
A história mostra que revoluções e guerras nem sempre produzem apenas confrontos diretos. Muitas vezes produzem algo mais silencioso: medo político. No final do século XVIII, quando a Revolução Francesa derrubou a monarquia e inaugurou um novo tipo de poder baseado na mobilização popular, os reis da Europa perceberam que o perigo não estava apenas em Paris. O verdadeiro risco era que o exemplo francês se espalhasse. Mais de duzentos anos depois, a recente ofensiva militar dos Estados Unidos contra o Irã e a tentativa explícita de enfraquecer ou derrubar o regime de Teerã pode produzir um fenômeno semelhante no Oriente Médio: governantes observando o que aconteceu e temendo ser os próximos.
No final de fevereiro (de 2026), uma operação militar coordenada entre Estados Unidos e Israel atingiu alvos estratégicos no Irã, incluindo instalações militares e líderes do regime. A ofensiva abriu um novo capítulo na crise regional e foi acompanhada por declarações de Washington sugerindo que a população iraniana deveria assumir o controle do país e substituir o atual governo. A operação rapidamente desencadeou retaliações iranianas contra bases americanas e aliados regionais, além de ameaças ao fluxo de petróleo no Estreito de Ormuz, um dos pontos mais estratégicos da economia mundial.
Mas o impacto político de eventos como esse não se limita ao campo de batalha. O que está em jogo é algo muito mais profundo: o sinal enviado para outros regimes da região.
A Revolução Francesa oferece um paralelo histórico interessante. Quando o rei Luís XVI foi deposto e posteriormente executado em 1793, as monarquias europeias reagiram com enorme preocupação. Não era apenas a queda de um aliado dinástico. Era a possibilidade de que o princípio revolucionário atravessasse fronteiras.
A reação foi imediata. Áustria, Prússia, Rússia e outras monarquias organizaram coalizões militares para conter a França revolucionária. Mas essa reação não era apenas militar. Era também psicológica. Governantes europeus começaram a reforçar censura, repressão política e vigilância interna para impedir que ideias revolucionárias se espalhassem entre suas próprias populações.
O medo era simples: se aconteceu em Paris, poderia acontecer em Viena, Berlim ou São Petersburgo.
Esse mesmo mecanismo político pode ser observado em outros momentos da história. Durante o século XX, por exemplo, a Revolução Russa de 1917 gerou reações semelhantes entre regimes capitalistas e monarquias da época. Muitos governos temiam que movimentos socialistas ou comunistas replicassem o modelo soviético dentro de suas próprias fronteiras.
No Oriente Médio contemporâneo, a dinâmica pode funcionar de forma parecida, ainda que com um mecanismo inverso.
Enquanto a Revolução Francesa espalhava o medo de revoltas populares, intervenções militares externas que derrubam governos podem espalhar o medo de mudança de regime promovida de fora. Quando uma potência demonstra capacidade e disposição para remover líderes considerados hostis, outros governantes passam a avaliar se também poderiam se tornar alvos.
A história recente da região reforça essa percepção. Em 2003, a invasão do Iraque pelos Estados Unidos resultou na queda de Saddam Hussein. Em 2011, a intervenção da OTAN na Líbia contribuiu para a derrubada de Muammar Gaddafi. Ambos os casos foram observados atentamente por regimes do Oriente Médio e da Ásia Central.
Para muitos deles, a conclusão foi clara: regimes que entram em confronto direto com Washington podem acabar enfrentando tentativas de mudança de governo.
Esse cálculo ajuda a explicar por que vários países da região, mesmo criticando os ataques ao Irã, evitam escalar diretamente o conflito. Estados como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos ou mesmo governos mais distantes, como o Egito, tendem a agir com extrema cautela. Uma escalada militar direta contra os Estados Unidos poderia transformá-los em alvos estratégicos.
A prudência se torna ainda mais compreensível quando se observa a fragilidade política de muitos regimes da região. Muitos governos do Oriente Médio são sustentados por equilíbrios delicados entre elites militares, grupos tribais, clérigos ou coalizões políticas frágeis. Um choque externo (especialmente um conflito com uma potência militar muito superior) poderia desestabilizar rapidamente essas estruturas.
Por isso, mesmo quando existe solidariedade política ou religiosa com o Irã, o cálculo estratégico de vários governos é evitar envolvimento direto.
Esse tipo de comportamento tem precedentes históricos. Durante as guerras revolucionárias francesas, vários estados europeus criticavam a revolução, mas evitavam ações que pudessem desencadear instabilidade interna. O medo de que suas próprias populações se inspirassem nos acontecimentos franceses era real.
Da mesma forma, no Oriente Médio atual, líderes políticos observam cuidadosamente as consequências do ataque ao Irã. A queda de um regime regional importante poderia desencadear efeitos imprevisíveis, tanto no equilíbrio de poder quanto na estabilidade interna de países vizinhos.
Há também um elemento psicológico importante nesse processo. Quando um governo percebe que outro regime foi derrubado por pressão externa, isso altera sua própria estratégia de sobrevivência. Em alguns casos, regimes passam a buscar aproximação diplomática com grandes potências para reduzir riscos. Em outros, investem mais em alianças militares ou programas de dissuasão.
O próprio programa nuclear iraniano, por exemplo, sempre foi interpretado por alguns analistas asiáticos e do Oriente Médio como um instrumento de sobrevivência do regime. A lógica é simples: países que possuem capacidade de dissuasão estratégica tornam-se muito mais difíceis de atacar.
Esse raciocínio não é exclusivo do Irã. Coreia do Norte, Índia e Paquistão também desenvolveram programas nucleares em contextos de grande insegurança geopolítica.
Ao mesmo tempo, há uma segunda camada de medo que atravessa a região: o temor de instabilidade social.
Se uma guerra prolongada enfraquecer o Estado iraniano, ela pode gerar ondas de refugiados, crises econômicas e tensões sectárias em vários países vizinhos. O Oriente Médio já experimentou algo semelhante após a guerra civil síria, que deslocou milhões de pessoas e alterou profundamente a política de países como Turquia, Jordânia e Líbano.
Por isso, muitos governos preferem observar os acontecimentos com cautela. Eles criticam, condenam ou expressam preocupação, mas evitam ações que possam transformá-los em protagonistas de um conflito maior.
De certa forma, o cenário atual lembra a atmosfera política da Europa após 1789. Não se tratava apenas de guerras entre Estados, mas de uma disputa sobre o futuro da ordem política.
Naquela época, o medo era que os povos derrubassem reis.
Hoje, em algumas regiões do mundo, o medo pode ser outro: que regimes sejam derrubados por pressões externas, operações militares ou coalizões internacionais.
Em ambos os casos, o efeito político é semelhante. Governantes observam atentamente o destino de outros governos e ajustam seu comportamento para evitar o mesmo destino.
No fundo, a política internacional muitas vezes funciona como um espelho. Quando um regime cai, todos os outros se perguntam a mesma coisa.
Quem será o próximo.
Pós-Doutor em Competitividade Territorial e Indústrias Criativas, pelo Dinâmia – Centro de Estudos da Mudança Socioeconómica, do Instituto Superior de Ciencias do Trabalho e da Empresa (ISCTE, Lisboa, Portugal). Doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (2007). É Diretor Executivo do Mapa Mundi. ORCID https://orcid.org/0000-0003-1484-395X
