
A arquitetura internacional atual atravessa um processo de corrosão acelerada, e uma parte importante dessa deterioração passa pela forma como os Estados Unidos têm atuado. No plano global, isso aparece na normalização de sanções unilaterais, na pressão sobre terceiros países, na instrumentalização de alianças e na substituição de fóruns multilaterais por decisões de força. No plano regional, especialmente na América Latina, o efeito é ainda mais visível: em vez de fortalecer mecanismos próprios de concertação, Washington tem empurrado a região para uma lógica de alinhamento, securitização e disputa geopolítica. O resultado não é ordem. É instabilidade.
O problema central é que a arquitetura global depende de previsibilidade, regras e algum respeito à soberania. Quando grandes potências tratam sanções, coerção econômica e pressão diplomática como instrumentos rotineiros, o sistema deixa de funcionar como ordem jurídica e passa a operar como correlação de forças. Um relatório apresentado à ONU em 2025 alertou que sanções unilaterais, sanções secundárias e o excesso de cumprimento por bancos e empresas estão erodindo direitos econômicos e sociais, inclusive em terceiros países. Em paralelo, a Cepal tem insistido que a América Latina entra em 2026 com baixo crescimento, maior vulnerabilidade externa e impacto direto da fragmentação geoeconômica. Em outras palavras, a região chega enfraquecida justamente quando o ambiente internacional se torna mais coercitivo.
Na América Latina, essa destruição da arquitetura regional ocorre porque os EUA não atuam apenas como parceiro externo: atuam frequentemente como força que reorganiza prioridades domésticas e interestatais. Em vez de incentivar um arranjo latino-americano mais autônomo, Washington tende a empurrar os países para uma agenda definida por segurança, contenção de adversários, migração e competição com a China. Esse enquadramento transforma a região de sujeito político em espaço de disputa. Uma análise recente da Americas Quarterly resumiu esse movimento ao notar que a política dos EUA para a região está cada vez mais ligada à estratégia global de contenção da China. Uma discussão promovida pelo Inter-American Dialogue com especialistas da América Latina e do Sudeste Asiático também registrou o aumento da pressão causada pela rivalidade EUA-China sobre as escolhas dos países latino-americanos.
Isso ajuda a entender por que a região tenta, ainda que com dificuldade, preservar organismos próprios. Na IX Cúpula da CELAC, realizada em Tegucigalpa em 9 de abril de 2025, os governos reiteraram o compromisso de fortalecer a CELAC como mecanismo de concertação política que reúne todos os países da região. O gesto é importante porque a CELAC existe justamente como tentativa de coordenação sem tutela externa. Quando Washington amplia pressões bilaterais e força alinhamentos, ele esvazia esse tipo de espaço, fragmenta consensos regionais e torna mais difícil a construção de posições comuns sobre comércio, infraestrutura, energia e segurança.
A OEA é um exemplo eloquente dessa crise. Em 2025, a organização entrou numa nova fase com a eleição de Albert Ramdin, do Suriname, primeiro secretário-geral oriundo da CARICOM. O simples fato de essa mudança ter sido tratada como “novo capítulo” e “encruzilhada” por analistas regionais revela o desgaste acumulado da instituição. A OEA continua formalmente central, mas sua legitimidade foi corroída por anos de percepção de alinhamento excessivo à agenda de Washington. Quando um organismo regional perde credibilidade, a consequência não é apenas diplomática: a região perde capacidade de administrar suas próprias crises.
O caso do Panamá é talvez o mais didático entre os episódios recentes. Em 2025, a pressão dos EUA sobre o Canal e sobre a presença chinesa no país elevou a temperatura política de forma incomum. O governo panamenho acusou Washington de divulgar falsidades sobre supostas concessões de pedágio, enquanto a Autoridade do Canal anunciou um acordo de segurança assinado com o secretário de Defesa dos EUA. A reação doméstica foi forte: houve protestos relevantes e debate público sobre soberania. Mesmo quando não há intervenção clássica, o recado é claro: infraestrutura estratégica latino-americana volta a ser tratada como tema de tutela hemisférica. Isso não estabiliza a região; ao contrário, introduz ruído, polarização e insegurança institucional.
As sanções são outro eixo de desorganização. Os EUA mantêm embargo abrangente contra Cuba há mais de seis décadas e seguem atualizando listas de restrições a entidades e acomodações cubanas. Em outubro de 2025, a Assembleia Geral da ONU voltou a pedir o fim do embargo. Na Nicarágua, Washington anunciou novas sanções em fevereiro de 2026. Na Venezuela, as sanções seguem como instrumento permanente da política americana. Cada caso tem sua especificidade política, mas o padrão é o mesmo: em vez de fortalecer mediação regional, negociação e soluções multilaterais, recorre-se à punição econômica e ao estrangulamento financeiro. Isso aprofunda o isolamento, endurece governos, pressiona populações e contamina o ambiente regional.
O efeito colateral mais grave é que esses instrumentos desorganizam não apenas os países-alvo, mas o entorno inteiro. Um relatório regional de proteção para América Latina e Caribe observou que as narrativas migratórias e de segurança estão cada vez mais moldadas por preocupações de ordem pública, com redução de vias de proteção e regularização. Isso significa que a instabilidade criada ou agravada por pressões econômicas e políticas não fica contida dentro das fronteiras do país sancionado. Ela se espalha por fluxos migratórios, por tensões diplomáticas e pela radicalização do debate interno em países vizinhos.
O Haiti expõe outro aspecto da crise: a tendência de externalizar soluções de segurança sem reconstruir capacidade estatal legítima. Os EUA vêm defendendo coordenação entre OEA, CARICOM e ONU em torno da crise haitiana, insistindo numa resposta “haitiana”, mas o histórico recente mostra missões frágeis, financiamento insuficiente e forte dependência de desenho externo. Em setembro de 2025, o Conselho de Segurança aprovou uma força mais robusta após os limites da missão liderada pelo Quênia, apoiada financeiramente por Washington. O problema não é reconhecer a gravidade haitiana. O problema é insistir em fórmulas securitárias que não resolvem a base política e social da crise e, ainda por cima, reforçam a ideia de que o Caribe deve ser administrado por arranjos desenhados fora dele.
Há também um dano estratégico de longo prazo. Ao pressionar a região para escolher lados, os EUA enfraquecem a possibilidade de uma inserção internacional pragmática e diversificada. Países latino-americanos tentam ampliar laços com China, Índia, União Europeia e mecanismos Sul-Sul não por ideologia, mas por necessidade de margem de manobra. Quando Washington transforma quase toda aproximação externa da região em problema de segurança, ele sabota a autonomia latino-americana e acelera a fragmentação. Uma leitura asiática e latino-americana recorrente hoje é justamente esta: a rivalidade entre grandes potências está sendo projetada sobre terceiros espaços, e a América Latina virou um desses tabuleiros.
Por isso, a crítica à atuação dos EUA não é retórica antiamericana. É uma crítica funcional. A região precisa de previsibilidade, financiamento, infraestrutura, integração física, coordenação energética e instituições que consigam administrar conflito sem submissão. O que recebe, muitas vezes, é pressão bilateral, agenda de segurança, sanções, disputa por corredores logísticos e um enquadramento geopolítico que reduz sua autonomia. Em uma região que, segundo a Cepal, já enfrenta baixo crescimento e maior vulnerabilidade externa, esse tipo de conduta é especialmente destrutivo.
A arquitetura global está sendo corroída porque as regras perderam centralidade diante da coerção. E a arquitetura regional latino-americana está sendo corroída porque seus espaços próprios continuam sendo enfraquecidos por pressões externas e divisões induzidas. A consequência é uma América Latina mais exposta, mais polarizada e mais incapaz de falar com voz própria. Quando a potência hemisférica atua como estabilizador apenas para seus interesses e não para o equilíbrio coletivo, ela não protege a ordem. Ela ajuda a desmontá-la.
Pós-Doutor em Competitividade Territorial e Indústrias Criativas, pelo Dinâmia – Centro de Estudos da Mudança Socioeconómica, do Instituto Superior de Ciencias do Trabalho e da Empresa (ISCTE, Lisboa, Portugal). Doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (2007). É Diretor Executivo do Mapa Mundi. ORCID https://orcid.org/0000-0003-1484-395X
