
Durante muito tempo, a competição em inteligência artificial pareceu seguir um roteiro conhecido. Empresas investiam dezenas de bilhões de dólares para desenvolver modelos cada vez mais sofisticados, protegiam seu código, restringiam o acesso às versões mais avançadas e monetizavam essa vantagem por meio de assinaturas, licenças e contratos corporativos. A lógica era simples. Quem construísse o melhor modelo capturaria a maior parte do mercado.
Nos últimos meses, porém, essa narrativa começou a apresentar fissuras. Modelos chineses como DeepSeek, Qwen, Kimi e GLM passaram a demonstrar desempenho próximo ao dos principais sistemas americanos, mas seguindo uma estratégia radicalmente distinta. Em vez de restringir o acesso, foram disponibilizados de forma aberta ou a custos extremamente reduzidos. O lançamento do Kimi K3, anunciado recentemente como um dos maiores modelos abertos já desenvolvidos, é apenas mais um capítulo desse movimento.
A primeira reação costuma ser interpretar esse fenômeno como uma simples disputa comercial. Empresas chinesas estariam oferecendo produtos gratuitos para conquistar usuários, repetindo uma prática comum em mercados digitais. Essa explicação, embora parcialmente verdadeira, talvez seja insuficiente. Ela parte de um pressuposto que merece ser questionado: e se a inteligência artificial não for o verdadeiro produto dessa indústria?
Essa pergunta altera completamente o modo de observar o fenômeno.
Desde a Revolução Industrial, as grandes transformações tecnológicas produziram vencedores não apenas porque criaram novas invenções, mas porque modificaram a estrutura econômica dos mercados. A eletricidade não substituiu apenas o lampião. Ela reorganizou toda a produção industrial. A internet não representou apenas um novo meio de comunicação. Ela alterou profundamente a forma como empresas, governos e indivíduos produzem, distribuem e consomem informação. Em ambos os casos, o maior valor econômico não permaneceu na tecnologia inicial. Migrou para os ecossistemas construídos sobre ela.
Talvez estejamos assistindo ao mesmo processo na inteligência artificial.
Durante os primeiros anos da IA generativa, consolidou-se a percepção de que os modelos constituíam o principal ativo econômico do setor. Empresas eram avaliadas em centenas de bilhões de dólares porque possuíam sistemas considerados superiores aos dos concorrentes. O modelo, nesse contexto, era tratado como um recurso escasso. Sua exclusividade justificava preços elevados e criava barreiras de entrada para novos participantes.
A estratégia chinesa parece caminhar na direção oposta.
Ao disponibilizar modelos cada vez mais poderosos em regime aberto, reduz-se precisamente a escassez que sustentava essa lógica econômica. Quanto maior a oferta de modelos equivalentes, menor tende a ser a capacidade de qualquer empresa cobrar preços elevados apenas pelo acesso à inteligência artificial. O efeito não consiste necessariamente em destruir o mercado, mas em deslocar o local onde o valor econômico será produzido.
Essa não seria a primeira vez que algo semelhante ocorre.
Quando o sistema operacional Linux passou a ser distribuído gratuitamente, muitos acreditaram que isso inviabilizaria uma indústria inteira. O resultado foi diferente. O sistema operacional tornou-se uma infraestrutura sobre a qual surgiu um vasto mercado de serviços, computação em nuvem, hospedagem, segurança e integração. O Android percorreu caminho semelhante. Por ser aberto, tornou-se o sistema operacional dominante no mercado mundial de smartphones, permitindo que o Google ampliasse enormemente sua influência em publicidade, buscas e serviços digitais. Mais recentemente, a arquitetura aberta RISC-V começou a desafiar modelos tradicionais de propriedade intelectual na indústria de semicondutores, demonstrando que a abertura tecnológica pode constituir uma poderosa estratégia de competição industrial.
Em todos esses casos, a lógica foi semelhante. O objetivo não era vender a infraestrutura. Era ampliar sua adoção até que ela se tornasse praticamente inevitável.
Talvez seja exatamente isso que esteja acontecendo com a inteligência artificial.
Sob essa perspectiva, oferecer modelos gratuitos deixa de parecer uma renúncia a receitas. Passa a ser um investimento na formação de um ecossistema. Quanto mais pesquisadores, startups, universidades, governos e empresas utilizarem uma determinada arquitetura tecnológica, maiores serão as chances de que ferramentas, bibliotecas, aplicações e padrões internacionais passem a ser construídos sobre ela. O ativo mais importante deixa de ser o modelo em si. Torna-se a posição ocupada dentro da rede de inovação que ele viabiliza.
Essa interpretação também ajuda a compreender por que a disputa entre Estados Unidos e China ultrapassa amplamente a questão tecnológica. Ambos reconhecem que a inteligência artificial exercerá papel semelhante ao desempenhado pela eletricidade, pela internet ou pelos sistemas de navegação por satélite. Trata-se de uma infraestrutura capaz de transformar praticamente todos os setores econômicos. Quem conseguir estabelecer os padrões utilizados mundialmente poderá exercer influência que se estende muito além da tecnologia.
É justamente nesse ponto que a estratégia chinesa revela sua maior sofisticação.
Enquanto os Estados Unidos construíram sua liderança recente apoiados na exclusividade de modelos proprietários e na captura de receitas por meio de assinaturas, a China parece apostar em outro mecanismo de poder. Em vez de preservar a escassez, procura acelerar a abundância. Em vez de concentrar usuários em poucas plataformas fechadas, incentiva a difusão da capacidade tecnológica por um número muito maior de organizações. Não se trata apenas de competir pelo mercado atual da inteligência artificial. Trata-se de influenciar a configuração do mercado que ainda será formado.
Naturalmente, essa hipótese não elimina outros fatores relevantes. A abertura dos modelos também fortalece o ecossistema doméstico de inovação, amplia a produtividade das empresas chinesas e reduz os efeitos das restrições impostas pelos Estados Unidos ao acesso a tecnologias avançadas. Todos esses objetivos coexistem. Entretanto, talvez compartilhem uma mesma lógica: acelerar a transformação da inteligência artificial em uma infraestrutura amplamente disponível.
Se essa interpretação estiver correta, uma consequência importante emerge.
O principal ativo econômico da próxima década poderá não ser o modelo mais inteligente, mas a capacidade de construir os maiores ecossistemas sobre modelos que todos terão acesso.
Essa possibilidade desloca completamente a discussão. A pergunta deixa de ser quem desenvolverá a melhor inteligência artificial. Passa a ser quem controlará as plataformas, os dados, as aplicações, os padrões técnicos e as relações econômicas construídas sobre uma inteligência que, paradoxalmente, poderá tornar-se cada vez menos escassa.
É justamente essa mudança de perspectiva que talvez explique por que a competição atual em inteligência artificial se parece cada vez menos com uma corrida tecnológica e cada vez mais com uma disputa pela arquitetura da economia mundial do século XXI.
Pós-Doutor em Competitividade Territorial e Indústrias Criativas, pelo Dinâmia – Centro de Estudos da Mudança Socioeconómica, do Instituto Superior de Ciencias do Trabalho e da Empresa (ISCTE, Lisboa, Portugal). Doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (2007). É Diretor Executivo do Mapa Mundi. ORCID https://orcid.org/0000-0003-1484-395X
