Impactos da COVID-19 no Comércio Europeu

Desde o início de 2020, o mundo foi acometido por uma grave crise sanitária devido à aparição do novo coronavírus, e depois da sua proliferação na China, diversos países tiveram que adequar suas economias a fim de atender melhor às necessidades da população. Dentre os continentes economicamente mais afetados no início da pandemia, encontra-se a Europa, que atualmente conta com cerca de 1.243.000 mortes.

Entre os países com maior destaque de casos, está a Itália, que no início da pandemia, viu-se obrigada a entrar em um duro e rigoroso processo de lockdown. Tal medida preventiva contou com toque de recolher, fechamento total do comércio e proibição da circulação de pessoas em determinados locais. Outros países como França e Espanha também tiveram um enorme destaque para os casos de coronavírus, e, consequentemente, tiveram que adequar sua economia, especialmente seu comércio.

Para os países europeus, a readequação comercial foi um longo processo, que ainda está ocorrendo, pois grande parte destes possuía uma participação econômica dependente de maneira significante do turismo. Isso quer dizer que, com a diminuição das viagens internacionais, diversas lojas acabaram por fechar, devido à grande baixa no número total de vendas, que não permitiu diversos comércios de se sustentarem.

Tal fator levou a uma grande intensificação do e-commerce, que foi visto como alternativa para a troca comercial em território europeu, bem como em outros lugares do mundo. Vale destacar a ocorrência de uma grande fragmentação entre meses do bloco europeu, com relação à definição do que consta como comércio essencial, o que, durante os relaxamentos temporários em vários dos países, comprometeu a preservação de um ambiente balanceado no mercado único europeu.

Não dissimilar à situação brasileira, a abertura parcial no final do ano beneficiou as áreas de comércio de varejo, entretanto a intensidade na qual essas áreas foram beneficiadas varia drasticamente de país para país e não demonstram uniformidade suficiente quanto a seu posicionamento, uma atitude errônea de acordo com a UE.

Externamente, o comércio internacional europeu teve uma queda, considerando a redução da chegada de voos de cargas devido à pandemia em países mais afetados. Tendo em vista a Europa como um grande exportador, diversos insumos passaram a fazer falta nas prateleiras. Produtos como frutas e legumes advindos de países latinos, por exemplo, tiveram uma alta significativa no preço, sendo que a demanda permaneceu.

A escassez na oferta de diversos produtos também se refletiu na falta de produtos europeus no exterior. Considerando o aumento no custo operacional causado pela necessidade de implementar medidas contra a pandemia e problemas logísticos quanto a manutenção da cadeia de suprimentos, especialmente nos primeiros meses da pandemia, tornou-se evidente o aumento dos preços perante a diminuição da oferta, como preços de certos produtos manufaturados.

Ademais, após o início da pandemia, a União Europeia perdeu um espaço significativo com relação ao Mercosul. Devido à abrupta queda de acordos e trocas comerciais com a União Europeia no início da pandemia, o Mercosul passou a deter uma maior atenção em comércios com a China, embora haja ainda uma possibilidade de fechamento de acordo entre a UE e o Mercosul. Embora alguns países como a França se demonstrem contrários ao acordo, até o presente momento ainda existe possibilidade de negociação.

Com relação a produtos não essenciais, um dos setores fortemente afetados foi o de flores na Holanda. Tendo em vista o fato de as tulipas serem o grande cartão postal holandês, as vendas de tulipas em locais turísticos compunham um montante significativo no quesito de turismo, levando em conta a redução de viagens nacionais e internacionais para a região. Com o avanço da vacinação mais iminente no continente europeu, a esperança do setor turístico holandês é de recuperar rapidamente as vendas, contando com a volta do número de turistas anteriores à pandemia.

Vale destacar a ocorrência de uma segunda onda de casos de coronavírus na Europa, entre fevereiro e março deste ano. Após comprovada uma nova variante no Reino Unido, houve um significativo aumento de casos de COVID 19 na Europa, fazendo com que os países novamente se vissem obrigados a implementar medidas de contenção do vírus. Como uma medida mais branda, houve a limitação de horários nos quais o comércio essencial está apto a funcionar. Esta medida entrou em vigor apenas em territórios espanhóis e italianos, tendo em vista o grande número de mortes causadas pelo vírus nestes dois territórios, bem como as dificuldades de atendimento vividas por estes dois países.

Com relação à Alemanha, essa se manteve estável tanto com relação ao comércio intra e extrabloco quanto com relação à contenção do vírus. Isso se deve ao fato de esta ser capaz de produzir respiradores e distribuir vacinas suficientes para toda a população.

No âmbito empresarial, diversas corporações investiram e incentivaram em trabalhos home office, gerando uma alta demanda de computadores pessoais. Com diversas fábricas de peças em interrupção de produção, e consequentemente, um grande aumento no preço,o comércio de computadores na Europa enfrentou uma drástica mudança.

Por fim, pode-se inferir que os acordos comerciais internos e externos tiveram uma grande redução no continente europeu, com ressalvas na Alemanha. O comércio interno do bloco foi fortemente afetado pelo setor de turismo, que teve uma queda abrupta e inesperada. Sendo assim, o bloco europeu espera que a situação venha a melhorar e que o comércio possa se recuperar. Com a rápida imunização da população, pode-se inferir que até meados de 2022 a situação já esteja caminhando ao que era antes da pandemia.

Por Priscila Cesarino Taddone e Thomas Bauer Corsaro

Referências

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