
A criação de um acordo de investimentos entre os países do BRICS deixou de ser apenas uma possibilidade diplomática para se tornar uma necessidade econômica. Essa é uma das conclusões que emergem da leitura do BRICS Investment Report, elaborado pela Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD). O documento mostra que, apesar do enorme crescimento econômico do grupo nas últimas duas décadas, o potencial de investimentos entre seus próprios membros continua amplamente subaproveitado. Diante das crescentes tensões geopolíticas, das disputas comerciais entre grandes potências e da fragmentação da economia global, os países do bloco possuem uma oportunidade histórica para criar mecanismos próprios de proteção, facilitação e promoção dos investimentos.
O relatório destaca que os BRICS se transformaram em um dos mais importantes polos da economia mundial. Juntos, os países do grupo representam uma parcela significativa do PIB global, da população mundial e dos fluxos internacionais de comércio e investimento. Ao longo das últimas duas décadas, os investimentos estrangeiros recebidos pelos membros cresceram de forma expressiva, contribuindo para a industrialização, a expansão da infraestrutura e o fortalecimento das cadeias produtivas nacionais.
Apesar desse avanço, o estudo aponta uma contradição importante. Embora os países do BRICS tenham se tornado atores centrais da economia internacional, os investimentos realizados entre eles permanecem relativamente modestos quando comparados ao tamanho de suas economias. Grande parte dos fluxos de capital continua sendo direcionada para ou proveniente de economias desenvolvidas, especialmente Estados Unidos e Europa Ocidental.
Essa situação gera vulnerabilidades que se tornam mais evidentes em um ambiente internacional cada vez mais instável. Nos últimos anos, sanções econômicas, restrições tecnológicas, disputas comerciais e medidas protecionistas passaram a influenciar decisões empresariais e governamentais em escala global. Empresas e governos começaram a reconsiderar cadeias de suprimentos, fontes de financiamento e destinos de investimentos.
Nesse contexto, a criação de um acordo de investimentos do BRICS poderia funcionar como uma resposta estratégica às transformações da economia internacional. Um mecanismo desse tipo teria como objetivo reduzir barreiras regulatórias, aumentar a previsibilidade jurídica e estimular projetos conjuntos entre os membros do bloco.
O próprio relatório da UNCTAD sugere que uma cooperação mais profunda em matéria de investimentos pode se tornar um dos principais motores da integração econômica entre os países do grupo. A instituição observa que existe amplo espaço para ampliar a coordenação de políticas, harmonizar procedimentos e desenvolver instrumentos que facilitem o fluxo de capitais produtivos entre os membros.
Os benefícios potenciais seriam consideráveis. O Brasil poderia atrair mais investimentos industriais da China e da Índia em setores como transição energética, tecnologia da informação, mineração estratégica e infraestrutura logística. Empresas brasileiras poderiam encontrar oportunidades ampliadas em mercados que continuam crescendo rapidamente, como Índia, Indonésia, Emirados Árabes Unidos e Egito.
A experiência internacional demonstra que acordos de investimentos bem estruturados podem produzir efeitos significativos. Na Ásia, a integração econômica promovida pela Associação das Nações do Sudeste Asiático ajudou a criar um ambiente mais favorável para investimentos regionais. Na União Europeia, a redução de barreiras regulatórias permitiu a formação de cadeias produtivas altamente integradas entre diferentes países.
O BRICS possui características que podem tornar esse processo ainda mais relevante. Diferentemente de outros blocos econômicos, seus membros apresentam estruturas produtivas altamente complementares. O Brasil é uma potência agrícola, energética e mineral. A China é o maior centro industrial do planeta. A Índia se destaca em serviços digitais e tecnologia da informação. A Rússia possui vastos recursos naturais e capacidade industrial em setores estratégicos. Os novos integrantes ampliam ainda mais essa diversidade econômica.
Essa complementaridade cria oportunidades para investimentos cruzados em áreas de interesse comum. Projetos de infraestrutura, corredores logísticos, energia renovável, inteligência artificial, telecomunicações, semicondutores, mineração de minerais críticos e segurança alimentar poderiam se beneficiar de um ambiente regulatório mais integrado.
Outro aspecto importante destacado pelo relatório da UNCTAD é a crescente internacionalização das empresas originárias dos países do BRICS. Muitas delas já figuram entre as maiores corporações do mundo e buscam expandir suas operações além das fronteiras nacionais. Um acordo de investimentos poderia fornecer maior segurança jurídica para essa expansão, reduzindo riscos e custos operacionais.
Além disso, um mecanismo próprio de investimentos poderia contribuir para reduzir a excessiva dependência de instituições financeiras e estruturas regulatórias dominadas pelas economias desenvolvidas. Isso não significaria romper com o sistema econômico internacional existente, mas criar alternativas capazes de ampliar a autonomia estratégica dos membros do bloco.
O Novo Banco de Desenvolvimento, criado pelos próprios BRICS, oferece um exemplo concreto de como instituições próprias podem complementar as estruturas globais existentes. Desde sua criação, o banco financiou projetos de infraestrutura e desenvolvimento em diversos países membros. Um acordo de investimentos poderia representar o próximo passo nesse processo de institucionalização econômica.
A expansão recente do BRICS reforça ainda mais essa necessidade. Com a entrada de novos integrantes, o bloco passou a representar uma parcela ainda maior da produção, da população e dos recursos naturais do planeta. Entretanto, a ampliação do grupo também aumenta a complexidade da coordenação econômica, tornando necessário o desenvolvimento de regras mais claras e instrumentos permanentes de cooperação.
O momento internacional também favorece essa discussão. O crescimento das políticas industriais nacionais, a reorganização das cadeias globais de valor e a busca por maior segurança econômica estão levando diversos países a fortalecer relações com parceiros considerados confiáveis. Nesse ambiente, os BRICS possuem condições de construir uma arquitetura de investimentos mais robusta e resiliente.
O BRICS Investment Report deixa claro que o potencial econômico do bloco está longe de ser plenamente explorado. O desafio não é apenas aumentar o volume de investimentos, mas criar mecanismos que permitam transformar esse potencial em desenvolvimento concreto. Um acordo de investimentos entre os membros poderia representar um passo decisivo nessa direção, fortalecendo a integração econômica, ampliando a cooperação Sul-Sul e consolidando o papel do BRICS como um dos principais polos de crescimento da economia mundial nas próximas décadas.
Pós-Doutor em Competitividade Territorial e Indústrias Criativas, pelo Dinâmia – Centro de Estudos da Mudança Socioeconómica, do Instituto Superior de Ciencias do Trabalho e da Empresa (ISCTE, Lisboa, Portugal). Doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (2007). É Diretor Executivo do Mapa Mundi. ORCID https://orcid.org/0000-0003-1484-395X
