
A crise que envolve a Venezuela desde a captura do presidente Nicolás Maduro pelos Estados Unidos empurrou a participação do país nas organizações internacionais regionais para o centro de um debate que expõe fragilidades profundas na arquitetura de integração latino-americana. Entre essas organizações, a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), criada em 2010 para proporcionar um espaço de diálogo político independente do eixo EUA-Canadá, emergiu como palco privilegiado dessa disputa, mas também como espelho das divisões que corroem a solidariedade regional.
Logo após a operação militar norte-americana no território venezuelano, que culminou com a captura de Maduro, a CELAC foi convocada para uma reunião extraordinária, via videoconferência, com a presença de chanceleres e representantes de 32 países da América Latina e Caribe. O Brasil — que retornou ao bloco após saída no governo anterior — destacou-se na articulação diplomática ao enviar seu chanceler à reunião e ao posicionar-se criticamente em relação à ação estrangeira, afirmando que a soberania venezuelana havia sido violada e que tais atos representavam um precedente perigoso para todo o sistema internacional.
Apesar das expectativas, o encontro terminou sem um consenso claro. As posições dentro da CELAC espelham as profundas diferenças ideológicas e estratégicas que hoje dividem os governos latino-americanos. Enquanto países com governos mais alinhados a Washington celebraram a queda de Maduro e se mostraram favoráveis à leitura dos EUA de que sua ação teria como objetivo combater atividades criminosas no continente, outros Estados — como Brasil, México, Chile e Colômbia — rejeitaram a intervenção, denunciando-a como afronta à soberania e ao direito internacional.
Esse impasse dentro da CELAC revela uma crise mais ampla na diplomacia regional: a dificuldade de consolidar uma voz comum diante de agressões externas percebidas como violadoras da integridade territorial dos Estados. A própria natureza da organização, que reúne 33 países com agendas econômicas e políticas divergentes, dificulta a construção de uma resposta unificada, ainda mais quando a crise em pauta está diretamente ligada à influência dos Estados Unidos, um ator excluído formalmente da CELAC justamente por representar — em teoria — as forças hegemônicas que muitos de seus membros querem se distanciar.
A Venezuela, por sua vez, tem insistido em um protagonismo diplomático que busca transformar a CELAC em plataforma contra o que considera intervenção externa. Fontes recentes indicam que o governo venezuelano tem proposto a convocação de uma conferência urgente sobre soberania e paz no Caribe, com a expectativa de que a CELAC lidere um processo de diálogo que enfraqueça a justificativa de qualquer intervenção militar, enquanto tenta reforçar a chamada zona de paz da América Latina e Caribe, um compromisso assumido por membros do bloco em 2014.
Esse esforço, porém, esbarra não apenas nas divisões internas da CELAC, mas também nas inconsistências de uma organização que, sem mecanismos efetivos de tomada de decisão e sem uma estrutura institucional robusta semelhante à da União Europeia ou da União Africana, tem se limitado a declarações e posicionamentos simbólicos, sem capacidade de influenciar de fato os principais atores externos. A falta de poder coercitivo ou de instrumentos de mediação efetiva significa que, na prática, a crise venezuelana continua a ser debatida mais nos corredores da diplomacia e nas narrativas políticas nacionais do que em soluções coletivas concretas.
A participação da Venezuela na CELAC e em outras instâncias regionais neste momento de tensão, portanto, não se resume à defesa de um governo em dificuldades. Representa também a tentativa de reelaborar, ou pelo menos reivindicar, um espaço de autonomia política para a América Latina diante da interferência de potências externas. No entanto, o desencontro de posições dentro do próprio bloco expõe o quanto essa ambição está longe de se concretizar plenamente. À medida que a crise se aprofunda, a trajetória da Venezuela nas organizações regionais revela as limitações e contradições de uma integração que ainda não conseguiu superar as divisões ideológicas e interesses divergentes entre seus membros, suscitando dúvidas sobre o futuro do regionalismo num momento em que a unidade poderia ser um instrumento crucial para enfrentar desafios geopolíticos tão intensos
Pós-Doutor em Competitividade Territorial e Indústrias Criativas, pelo Dinâmia – Centro de Estudos da Mudança Socioeconómica, do Instituto Superior de Ciencias do Trabalho e da Empresa (ISCTE, Lisboa, Portugal). Doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (2007). É Diretor Executivo do Mapa Mundi. ORCID https://orcid.org/0000-0003-1484-395X
