
Quem controla a inteligência artificial?
Ao longo dos últimos anos, a inteligência artificial passou a ocupar posição central nas discussões sobre economia, inovação e segurança internacional. Nesse contexto, tornou-se comum afirmar que o mundo assiste a uma corrida tecnológica entre Estados Unidos e China, na qual vencerá quem desenvolver os modelos mais sofisticados. Embora essa narrativa possua algum fundamento, ela simplifica excessivamente um fenômeno muito mais complexo. A própria pergunta que orienta boa parte desse debate, quem controla a inteligência artificial, talvez esteja formulada de maneira equivocada, pois pressupõe que exista um único centro de poder capaz de dominar essa tecnologia.
Na realidade, a inteligência artificial não constitui um setor econômico isolado. Ela representa o ponto de convergência de diversas cadeias produtivas construídas ao longo de décadas e distribuídas por diferentes regiões do mundo. Quando um usuário interage com um modelo de linguagem, tende a perceber apenas a interface visível do sistema. No entanto, por trás de uma única resposta encontram-se milhares de componentes materiais e imateriais, desde minerais estratégicos e equipamentos industriais até redes elétricas, semicondutores, infraestrutura de telecomunicações, centros de processamento de dados e algoritmos desenvolvidos por equipes altamente especializadas. O modelo de linguagem corresponde apenas à camada mais visível dessa arquitetura.
Essa constatação modifica profundamente a forma de compreender a disputa internacional. Se a inteligência artificial depende da integração entre diversas cadeias globais de valor, torna-se impossível atribuir sua liderança a um único país ou a uma única empresa. Cada etapa da cadeia concentra competências distintas e, em muitos casos, essas competências permanecem distribuídas entre economias que também competem entre si. A liderança tecnológica deixa de significar controle absoluto. Ela passa a depender da capacidade de coordenar diferentes ativos estratégicos espalhados pelo sistema internacional.
Basta observar algumas dessas camadas para perceber a complexidade dessa estrutura. A extração e o processamento de terras raras continuam fortemente concentrados na China, que ocupa posição relevante no fornecimento de insumos indispensáveis para diversos equipamentos eletrônicos. A produção das sofisticadas máquinas de litografia utilizadas na fabricação dos semicondutores mais avançados permanece fortemente associada à empresa holandesa ASML. A manufatura desses semicondutores depende, em larga medida, da capacidade industrial desenvolvida por empresas como a taiwanesa TSMC e a sul-coreana Samsung. Os processadores gráficos que impulsionaram a recente expansão da inteligência artificial continuam sendo amplamente liderados pela norte-americana NVIDIA. Paralelamente, a infraestrutura global de computação em nuvem permanece concentrada em empresas como Amazon, Microsoft e Google, enquanto a China avança rapidamente na produção de modelos de linguagem, aplicações industriais e integração da inteligência artificial aos diferentes setores de sua economia.
Nenhuma dessas competências, isoladamente, seria suficiente para sustentar o desenvolvimento contemporâneo da inteligência artificial. O funcionamento desse ecossistema depende precisamente da articulação entre todas essas capacidades. É por essa razão que as restrições comerciais adotadas pelos Estados Unidos em relação aos semicondutores avançados não impediram o avanço chinês na produção de modelos de linguagem. Da mesma forma, a rápida evolução dos modelos chineses não elimina a importância da infraestrutura computacional, dos equipamentos industriais ou das tecnologias críticas desenvolvidas em outros países. Cada avanço tecnológico produz novas dependências ao mesmo tempo em que reduz outras.
Essa característica distingue a inteligência artificial de muitos setores tradicionais da economia. Durante boa parte da Revolução Industrial, o controle de determinadas matérias-primas ou de segmentos específicos da produção podia assegurar vantagens relativamente estáveis por longos períodos. A economia digital opera de maneira diferente. Seu funcionamento depende de redes altamente integradas, nas quais conhecimento científico, infraestrutura física, capital financeiro e capacidade produtiva encontram-se distribuídos por diferentes regiões do planeta. O poder deixa de concentrar-se apenas na produção do bem final e passa a depender da posição ocupada dentro dessa arquitetura.
Essa lógica ajuda a compreender por que a disputa contemporânea vai muito além do desenvolvimento de algoritmos. A competição entre as grandes potências envolve investimentos em geração de energia, mineração de minerais críticos, fabricação de semicondutores, construção de data centers, expansão de cabos submarinos, desenvolvimento de redes de telecomunicações, pesquisa científica, formação de engenheiros e fortalecimento de ecossistemas nacionais de inovação. À primeira vista, essas políticas podem parecer iniciativas independentes. Na realidade, todas procuram fortalecer diferentes camadas da infraestrutura necessária para sustentar a inteligência artificial.
Sob essa perspectiva, torna-se mais fácil compreender também a estratégia discutida nos artigos anteriores. Quando empresas chinesas disponibilizam modelos abertos de inteligência artificial, não estão necessariamente tentando substituir a liderança americana em toda a cadeia produtiva. O movimento parece responder a uma lógica diferente. Ao ampliar rapidamente a difusão de seus modelos, a China procura ocupar uma posição mais relevante justamente na camada responsável pelo desenvolvimento de aplicações, pela formação de ecossistemas tecnológicos e pela definição de padrões de utilização da inteligência artificial. Trata-se menos de conquistar um mercado específico e mais de fortalecer sua presença dentro de uma infraestrutura cuja importância continuará aumentando nas próximas décadas.
Esse movimento revela uma mudança importante na própria natureza da competição internacional. Durante boa parte da globalização, os países disputaram participação nos mercados consumidores por meio da exportação de produtos industriais, agrícolas ou tecnológicos. A inteligência artificial desloca parcialmente essa lógica. O centro da competição deixa de ser apenas a venda de bens finais e passa a envolver o controle das infraestruturas que permitirão a produção de riqueza em praticamente todos os setores econômicos. Quem ocupar posições estratégicas nessas infraestruturas exercerá influência muito além da tecnologia propriamente dita.
Essa conclusão ajuda a explicar por que governos passaram a tratar a inteligência artificial como tema de segurança nacional. Não se trata apenas de proteger empresas inovadoras ou incentivar determinado setor industrial. A questão central consiste em preservar capacidades consideradas essenciais para o funcionamento futuro da economia. Energia, semicondutores, telecomunicações, infraestrutura computacional, ciência e inteligência artificial deixam de representar políticas isoladas e passam a integrar um mesmo projeto de desenvolvimento nacional.
A pergunta que deu origem a este artigo pode, portanto, receber uma resposta diferente daquela normalmente apresentada no debate público. Nenhum país controla integralmente a inteligência artificial, porque nenhum deles domina sozinho todas as camadas necessárias para seu funcionamento. O que existe é uma disputa permanente para ampliar a influência sobre diferentes pontos dessa arquitetura global. Alguns países lideram determinadas etapas, outros concentram competências distintas, e todos procuram reduzir suas vulnerabilidades estratégicas.
Talvez seja exatamente essa a principal característica da economia política da inteligência artificial. A competição internacional já não se resume à busca pelo melhor algoritmo nem pela empresa mais inovadora. Ela passa a depender da capacidade de articular ciência, indústria, infraestrutura, energia, capital e instituições em um sistema integrado de produção de conhecimento. A inteligência artificial não substitui as antigas bases do poder econômico. Ela reorganiza a importância relativa de cada uma delas e cria uma nova arquitetura sobre a qual se desenvolverá uma parcela crescente da economia mundial.
É justamente por isso que compreender a inteligência artificial exige olhar além dos modelos de linguagem. A verdadeira disputa ocorre nas estruturas invisíveis que tornam esses modelos possíveis. Quem conseguir ocupar as posições mais relevantes nessa arquitetura não controlará apenas uma tecnologia. Exercerá influência sobre os próprios fundamentos da economia do século XXI.
Pós-Doutor em Competitividade Territorial e Indústrias Criativas, pelo Dinâmia – Centro de Estudos da Mudança Socioeconómica, do Instituto Superior de Ciencias do Trabalho e da Empresa (ISCTE, Lisboa, Portugal). Doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (2007). É Diretor Executivo do Mapa Mundi. ORCID https://orcid.org/0000-0003-1484-395X
