ISSN 2674-8053

A necessidade de reforma da Arquitetura Financeira Global

Encontro do G-20 (somados a Espanha e Holanda) em 2008 durante um encontro nos EUA.

As constantes e cada vez mais impactantes crises financeiras que ocorrem desde as √ļltimas d√©cadas do s√©culo passado mostram que √© necess√°ria uma reforma da Arquitetura Financeira Global. Antes de entender o que isso significa, √© importante saber o que √© a arquitetura financeira global.

A arquitetura financeira global pode ser definida como um conjunto de acordos internacionais e de institui√ß√Ķes internacionais que promove o fluxo internacional de capital com o objetivo de facilitar investimentos e financiar o com√©rcio internacional. √Č a consolida√ß√£o do trabalho coordenado (mesmo que de forma informal) de diferentes Acordos Multilaterais, Bancos Centrais e Organiza√ß√Ķes Intergovernamentais.

Dentre as caracter√≠sticas da arquitetura financeira global atual √© poss√≠vel destacar: (1) a tend√™ncia a uma mesma percep√ß√£o sobre como o sistema regulat√≥rio deve operar para organizar os fluxos financeiros, e (2) o uso de institui√ß√Ķes multilaterais como a melhor forma de se promover a discuss√£o sobre os fluxos financeiros. Neste √ļltimo caso, o Fundo Monet√°rio Internacional (FMI) aparece com destaque.

Mesmo com esse aparente consenso em torno das regras fundamentais, as crises financeiras continuam aparecendo e s√£o cada vez mais profundas.

Algumas discuss√Ķes t√™m ocorrido para buscar alternativas √† atual Arquitetura Financeira Global de forma a evitar que novas crises financeiras surjam. O G20 aparece como um dos espa√ßos privilegiados para essa discuss√£o. Desde seu aparecimento, uma das ideias do grupo era a cria√ß√£o de respostas e alternativas √†s crises financeiras que afetam diferentes pa√≠ses, buscando propostas de regula√ß√£o alternativas √†s existentes. Ao mesmo tempo, por se tratar de um grupo, suas sugest√Ķes n√£o s√£o obrigatoriamente implementadas.

Outro espa√ßo de discuss√£o s√£o os BRICS. √Č importante observar que os pa√≠ses que formam esse grupo n√£o s√£o os dominantes (com exce√ß√£o da China, que abre espa√ßo para discuss√£o), no ent√£o todos apresentam influ√™ncia sist√™mica. Isso pois seu peso econ√īmico e financeiro global pode facilmente criar um efeito domin√≥ que afeta o sistema financeiro de forma global. Quando o grupo foi criado houve a explicita√ß√£o de seu interesse no repensar da atual Arquitetura Financeira Global, mostrando o quanto esse tema √© sens√≠vel tamb√©m para os pa√≠ses que o comp√Ķe.

Ainda assim, o esforço atual para a reforma da Arquitetura Financeira Global tem se mostrado com baixo impacto. Para entender a razão para esses resultados tímidos, é importante entender qual é o papel do dólar na Arquitetura Financeira Global.

Na medida em que os fluxos financeiros dependem das moedas, √© preciso que existam moedas fortes e est√°veis nas quais os pa√≠ses possam fazer suas reservas internacionais, al√©m de se valerem delas para a sustenta√ß√£o dos fluxos financeiros internacionais. Ainda que o Euro seja uma moeda relevante no cen√°rio mundial, claramente o d√≥lar √© dominante. Muito das precifica√ß√Ķes mundiais s√£o feitas em d√≥lar, grande parte das transa√ß√Ķes comerciais internacionais s√£o feitas em d√≥lar. Isso faz com que o acesso ao d√≥lar se mostre como algo fundamental.

A quest√£o √© que o papel do d√≥lar vai al√©m de ser a moeda de transa√ß√£o preferencial dentro da Arquitetura Financeira Global. O d√≥lar tamb√©m √© um elemento de poder, possivelmente um t√£o importante quanto o poder militar. O conflito entre R√ļssia e Ucr√Ęnia e a forma como as san√ß√Ķes contra a R√ļssia foram constru√≠das √© um bom exemplo de seu poder. A suspens√£o do acesso √† moeda, bem como o congelamento de reservas internacionais russas mostram esse outro uso do d√≥lar.

Esse √© apenas um caso simb√≥lico da depend√™ncia dos pa√≠ses em torno do d√≥lar como a grande moeda de reserva e transa√ß√Ķes internacionais. E, na medida em que h√° uma proje√ß√£o de poder por meio do d√≥lar, √© mais f√°cil entender a raz√£o pela qual h√° uma grande for√ßa contr√°ria √† reforma da Arquitetura Financeira Global. N√£o se trata apenas de criar mecanismos para evitar que crises financeiras ocorram, √© preciso fazer isso mas garantindo a perman√™ncia do d√≥lar como a grande moeda internacional.

A√ß√Ķes como a cria√ß√£o de mecanismos de pagamento direto entre pa√≠ses, sem que haja o envolvimento do d√≥lar s√£o movimentos importantes para diminuir sua centralidade. No √Ęmbito do Mercosul e dos BRICS j√° foram desenvolvidos sistemas assim, mas ainda precisam ser aprimorados. √Č necess√°rio que mais sistemas sejam desenvolvidos de forma a retirar a centralidade de uma moeda controlada por um Estado (portanto, pass√≠vel de uso pol√≠tico).

Possivelmente não veremos nas próximas décadas uma reforma profunda da Arquitetura Financeira Global, mas é importante o desenvolvimento de alternativas a esse grande sistema.

Rodrigo Cintra
P√≥s-Doutor em Competitividade Territorial e Ind√ļstrias Criativas, pelo Din√Ęmia ‚Äď Centro de Estudos da Mudan√ßa Socioecon√≥mica, do Instituto Superior de Ciencias do Trabalho e da Empresa (ISCTE, Lisboa, Portugal). Doutor em Rela√ß√Ķes Internacionais pela Universidade de Bras√≠lia (2007). √Č Diretor Executivo do Mapa Mundi. ORCID https://orcid.org/0000-0003-1484-395X