
A ideia de que países produtores possam se organizar para controlar oferta, preços e cadeias estratégicas não é nova, mas continua sendo tratada como exceção no debate internacional. A Organização dos Países Exportadores de Petróleo transformou-se, ao longo de décadas, em um exemplo concreto de como recursos naturais podem ser convertidos em poder político e econômico. Fora do petróleo, no entanto, essa lógica raramente é aplicada com a mesma ambição. Para países como o Brasil, essa ausência não é apenas uma lacuna institucional. É uma oportunidade histórica negligenciada.
O Brasil ocupa posições centrais em diversos mercados globais. É líder ou protagonista na produção de soja, carne bovina, café, açúcar, minério de ferro e, cada vez mais, em produtos ligados à transição energética, como lítio e nióbio. Ainda assim, sua inserção internacional nesses setores continua marcada por uma lógica primário-exportadora clássica: vende-se volume, mas não se organiza poder. Diferentemente da OPEP, que atua deliberadamente para influenciar preços e fluxos globais, os produtores agrícolas e minerais operam de forma fragmentada, frequentemente competindo entre si em vez de coordenar interesses comuns.
A possibilidade de criação de organizações internacionais de commodities, inspiradas no modelo da OPEP, surge nesse contexto como uma alternativa capaz de redefinir a posição do Brasil no sistema internacional. Não se trata apenas de elevar preços ou restringir oferta, mas de construir mecanismos de coordenação política entre países produtores, capazes de influenciar padrões de comércio, sustentabilidade, tecnologia e até financiamento.
O caso da soja é emblemático. Brasil, Estados Unidos e Argentina concentram grande parte da produção global. No entanto, não existe um arranjo institucional robusto que permita a esses países coordenarem estratégias. Pelo contrário, a competição por mercados como China e União Europeia frequentemente leva à redução de margens e à flexibilização de padrões ambientais e trabalhistas. Se houvesse uma organização internacional da soja, com regras mínimas de produção e exportação, esses países poderiam não apenas estabilizar preços, mas também impor condições ao mercado global.
Algo semelhante poderia ser pensado para o café. Historicamente, houve tentativas de coordenação, como o Acordo Internacional do Café, que buscava regular oferta e preços. Com o tempo, esse sistema foi enfraquecido, e o mercado voltou a uma lógica mais liberalizada. O resultado foi maior volatilidade e perda de renda para produtores, especialmente em países africanos e latino-americanos. Uma nova organização, adaptada às condições contemporâneas, poderia retomar essa agenda sob novas bases, incorporando temas como sustentabilidade e valor agregado.
Na mineração, o cenário é ainda mais promissor. O Brasil possui reservas estratégicas de nióbio, mineral essencial para ligas metálicas avançadas, além de participação relevante no mercado de minério de ferro. Em um mundo que caminha para a transição energética, minerais críticos tornam-se ativos geopolíticos. Países africanos, como a República Democrática do Congo, dominam a produção de cobalto. O Chile é central no cobre. A Bolívia e a Argentina aparecem no lítio. A ausência de uma coordenação entre esses países contrasta com a crescente demanda global e com o interesse de grandes potências em garantir acesso estável a esses recursos.
A criação de uma “OPEP dos minerais críticos” não é apenas uma hipótese teórica. Ela já aparece em debates políticos e acadêmicos em diferentes regiões. Na África, há discussões sobre maior coordenação na exportação de recursos estratégicos, justamente para evitar a repetição de ciclos históricos de exploração sem desenvolvimento local. Na Ásia, países como a Indonésia têm adotado políticas mais assertivas, restringindo exportações de minério bruto para estimular a industrialização interna.
O Brasil poderia desempenhar papel central nesse tipo de articulação. Sua tradição diplomática, combinada com sua relevância produtiva, o coloca em posição privilegiada para liderar iniciativas desse tipo. No entanto, isso exigiria uma mudança de mentalidade. Em vez de enxergar commodities apenas como fonte de divisas, seria necessário tratá-las como instrumentos de poder.
Há, evidentemente, desafios significativos. A coordenação entre países produtores não é simples. Diferenças políticas, econômicas e institucionais podem dificultar a construção de consensos. Além disso, consumidores e grandes economias tenderiam a reagir negativamente a qualquer tentativa de cartelização, utilizando instrumentos comerciais, diplomáticos e até regulatórios para conter esse movimento.
Outro ponto crítico é o risco de dependência excessiva. A OPEP, embora bem-sucedida em muitos aspectos, também enfrentou problemas internos, como disputas entre membros e dificuldades em manter disciplina de produção. Além disso, a dependência do petróleo expôs seus integrantes a choques de demanda e a mudanças estruturais, como a transição energética. Uma organização de commodities liderada pelo Brasil precisaria aprender com essas experiências, buscando diversificação e flexibilidade.
Apesar desses desafios, o cenário internacional atual torna essa discussão cada vez mais relevante. A fragmentação da ordem global, a crescente competição por recursos e a busca por cadeias de suprimento mais seguras criam um ambiente no qual países produtores podem ter maior margem de manobra. Em vez de aceitar passivamente as regras do mercado, há espaço para influenciá-las.
A América Latina, em particular, poderia se beneficiar de uma abordagem mais coordenada. Países como Brasil, Argentina, Chile e Peru compartilham características econômicas e desafios estruturais semelhantes. Uma articulação regional em torno de commodities poderia fortalecer a posição do bloco em negociações internacionais e reduzir a vulnerabilidade a choques externos.
No entanto, isso exige superar rivalidades históricas e construir uma visão comum de desenvolvimento. Não se trata apenas de criar organizações formais, mas de estabelecer confiança e objetivos compartilhados. Sem isso, qualquer tentativa de coordenação tende a se fragmentar rapidamente.
O debate sobre organizações internacionais de commodities revela, em última instância, uma questão mais ampla: como países ricos em recursos naturais podem transformar essa riqueza em poder político e desenvolvimento sustentável. A experiência da OPEP mostra que isso é possível, mas não inevitável. Depende de escolhas estratégicas, capacidade de coordenação e visão de longo prazo.
Para o Brasil, a pergunta não é se esse caminho é viável, mas se há disposição política para percorrê-lo. Em um mundo cada vez mais competitivo e fragmentado, continuar atuando de forma isolada em mercados nos quais já possui protagonismo pode significar abrir mão de uma das poucas vantagens estruturais de que dispõe.
Pós-Doutor em Competitividade Territorial e Indústrias Criativas, pelo Dinâmia – Centro de Estudos da Mudança Socioeconómica, do Instituto Superior de Ciencias do Trabalho e da Empresa (ISCTE, Lisboa, Portugal). Doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (2007). É Diretor Executivo do Mapa Mundi. ORCID https://orcid.org/0000-0003-1484-395X
