Os chineses, os americanos, o “China Dream” e a guerra comercial

O Estadão de hoje replica um artigo do “The Economist” – “China e EUA em um novo tipo de guerra fria” – o qual alardeia que o embate entre as duas megapotências já ultrapassou o confronto comercial “stritu senso” para assumir cada vez mais o caráter holístico de disputa pela supremacia do poder mundial. Como afirma o artigo, “…as duas superpotências antes estavam em busca de um mundo em que todos ganhassem. Hoje, vencer implica a derrota do outro – um colapso que submeta permanentemente a China à ordem americana ou uma América humilde que se retire do Pacífico Ocidental…”

É como se a multipolaridade geoeconômica, ou uma bipolaridade RPC/EUA, estivessem fadadas a um inescapável desenlace, substituídas pela dominação unívoca do “mais forte”. Ainda segundo o “The Economist”, “…mesmo que China e EUA evitem o conflito, o mundo arcará com custos da redução do crescimento”. Acho que esta visão maniqueísta, própria do pensamento ocidental, onde impera o princípio do “eu” – singular ou coletivo – não leva em conta um dos pilares das civilizações do Oriente confucionista: o princípio do “nós”, segundo o qual é a interação no contexto social que define as relações entre indivíduos, Estados e contexto internacional..

Nesta ótica, estaria a República Popular realmente buscando dominar isoladamente o mundo? Será que ela se sente preparada, ou habilitada, ou até mesmo realmente interessada em fazê-lo, “western style”?…

Para entender a China de hoje é necessário revisitar o seu passado, sobretudo o “século das humilhações” – o nefasto XIX -, que acometeu o desfalecente império Qing com duas guerras iníquas contra a Corte de Londres para combater o consumo do ópio imposto à sua sociedade como forma de equilibrar a balança do comércio bilateral que era profundamente desfavorável para os ingleses. O que aconteceu depois teve, de certa forma, como fagulha inicial o desejo dos chineses de recuperar o “mianzi” – a honra – da Nação, que havia sido conspurcada, e se reinserir no espaço que eles achavam ser seu no concerto das nações: a Revolução Comunista, o maoísmo, o “deng-ismo”, a abertura para o mundo, o “China Dream” e a “Nova Rota da Seda”, tiveram este impulso, em última análise.

Acredito que os Estados Unidos de Donald Trump não tenham entendido isto e “carregado nas tintas” ao iniciar uma batalha que só trará efeitos nefastos para todo o mundo. À vociferação desmedida dos americanos, a China de Xi Jiping responde com a fleuma estratégica que lhe ensinou a História. Não toma iniciativas e responde – como não poderia deixar de ser – às invectivas americanas com retaliações suficientemente equilibradas, segura de que o comércio internacional pende para o seu lado: segundo dados do mesmo “The Economist”, em 2016 a República Popular era o principal parceiro comercial de 124 países, contra 56 para os Estados Unidos.

Neste quadro, será que ela aceitará um papel subalterno, contrariando a sua pujança e a ambição de tornar-se a principal economia 5.0 do planeta, em 2050, como o seu plano “Made in China 2025” prescreve?

Concordo, mais com o Celso Ming, que num artigo brilhante publicado no Estadão, igualmente, no dia 17 de maio, intitulado “A China joga wei qi”, assinala que “está equivocado quem pensa que os negociadores chineses estejam a cada momento dispostos a um golpe heroico para destruir o governo dos Estados Unidos. A China conduz um processo mais complexo, que busca sucessivas vantagens relativas. Até mesmo as retaliações comerciais anunciadas…devem ser vistas como medidas de alcance tático”. Em direção a 2050…

Falou!

Sugiro aos amigos que leiam e reflitam sobre a matéria do “The Economist”ECONOMIA.ESTADAO.COM.BRChina e EUA em um novo tipo de guerra fria – Economia – Estadão

Fausto Godoy
Doutor em Direito Internacional Público em Paris. Ingressou na carreira diplomática em 1976, serviu nas embaixadas de Bruxelas, Buenos Aires, Nova Déli, Washington, Pequim, Tóquio, Islamabade (onde foi Embaixador do Brasil, em 2004). Também cumpriu missões transitórias no Vietnã e Taiwan. Viveu 15 anos na Ásia, para onde orientou sua carreira por considerar que o continente seria o mais importante do século 21 – previsão que, agora, vê cada vez mais perto da realidade.