ISSN 2674-8053 | Receba as atualizações dos artigos no Telegram: https://t.me/mapamundiorg

Peru vive crise crônica e redefine seu lugar no mundo

O Peru atravessa uma das fases mais instáveis de sua história republicana recente, marcada por sucessivas quedas presidenciais, confrontos entre Executivo e Congresso e uma erosão contínua da confiança popular nas instituições. A eleição ontem (18/02/2026) de José María Balcázar como presidente interino, em mais um capítulo de transição emergencial, não representa uma ruptura com o ciclo de turbulência, mas sim a confirmação de um padrão político que se consolidou na última década. O país andino tornou-se um laboratório de instabilidade democrática dentro da América Latina e, ao mesmo tempo, um ator geopolítico relevante cuja fragilidade interna contrasta com sua importância estratégica global.

Nos últimos anos, o Peru acumulou uma sequência impressionante de presidentes que não concluíram seus mandatos. O mecanismo constitucional da “incapacidade moral permanente”, originalmente concebido como instrumento excepcional, converteu-se em ferramenta recorrente de disputa política. Congressos fragmentados passaram a utilizar a regra como forma de reequilibrar o poder ou simplesmente remover adversários. A destituição de Pedro Pablo Kuczynski, a queda de Martín Vizcarra, a crise explosiva envolvendo Pedro Castillo e a posterior sucessão de lideranças interinas revelam um sistema que opera em permanente estado de tensão.

A eleição de Balcázar ocorre nesse ambiente de desgaste institucional. O Congresso, protagonista central da política peruana recente, consolidou-se como árbitro supremo da sobrevivência presidencial. O resultado é um Executivo enfraquecido desde o primeiro dia de mandato, governando sob ameaça constante. Em vez de ciclos políticos previsíveis, o Peru passou a viver ciclos de sobrevivência.

As raízes dessa instabilidade são profundas. O sistema partidário peruano é notoriamente fragmentado e volátil. Diferentemente de países como Chile ou Uruguai, onde partidos tradicionais estruturam o debate político, o Peru experimenta siglas efêmeras, alianças circunstanciais e candidaturas personalistas. A ausência de partidos sólidos impede a construção de maiorias estáveis e incentiva negociações de curto prazo. O Congresso transforma-se, assim, em um campo de barganha permanente.

A desconfiança social agrava o cenário. Pesquisas de opinião mostram que tanto o Legislativo quanto o Executivo registram índices historicamente baixos de aprovação. Escândalos de corrupção, que atingiram praticamente todos os ex-presidentes nas últimas décadas, consolidaram a percepção de que o sistema político opera desconectado da população. A Operação Lava Jato, que teve forte impacto no Peru ao revelar esquemas envolvendo empresas brasileiras e lideranças locais, aprofundou essa sensação de colapso moral da elite política.

Ao mesmo tempo, o país enfrenta desafios socioeconômicos persistentes. Embora tenha sido frequentemente citado como exemplo de estabilidade macroeconômica na América do Sul, com crescimento sustentado ao longo dos anos 2000, o Peru convive com desigualdades regionais profundas. Lima concentra riqueza e infraestrutura, enquanto regiões andinas e amazônicas enfrentam precariedade histórica. Foi justamente nessas áreas que emergiram movimentos de contestação mais intensos após a destituição de Castillo, evidenciando um fosso entre o centro político e a periferia social.

Esse ambiente interno turbulento influencia diretamente o papel do Peru na geopolítica mundial. De forma passiva, o país vê sua capacidade de projeção estratégica limitada pela instabilidade doméstica. Governos interinos raramente possuem horizonte político suficiente para formular políticas externas ambiciosas. Parceiros internacionais hesitam diante da imprevisibilidade institucional. Investidores consideram o risco político ao avaliar projetos de longo prazo. Em fóruns multilaterais, a voz peruana tende a ser técnica, mas pouco propositiva.

Entretanto, reduzir o Peru a um ator irrelevante seria um erro analítico. O país ocupa posição geoeconômica estratégica. É um dos maiores produtores mundiais de cobre, mineral essencial para a transição energética global. Em um cenário internacional marcado pela disputa tecnológica entre Estados Unidos e China, o controle e fornecimento de minerais críticos tornaram-se tema central. Nesse contexto, o território peruano adquire peso desproporcional em relação ao tamanho de sua economia.

A China, nas últimas duas décadas, ampliou significativamente sua presença no Peru, investindo em mineração, energia e infraestrutura portuária. O megaprojeto do porto de Chancay, por exemplo, é visto por analistas asiáticos como peça-chave para consolidar corredores comerciais transpacíficos. Para Pequim, o Peru representa não apenas fornecedor de commodities, mas ponto logístico estratégico na América do Sul. Ao mesmo tempo, Washington observa com atenção essa expansão, buscando manter influência histórica na região andina.

Essa dinâmica coloca Lima em posição delicada. O Peru não possui tradição de alinhamento automático rígido. Sua diplomacia, historicamente pragmática, tende a diversificar parcerias. O país participa ativamente da Comunidade Andina e mantém vínculos com a Aliança do Pacífico, iniciativa que buscou aproximar economias latino-americanas da Ásia-Pacífico. Mesmo com crises internas, a burocracia diplomática peruana preserva certo profissionalismo, garantindo continuidade mínima nas relações exteriores.

Além da dimensão econômica, o Peru desempenha papel relevante em questões ambientais globais. Detentor de vasta porção da Amazônia, o país integra debates sobre preservação florestal, mudanças climáticas e desenvolvimento sustentável. Países europeus pressionam por compromissos ambientais mais rígidos, enquanto governos asiáticos enfatizam a necessidade de equilíbrio entre exploração de recursos e crescimento. O Peru encontra-se no meio desse debate, tentando conciliar demandas internacionais com pressões internas por desenvolvimento e emprego.

No âmbito regional, a instabilidade peruana gera efeitos indiretos. A América do Sul atravessa período de recomposição ideológica, com alternância entre governos de esquerda e direita. O Peru, fragmentado e imprevisível, deixa de exercer papel articulador. Diferentemente do Brasil, que busca protagonismo regional, ou da Colômbia, que redefine sua política externa sob novas orientações, Lima atua mais como participante do que como formulador de agendas.

Ainda assim, sua localização geográfica oferece vantagens estruturais. Com acesso ao Pacífico e proximidade relativa com mercados asiáticos, o Peru pode funcionar como ponte comercial entre América do Sul e Ásia. Em um mundo onde cadeias de suprimentos estão sendo redesenhadas após tensões comerciais e conflitos geopolíticos, essa posição ganha relevância. Países do Sudeste Asiático observam a região andina como fonte alternativa de matérias-primas estratégicas.

Internamente, porém, a ausência de estabilidade política compromete o aproveitamento pleno dessas oportunidades. Projetos de infraestrutura enfrentam atrasos devido a disputas regulatórias e incertezas administrativas. Reformas estruturais ficam paralisadas diante da fragilidade dos governos. A repetição de crises cria um ambiente de curto-prazismo que afasta planejamento estratégico.

A eleição interina de Balcázar simboliza essa contradição. Enquanto o mundo debate reorganização das cadeias globais, transição energética e novas rotas comerciais, o Peru dedica grande parte de sua energia política a resolver disputas internas. O contraste entre potencial geoeconômico e fragilidade institucional define o dilema central do país.

Há, contudo, um elemento de resiliência na experiência peruana. Apesar das sucessivas quedas presidenciais, o país não rompeu com a ordem constitucional. As transições, ainda que turbulentas, ocorreram dentro de mecanismos previstos na legislação. Não houve ruptura militar clássica nem fechamento prolongado das instituições. Isso sugere que, paradoxalmente, a instabilidade ocorre dentro de um arcabouço democrático formal que continua operando.

O desafio para o Peru é transformar essa sobrevivência institucional em estabilidade funcional. Sem reformas que redefinam o equilíbrio entre Executivo e Legislativo, fortaleçam partidos políticos e restabeleçam confiança social, o ciclo tende a se repetir. A geopolítica contemporânea oferece oportunidades raras para países com recursos estratégicos e posição logística privilegiada. Aproveitá-las depende menos de discursos e mais de previsibilidade.

O Peru encontra-se, portanto, em encruzilhada histórica. Sua crise política interna limita sua projeção externa, mas sua relevância econômica impede que seja ignorado. Entre a condição de ator passivo em meio às disputas das grandes potências e a possibilidade de atuar como protagonista regional na integração transpacífica, o país oscila conforme a solidez — ou fragilidade — de suas próprias instituições.

Deixe um comentário