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O comércio global sob regras ocidentais e o desafio brasileiro de diversificar caminhos

O sistema comercial mundial que rege fluxos de mercadorias, capitais e investimentos continua fortemente ancorado em regras, instituições e práticas moldadas pelos Estados Unidos e pelas grandes potências ocidentais ao longo do pós-Segunda Guerra Mundial. Embora esse modelo tenha sido apresentado durante décadas como neutro e universal, a forma como ele opera revela assimetrias persistentes que limitam o espaço de manobra de países em desenvolvimento, como o Brasil, especialmente em momentos de crise, disputas geopolíticas ou reconfigurações do poder global. Nesse contexto, o fortalecimento de canais alternativos de cooperação econômica e financeira, como o BRICS, surge menos como opção ideológica e mais como necessidade estratégica.

A arquitetura do comércio internacional foi construída em torno de instituições como o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial e, posteriormente, a Organização Mundial do Comércio. Ainda que essas entidades contem formalmente com a participação de dezenas de países, o peso decisório permanece concentrado nas economias centrais, que definem agendas, interpretam regras e impõem condicionalidades. Para países como o Brasil, isso se traduz em um ambiente no qual o acesso a mercados é frequentemente condicionado, políticas industriais são questionadas e margens de autonomia econômica são reduzidas sempre que colidem com interesses das grandes potências.

Ao longo das últimas décadas, essa assimetria tornou-se mais evidente. Enquanto países centrais recorrem a subsídios, barreiras não tarifárias e políticas protecionistas sofisticadas para proteger setores estratégicos, economias periféricas são pressionadas a manter mercados abertos, reduzir o papel do Estado e aceitar regras rígidas em nome da previsibilidade do sistema. O resultado é um comércio internacional que beneficia cadeias produtivas concentradas no Norte Global, ao mesmo tempo em que limita as possibilidades de industrialização, agregação de valor e diversificação produtiva em países como o Brasil.

Esse desequilíbrio se manifesta também no sistema financeiro internacional, profundamente dependente do dólar e de mecanismos de financiamento controlados por bancos e fundos sediados nos Estados Unidos e na Europa. A centralidade da moeda americana confere a Washington um poder desproporcional, permitindo o uso de sanções, restrições financeiras e controles indiretos que afetam não apenas adversários políticos, mas também parceiros comerciais. Para o Brasil, essa dependência significa vulnerabilidade cambial, exposição a choques externos e menor capacidade de formular políticas econômicas de longo prazo sem pressões externas.

É nesse cenário que o fortalecimento de arranjos alternativos ganha relevância. O BRICS, ao reunir grandes economias do Sul Global com perfis produtivos e interesses distintos, representa uma tentativa de ampliar o pluralismo institucional do sistema internacional. Mais do que um bloco comercial tradicional, o grupo busca criar mecanismos complementares ao modelo dominante, como novas fontes de financiamento, cooperação monetária e articulação política em fóruns globais. Para o Brasil, essa iniciativa abre a possibilidade de reduzir dependências históricas e ampliar seu leque de parceiros estratégicos.

A criação de instrumentos financeiros próprios, como bancos de desenvolvimento multilaterais fora do eixo tradicional, permite financiar infraestrutura, inovação e integração regional sem as condicionalidades típicas das instituições ocidentais. Isso é particularmente relevante para o Brasil, cuja agenda de desenvolvimento passa por investimentos de longo prazo em logística, energia e indústria, setores que nem sempre encontram apoio em organismos alinhados a prioridades externas. Além disso, a cooperação entre países do BRICS pode estimular o comércio em moedas locais, reduzindo custos de transação e a exposição às flutuações do dólar.

Do ponto de vista comercial, a diversificação de parcerias também amplia o espaço de negociação do Brasil. Em um sistema centrado nos interesses das grandes potências ocidentais, países médios tendem a negociar de forma reativa, adaptando-se a regras já definidas. Ao fortalecer fóruns alternativos, o Brasil aumenta sua capacidade de influenciar agendas, construir coalizões e defender interesses comuns com outras economias emergentes, seja em temas como agricultura, propriedade intelectual ou transição energética.

É importante notar que a busca por alternativas não implica ruptura com o comércio global existente, mas sim a construção de um sistema mais equilibrado. A dependência exclusiva de um modelo que tem se mostrado cada vez mais politizado e instável expõe o Brasil a riscos desnecessários. A experiência recente de guerras comerciais, sanções unilaterais e disputas tecnológicas demonstra que as regras do jogo podem ser reinterpretadas ou suspensas quando convém às potências centrais, deixando países periféricos sem instrumentos eficazes de defesa.

Ao apostar no fortalecimento do BRICS e de outros mecanismos de cooperação Sul-Sul, o Brasil sinaliza a necessidade de um comércio internacional mais plural, menos concentrado e mais sensível às necessidades de desenvolvimento. Trata-se de reconhecer que a inserção internacional brasileira não pode depender exclusivamente de estruturas criadas em outro contexto histórico e orientadas por interesses que nem sempre convergem com os nacionais. Em um mundo cada vez mais fragmentado e competitivo, diversificar canais, instituições e alianças deixa de ser uma escolha política e passa a ser um elemento central da estratégia de desenvolvimento e soberania econômica do país.

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