas as “chagas” multisseculares entre as duas grandes correntes. Os sunitas, grande maioria no Paquistão e no Afeganistão, foram os que mais se empenharam na expulsão dos soviéticos ateus; e os talibãs, formados nas madrassas, escolas corânicas paquistanesas (“talib” em urdu significa “estudante”), foram os seus empenhados guerreiros. O Estado Islâmico é uma “derivação” dos talibãs, que os futuros jihadistas do Daesh/ISIS consideravam haverem-se acomodado na luta pela “jihad” e compactuado com os “invasores ocidentais”. Foram, então, na busca de criar um Estado próprio (portanto, encampar um território)… e sabemos todos o que aconteceu deste então: Iraque, Afeganistão, Síria, etc…

Mas o que isto tem a ver com o Ocidente, e conosco? Quem são os jihadistas ocidentais – e brasileiros – que se autodenominam membros do “Estado Islâmico”?

São todos aqueles que por uma razão ou outra, sobretudo os de ascendência árabe na Europa – mas nem europeus “à part entière” (o francês é proposital…) e nem magrebinos, porque as raízes se afastaram – que, profundamente ressentidos com a xenofobia que grassa contra a comunidade no Continente, não vêem futuro para suas vidas e vão encontrar na violência contra seus próprios conterrâneos cristãos (na maioria) sua revanche e uma razão de existir. Trágico…

Em outras palavras, com a crescente perda dos territórios que havia alcançado no Oriente Médio, o Estado Islâmico é hoje sobretudo a INTERNET! É ali que se aliciam os desajustados e ressentidos.

Seria este o caso do Brasil?


MPF denuncia 11 brasileiros por promover Estado Islâmico

Jornal do Brasil
O Ministério Público Federal (MPF) denunciou 11 brasileiros por formação de organização criminosa e promoção do grupo terrorista Estado Islâmico (EI) no país.De acordo com a denúncia, os brasileiros tentaram recrutar jihadistas para lutar na Síria, além de falarem sobre atentados no Brasil. A informação foi divulgada nesta quinta-feira (17) pelo jornal “O Estado de S.Paulo”.Cinco dos 11 denunciados também respondem pelo crime de corrupção de menores, já que o grupo teria recrutado jovens e crianças.A denúncia se baseia em conversas e trocas de mensagens em aplicativos e redes sociais, as quais foram interceptadas pela Polícia Federal, e é resultado da Operação Átila, mantida em sigilo até março. Desde outubro do ano passado, sete pessoas foram detidas e prestaram depoimento sob condução coercitiva.Dois envolvidos permanecem presos preventivamente: Jhonatan Sentinelli Ramos, de 23 anos, e Welington Moreira de Carvalho, de 46 anos.As investigações, porém, começaram em novembro de 2016, quando as autoridades espanholas notificaram as brasileiras de que números de celulares do país apareciam em grupos de WhatsApp suspeitos de “promover, organizar ou integrar” o Estado Islâmico.Um dos grupos identificados continha 43 integrantes e levava o nome de “Estado do Califado no Brasil”. Lá, os membros discutiram a criação de uma célula terrorista no país.Em julho de 2016, a ANSA publicou que um grupo extremista no Brasil havia declarado lealdade ao EI, em um canal na rede social Telegram, similar ao WhatsApp, e interceptado pela agência privada de contraterrorismo SITE.De acordo com a especialista Rita Katz, aquela tinha sido a primeira vez que uma organização anunciava aliança com o Estado Islâmico na América do Sul.

Originalmente publicado em: http://www.jb.com.br/internacional/noticias/2018/05/17/mpf-denuncia-11-brasileiros-por-promover-estado-islamico/

Fausto Godoy
Doutor em Direito Internacional Público em Paris. Ingressou na carreira diplomática em 1976, serviu nas embaixadas de Bruxelas, Buenos Aires, Nova Déli, Washington, Pequim, Tóquio, Islamabade (onde foi Embaixador do Brasil, em 2004). Também cumpriu missões transitórias no Vietnã e Taiwan. Viveu 15 anos na Ásia, para onde orientou sua carreira por considerar que o continente seria o mais importante do século 21 – previsão que, agora, vê cada vez mais perto da realidade.