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Acordo Mercosul-União Europeia: entraves e protecionismos

O longo caminho para a ratificação do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia tem sido marcado por obstáculos e controvérsias, especialmente do lado europeu. Este artigo visa explorar os desafios enfrentados, focando nas preocupações europeias e no emergente protecionismo que está moldando a política comercial do bloco.

A União Europeia tem enfrentado críticas internas e externas pela sua postura em relação ao acordo. Grupos ambientalistas e agricultores têm exercido pressão significativa sobre os governos europeus, argumentando que o acordo poderia ter impactos negativos sobre o meio ambiente e sobre a produção agrícola local. A preocupação com o desmatamento na Amazônia e o cumprimento dos padrões ambientais pelo Brasil tem sido um ponto chave nesse debate. Fontes como “The Guardian” e “Le Monde” refletem uma crescente consciência ambiental entre os cidadãos europeus, que pressiona políticos a adotarem posturas mais rígidas em acordos comerciais.

Por outro lado, o protecionismo europeu tem sido um tema de discussão nas mídias internacionais. Publicações como “South China Morning Post” e “The Times of India” têm apontado para um crescente protecionismo na UE, que busca proteger setores vulneráveis de sua economia, principalmente a agricultura. Este protecionismo, por vezes disfarçado de preocupações ambientais ou sanitárias, representa um desafio significativo para a concretização do acordo.

O jornal “Rossiyskaya Gazeta”, da Rússia, por exemplo, destaca como a União Europeia tem se mostrado cada vez mais cautelosa em seus acordos comerciais, priorizando a proteção de seus interesses internos. Isso reflete uma mudança na política comercial europeia, que historicamente tem sido um dos baluartes do livre comércio global.

A opinião pública japonesa, representada por fontes como “The Japan Times”, oferece uma perspectiva externa interessante, notando como a UE, apesar de suas reivindicações de abertura e cooperação internacional, tem se inclinado para uma abordagem mais protecionista, influenciada tanto por questões políticas internas quanto por pressões externas.

No entanto, é importante destacar que a União Europeia enfrenta um dilema. Por um lado, existe a necessidade de proteger seus próprios interesses econôm

icos e atender às preocupações de seus cidadãos. Por outro, o fechamento desse acordo com o Mercosul representa uma oportunidade significativa para o fortalecimento de laços econômicos e políticos com uma região estratégica.

A postura da UE em relação a este acordo revela tensões internas significativas. Países como França e Alemanha têm se mostrado mais cautelosos, ponderando as consequências políticas e ambientais do acordo. Enquanto isso, nações com fortes setores agrícolas, como a Espanha e Portugal, têm sido mais favoráveis, vislumbrando oportunidades de expansão de mercados para seus produtos.

Este cenário ressalta a complexidade da política comercial moderna, onde acordos não são apenas sobre tarifas e quotas, mas também sobre valores, sustentabilidade e política interna. O caso do acordo Mercosul-UE é um exemplo claro de como as negociações comerciais se entrelaçam com questões ambientais, sociais e políticas.

De fato, a resistência europeia ao acordo não se limita a uma questão de protecionismo comercial. Ela reflete uma mudança mais ampla na forma como o comércio internacional está sendo concebido, onde aspectos como direitos humanos, proteção ambiental e sustentabilidade estão ganhando maior importância. Este é um sinal dos tempos, onde a globalização econômica enfrenta desafios crescentes de movimentos sociais e preocupações ambientais.

Para concluir, o impasse no acordo Mercosul-UE destaca a evolução da política comercial global. Enquanto o protecionismo emerge como um desafio, questões mais profundas de sustentabilidade e responsabilidade global moldam o futuro do comércio internacional. A ratificação desse acordo pode representar um passo significativo para o comércio global, mas também revela as complexidades e os desafios que as nações enfrentam ao equilibrar interesses econômicos com responsabilidades ambientais e sociais.

Rodrigo Cintra
Pós-Doutor em Competitividade Territorial e Indústrias Criativas, pelo Dinâmia – Centro de Estudos da Mudança Socioeconómica, do Instituto Superior de Ciencias do Trabalho e da Empresa (ISCTE, Lisboa, Portugal). Doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (2007). É Diretor Executivo do Mapa Mundi. ORCID https://orcid.org/0000-0003-1484-395X