
Para entender a atual guerra entre Estados Unidos e Irã é necessário voltar algumas décadas na história e compreender como esse país se transformou em um dos principais polos de oposição ao poder ocidental no Oriente Médio. O Irã não nasceu como um inimigo do Ocidente. Pelo contrário, durante boa parte do século XX foi um dos aliados estratégicos mais importantes dos Estados Unidos na região. A mudança ocorreu após uma revolução que redefiniu completamente o sistema político iraniano e criou um projeto ideológico que até hoje influencia a política internacional.
Localizado em uma região estratégica entre o Golfo Pérsico, o Cáucaso e a Ásia Central, o Irã possui uma das civilizações mais antigas do mundo. Durante séculos foi conhecido como Pérsia, nome associado a grandes impérios que dominaram extensas áreas da Ásia e influenciaram profundamente a cultura, a política e a economia da região.
No século XX, o país passou por um processo de modernização liderado pela monarquia da dinastia Pahlavi. O xá Mohammad Reza Pahlavi governava o país com forte apoio dos Estados Unidos e de potências europeias. Seu governo buscava transformar o Irã em um estado moderno, com industrialização acelerada, reformas educacionais e aproximação com o Ocidente.
Essas reformas, porém, ocorreram de maneira autoritária e geraram forte oposição interna. Muitos iranianos criticavam a repressão política, o crescimento das desigualdades sociais e a crescente influência cultural e econômica ocidental dentro do país. Ao mesmo tempo, setores religiosos viam as reformas como uma ameaça às tradições islâmicas da sociedade iraniana.
A tensão entre governo, sociedade e liderança religiosa cresceu ao longo da década de 1970 e culminou na Revolução Iraniana de 1979.
Esse evento marcou uma das maiores transformações políticas do século XX no Oriente Médio. Protestos massivos tomaram as ruas do país, envolvendo estudantes, trabalhadores, religiosos e diversos grupos políticos. A pressão popular tornou-se tão intensa que o xá acabou deixando o país.
No vazio político que se seguiu, o líder religioso aiatolá Ruhollah Khomeini retornou do exílio e assumiu a liderança do movimento revolucionário. Khomeini defendia a criação de um novo tipo de sistema político: uma república islâmica, na qual instituições republicanas coexistiriam com uma autoridade religiosa capaz de orientar o Estado segundo princípios do islamismo xiita.
Assim nasceu a República Islâmica do Irã.
O novo regime alterou profundamente a posição internacional do país. Enquanto o governo do xá era aliado estratégico dos Estados Unidos, o novo sistema político passou a definir o Ocidente como um símbolo de dominação externa e interferência nos assuntos internos do Irã.
Esse sentimento foi intensificado por um episódio que marcou profundamente as relações entre Irã e Estados Unidos: a crise dos reféns de 1979. Estudantes revolucionários ocuparam a embaixada americana em Teerã e mantiveram diplomatas dos Estados Unidos como reféns por mais de um ano. O episódio simbolizou a ruptura completa entre os dois países.
Desde então, o Irã passou a desenvolver uma política externa baseada em três pilares principais.
O primeiro é a defesa da soberania nacional contra influência externa, especialmente contra o que o regime descreve como imperialismo ocidental. A liderança iraniana frequentemente argumenta que países do Oriente Médio sofreram interferências constantes de potências estrangeiras ao longo do século XX, seja por interesses energéticos, estratégicos ou militares.
O segundo pilar é o apoio a movimentos considerados parte de uma “resistência” contra a presença ocidental na região. O Irã mantém relações políticas e, em alguns casos, militares com grupos e governos que se opõem à influência dos Estados Unidos e de seus aliados no Oriente Médio. Esse posicionamento é um dos principais motivos de tensão com Washington e com alguns países europeus.
O terceiro pilar está ligado à identidade religiosa do regime. O Irã é o principal país de maioria xiita do mundo, uma vertente do islamismo que possui diferenças históricas com o islamismo sunita predominante em vários países árabes. O governo iraniano frequentemente apresenta sua política externa como uma defesa de povos considerados oprimidos ou marginalizados na região.
Essa combinação de nacionalismo, religião e oposição à influência ocidental criou um modelo político bastante singular.
Ao longo das últimas décadas, o Irã também buscou desenvolver capacidades militares e tecnológicas próprias para garantir sua segurança em uma região marcada por conflitos e rivalidades estratégicas. Entre esses projetos está o controverso programa nuclear iraniano, que Teerã afirma ter fins pacíficos, mas que gera grande preocupação entre Estados Unidos, Israel e alguns países europeus.
Para os governos ocidentais, existe o temor de que o Irã possa desenvolver armas nucleares ou fortalecer sua influência regional por meio de alianças políticas e militares. Para a liderança iraniana, por outro lado, o desenvolvimento tecnológico e militar é visto como uma forma de proteger o país de ameaças externas e evitar que se repita a história de intervenções estrangeiras que marcaram o Oriente Médio durante o século XX.
Essas visões opostas ajudam a explicar por que as relações entre Irã e Estados Unidos permanecem tão tensas. Enquanto Washington vê o regime iraniano como uma fonte de instabilidade regional e um desafio à ordem internacional, Teerã frequentemente apresenta sua política como parte de uma luta mais ampla contra hegemonias externas e pela autonomia política dos países da região.
Essa disputa ideológica e estratégica se desenvolve em um contexto geopolítico extremamente sensível. O Irã ocupa uma posição central no Golfo Pérsico, região responsável por uma parcela significativa da produção mundial de petróleo. Qualquer conflito envolvendo o país pode afetar diretamente o equilíbrio energético global.
Além disso, o país possui uma população grande, uma estrutura estatal relativamente consolidada e capacidade de influenciar diferentes atores políticos no Oriente Médio.
Esses fatores fazem com que o Irã seja ao mesmo tempo um dos estados mais importantes da região e um dos mais controversos nas relações internacionais contemporâneas.
Para quem observa os acontecimentos atuais, entender essa trajetória histórica é fundamental. A guerra e as tensões entre Estados Unidos e Irã não surgiram de forma repentina. Elas são resultado de décadas de transformações políticas, disputas ideológicas e conflitos geopolíticos que começaram com uma revolução que mudou completamente o destino do país e o equilíbrio de poder no Oriente Médio.
Pós-Doutor em Competitividade Territorial e Indústrias Criativas, pelo Dinâmia – Centro de Estudos da Mudança Socioeconómica, do Instituto Superior de Ciencias do Trabalho e da Empresa (ISCTE, Lisboa, Portugal). Doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (2007). É Diretor Executivo do Mapa Mundi. ORCID https://orcid.org/0000-0003-1484-395X
