A saga do Japão moderno: a Missão Iwakura

Rota da Missão Iwakura

Qualquer reflexão a respeito da emergência da Ásia como (o) grande eixo da globalização neste início de século e do papel que o Continente está desempenhando no plano geoeconômico/geopolítico, tem que recapitular, a meu ver, o que ocorreu com o Japão do final do século XIX.

Cabe lembrar que o país se manteve praticamente fechado para o mundo por mais de duzentos anos, por imposição dos xoguns Tokugawa, que temiam que a cristianização “insidiosa” da população pelos missionários católicos – jesuítas portugueses, principalmente – viesse solapar os esteios e a alma da nação. Este capítulo pungente da história do Japão, chamado Sakoku – 鎖国 – “país fechado”- está magistralmente registrado no livro “O Silêncio”, do escritor japonês Shusaku Endo, católico ele mesmo, aliás.

Este “status quo” perdurou até 1854, quando quatro navios americanos, que os japoneses chamaram de “kurofune” – barcos negros – comandados pelo Comodoro Matthew Calbraith Perry aportaram na baía de Tóquio e fizeram uma ameaçadora demonstração de poderio bélico. Assustado, o xogunato concordou – pela “Convenção de Kanagawa” – em abrir dois portos para navios americanos e permitiu que um consulado permanente dos EUA fosse instalado na cidade portuária de Shimoda. Em troca, os EUA concordaram em não bombardear Edo, como se chamava Tóquio, então.

O trauma abriu caminho para a abertura do Japão para o Ocidente. E, sobretudo, propiciou a retomada do poder pela Casa Imperial, que até então vivia “exilada” em Kyoto, desfrutando apenas de um trono abstrato. Foi assim que Matsuhito, o Imperador Meiji – o “filho do Sol” – recuperou a liderança do desgastado xogunato Tokugawa, cujo último representante, Yoshinobu, após renunciar no final de 1867 retirou-se da vida pública.

Coube ao jovem Imperador – Meiji Tennō – que tinha apenas um ano de idade quando os americanos entraram na baia de Tóquio e quatorze quando assumiu o trono do Sol Nascente, a iniciativa de liderar a ambiciosa transformação do Japão de um país feudal numa das maiores superpotências do mundo moderno. Para tanto, em agosto de 1871, o estreante governo Meiji aboliu os domínios feudais tradicionais dos “daimyios”, que eram hereditários, e os substituiu por prefeituras debaixo da autoridade centralizada. Esta revolução sem sangue resgatou para o governo central a propriedade das terras que compunham a malha de poder do Japão pré-moderno. Depois de 260 anos de xogunato dos Tokugawa, passou a ser este o grande desafio: transformar um país isolado e feudal na que se tornou a segunda maior economia do planeta até 2010.

Restava em aberto o desafio de modernizar o Japão: diagnóstico concluído pela elite política, com o Imperador Meiji à frente, indicava que para tanto era necessário aprender com as potências estrangeiras. Assim foi que apenas quatro meses após a sagração do Imperador, três arquitetos desta mudança — Iwakura Tomomi, Kido Takayoshi e Ōkubo Toshimichi — partiram em uma viagem de 18 meses na chefia de uma missão que tinha por objetivo observar as realidades políticas e econômicas na Ásia, nos Estados Unidos e na Europa, na busca de aprendizado e de projetos para a construção de um modelo para o Império.

Iwakura liderou a missão na qualidade de Embaixador Plenipotenciário, o que deu a ela o seu nome. Ela era constituída por cerca de 50 membros, incluindo Itō Hirobumi, que posteriormente ocuparia o cargo de Primeiro-Ministro e se tornaria um dos mais respeitados políticos de seu país, além de vários outros que formariam a nova elite do Japão. Eles eram acompanhados por cerca de 60 estudantes, alguns dos quais foram deixados para trás a fim de completarem sua educação nos países estrangeiros, entre eles cinco jovens mulheres que permaneceram nos Estados Unidos para estudar. A bem da verdade, já tinha havido algumas tentativas similares no crepúsculo do xogunato Tokugawa.

A missão foi construída em torno da pesquisa. Os seus membros visitaram 120 cidades e localidades específicas em 12 países – no leste da Ásia (China e Singapura), na Europa e nos Estados Unidos – onde observaram e se empenharam em aprender todos os aspectos possíveis da civilização ocidental, desde os de caráter político e de administração até os militares, a diplomacia, a economia, a indústria, a educação, a religião, transportes, comunicações, cultura, recreação, etc.. Tanto os pontos por eles considerados positivos quanto os negativos foram analisados: os viajantes igualmente observaram os aspectos deprimentes da civilização ocidental, e todos os dias se reuniam para debater e estudar o que haviam presenciado, tendo em mente que esta experiência fundamentaria decisões que seriam adaptadas às condições reais do Japão após o retorno.

A espinha dorsal desta nova política era preservar o conceito de “wakon yōsai” – espírito japonês e aprendizado ocidental -, ou seja, uma abordagem modernizante que buscasse assimilar a tecnologia estrangeira sem, no entanto, perder a identidade nacional, inclusive no que respeita aos aspectos militares, consubstanciados nos “slogans” “fukoku kyōhei” – enriquecer o país, fortalecer os militares – e “shokusan kōgyō” – aumentar a produção, promover a indústria -, que tiveram influência nefasta quando o governo de Tóquio assumiu um caráter nitidamente imperialista e militarista em toda a região do leste da Ásia no final do século XIX e no início do século XX, cujo final trágico foram as bombas de Hiroshima e Nagasaki.

Todos estes fatos servem para demonstrar o espírito obstinado da elite política e empresarial japonesa, que alavancou o país destruído no final da II Guerra ao patamar da segunda potência mundial em menos de trinta anos: não nos esqueçamos de que a partir de 1968 e até 2010 o país foi o segundo maior PIB do planeta!

Acredito que este “script” tem muito que ensinar sobre o que está ocorrendo atualmente na Ásia. A curva das civilizações não é estática e o seu traçado depende muito do empenho das suas sociedades: elite e população. Se olharmos para o mapa do Continente, hoje, poderíamos concluir que muito do que ocorreu no Japão Meiji se aplica à China de Xi Jinping: a mesma cópia inicial do Ocidente; o ímpeto desenvolvimentista das reformas de Deng Xiaoping; a mesma autoconfiança alimentada pelo desejo de hegemonia da elite da era Xi com a (ainda…?) concordância maciça da população, fascinada por uma qualidade de vida insuspeitada, por exemplo, quando eu servi em Pequim, em 1994/7. Em contrapartida, este mesmo “China Dream” levanta suspicácias e antagonismos de parte das sociedades e de países que se sentem ameaçados por esta afluência, sobretudo se ela se multiplica por 1,4 bilhão de pessoas! Qual será a próxima etapa?

Nada como a História – aliás tão importante para os chineses, e tão “melancólica”, de certa forma, para os japoneses – para nos servir de reflexão.

E assim “la nave va”…

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Doutor em Direito Internacional Público em Paris. Ingressou na carreira diplomática em 1976, serviu nas embaixadas de Bruxelas, Buenos Aires, Nova Déli, Washington, Pequim, Tóquio, Islamabade (onde foi Embaixador do Brasil, em 2004). Também cumpriu missões transitórias no Vietnã e Taiwan. Viveu 15 anos na Ásia, para onde orientou sua carreira por considerar que o continente seria o mais importante do século 21 – previsão que, agora, vê cada vez mais perto da realidade.