A crônica da morte anunciada: a queda de Cabul

Taliban assume controle sobre o palácio presidencial do Afeganistão. © AP

A imprensa do Afeganistão acaba de noticiar a queda de Cabul hoje pela manhã. Os talibãs ocuparam enfim a capital, finalizando um ciclo estratégico delineado pelo avanço de suas milícias pelas capitais provinciais enquanto a liderança discutia em Doha, no Qatar, a formação de um governo compartilhado com as autoridades constituídas do Afeganistão.

Sabia-se desde sempre que, na realidade, estas discussões, que incluíram representantes do governo americano e de outros países, estavam destinadas, no fundo, a “ganhar tempo” para que os rebeldes talibãs fossem ganhando terreno em todo o país. Em definitivo, tratava-se de um jogo de cena para “engabelar” os negociadores ocidentais, que de público se comprometiam em manter um mínimo de governabilidade no país, mas que desde sempre sabiam que tudo era um “jogo de cartas marcadas”.

O presidente afegão, Ashraf Ghani, e seu grupo de assessores mais próximos deixaram o Afeganistão poucas horas antes que as forças insurgentes cercassem Cabul, neste domingo, e se refugiaram no vizinho Uzbequistão. Ghani esteve sob enorme pressão ao longo do processo de “negociação” em Doha, aliás iniciado por Donald Trump, como já mencionei em postagens anteriores. A sua renúncia era uma das principais exigências dos talibãs para que aceitassem um acordo que, na verdade, jamais consideraram. Não obstante, o Ministro interino do Interior, Abdul Satar Mirzakwal, afirmou que “há um acordo para que haja uma administração transitória e a transferência ordenada de poder”. No entanto, a história do talibã deixa dúvida profunda sobre esta afirmação, até pelo exemplo do que foi todo o processo negociatório em Doha.

Afeganistão | Britannica Escola

Um morador de Cabul descreveu a situação caótica que ali se instalou quando as forças talibãs se aproximavam. Segundo ele, “neste momento, os ladrões e saqueadores estão nas ruas tentando assaltar quem quer que esteja deixando a cidade”.

Tudo isto acontece no momento em que as tropas americanas e ocidentais completam o processo de saída do país, cumprindo a promessa do Presidente Joe Biden de retirar todo o contingente militar do Afeganistão antes do 20º aniversário dos ataques da Al Qaeda às Torres Gêmeas. Em suas palavras…”ao longo dos 20 anos de guerra do nosso país no Afeganistão, a América enviou seus melhores jovens, homens e mulheres, investiu quase US$ 1 trilhão de dólares, treinou mais de 300.000 soldados e policiais afegãos, equipou-os com equipamento militar de última geração e manteve sua força aérea como parte da guerra mais longa da história dos EUA…mais um ano, ou mais cinco anos de presença militar dos EUA não teria feito diferença se os militares afegãos não puderem ou não mantiverem seu próprio país. E uma presença americana interminável no meio de um conflito civil de outro país não era aceitável para mim.” Uma capitulação no mínimo irresponsável, segundo muitos analistas, diante do histórico da ocupação ocidental.

Entretanto, consciente do caos que se instalará no país, Biden anunciou que cerca de 5.000 soldados serão enviados ao Afeganistão para reforçar a segurança do processo de evacuação dos funcionários da Embaixada dos Estados Unidos. Neste ínterim, conforme noticiou a imprensa, helicópteros pousavam na embaixada no início deste domingo para resgatar o pessoal diplomático, que se esforçava para destruir documentos confidenciais ali existentes. Paralelamente, num comunicado emitido ontem, 14/08, Biden informou ter instruído as forças armadas e a comunidade de inteligência americanas para que se mantenham mobilizadas a fim de garantir que os EUA manterão capacidade e vigilância para enfrentar futuras ameaças do Afeganistão. Ele alertou que se atacar a população ou os interesses dos Estados Unidos, o Talibã enfrentará resposta “rápida e forte” dos militares dos EUA.

Em suma, passados vinte anos da aventura americano/ocidental no Afeganistão, fecha-se o círculo da mesma forma que ele se iniciou…

Mas, quais as consequências?

Do ponto de vista da população afegã, rompe-se um ciclo de relativa estabilidade e de uma certa liberdade de hábitos e costumes que se consolidava, mas que agora certamente deverá sofrer profundo retrocesso com o restabelecimento dos princípios wahabitas e preconceituosamente patriarcais dos talibãs. A “sharia”, a rígida lei que regulamenta a vida em sociedade segundo princípios ortodoxos islâmicos – anacrônicos segundo muitos especialistas posto que não refletem a convivência das populações nos países muçulmanos mais “liberais” – voltará a definir e regulamentar o convívio social. Isto já confirmaram, enfaticamente os novos donos do poder em Cabul, ainda que afirmem “ter mudado muito nestes últimos vinte anos…” Não é o que se está vendo, sobretudo nas regiões mais afastadas do país, segundo notícias que circulam na imprensa. As principais vítimas serão, evidentemente, as mulheres, que serão confinadas ao serralho, não terão mais acesso à educação e serão obrigadas a “casar” com os mujahideen talibãs, como já tem ocorrido, aliás.

A segunda questão de imediato – e pungente -, é o destino daqueles que ou trabalharam para os ocidentais ou com eles mantiveram contatos mais estreitos. Já se tem notícia de atos de violência – e até mesmo de execuções -, contra esses indivíduos. Novamente instaura-se o ciclo da busca de refúgio nos países vizinhos… que não estão preparados para absorvê-los. Isto presenciei quando fui Embaixador no Paquistão e no Afeganistão: é dramática – senão trágica – a situação desta população no solo paquistanês, confinada em verdadeiros guetos, sem qualquer oportunidade de inserção na sociedade local. Pior ainda é o caso do Irã, onde igualmente já existe uma grande população de refugiados afegãos; como se sabe, a quase totalidade da população iraniana é da corrente xiita do Islã, enquanto os afegãos são sunitas. Esta dicotomia cria barreiras quase intransponíveis entre os dois ramos da mesma fé. Efeito disto também poderá sofrer o Ocidente, que poderá ver-se uma vez mais “invadido” por estes refugiados. Conhecemos bem o que ocorreu no apogeu da guerra da Síria… a propósito, os Estados Unidos já se comprometeram a acolher os indivíduos que tiveram contato mais estreito com eles, sobretudo os que trabalharam nas suas representações diplomáticas ou com as forças de ocupação.

E do ponto de vista geopolítico a questão é ainda muito mais complexa. Historicamente o Afeganistão é uma das regiões mais sensíveis do planeta. Não é à toa que foi lá que os dois maiores impérios do Século XIX, o Russo e o Britânico, jogaram o seu “Great Game”. A história se repete na atualidade, com a Rússia, ex-“invasora” até 1991, que tenta manter sua ascendência sobre as suas ex-repúblicas soviéticas – Tajiquistão e Uzbequistão – vizinhas de ambos, e impedir o espraiamento do radicalismo islâmico no seu “quintal”; a China, que tem o Xinjiang e a ameaça dos uighures muçulmanos na fronteira comum, além dos seus interesses no traçado da “Nova Rota da Seda” pela região, e dos laços históricos com o Paquistão, seu principal parceiro regional; do próprio Paquistão, “aliado” de primeira hora dos “mujahedeen” talibãs, mas que sofre a ameaça de ver a radicalização se espraiar pelo seu território; o Irã, xiita e antagonista natural por causa da fé; e a Índia que se preocupa que tudo isto transborde e “invada” a extremamente sensível – e indefinida, em última instância – região da Caxemira. E por aí vamos…

Parece que nós, brasileiros, estamos longe de tudo isto. Ledo engano…como vimos no episódio das Torres Gêmeas, a globalização – política e econômica – não deixa mais espaço para o alheamento. Poderemos sofrer as consequências, direta ou indiretamente, de uma dramática radicalização islâmica que estimule a propagação de movimentos “terroristas” globais. Já se tem notícias de brasileiros juntando-se ao Estado Islâmico e aos talibãs. Na Pangeia reencontrada tudo tem importância!

Lição 1: melhor teria sido que os americanos e os ocidentais não enviassem tropas permanentes ao Afeganistão; não teriam sido perdidas tantas vidas em vão; Lição 2: como já analisei em postagens anteriores, cabe aos afegãos escolher o seu próprio destino através da assembleia das lideranças tribais, que decide pela multiplicidade de etnias e tribos que compõem a sua civilização. Ou como diria alguém…”it´s the Loya Jirga”, stupid!

Trágico!!!!

Sugiro aos amigos que leiam a matéria abaixo:

https://www.npr.org/2021/08/15/1027847038/taliban-forces-sweep-into-kabul-as-talks-underway-on-transfer-of-power?utm_campaign=storyshare&utm_source=facebook.com&utm_medium=social&fbclid=IwAR31IziRA7cScRrwDDG64xBNpngv4Oatb0RDXW7bzxM36_Mgwi9xRVmSdnI

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Doutor em Direito Internacional Público em Paris. Ingressou na carreira diplomática em 1976, serviu nas embaixadas de Bruxelas, Buenos Aires, Nova Déli, Washington, Pequim, Tóquio, Islamabade (onde foi Embaixador do Brasil, em 2004). Também cumpriu missões transitórias no Vietnã e Taiwan. Viveu 15 anos na Ásia, para onde orientou sua carreira por considerar que o continente seria o mais importante do século 21 – previsão que, agora, vê cada vez mais perto da realidade.