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O ouro do século XXI e a urgência de uma estatal brasileira para as terras raras

O Brasil possui uma das maiores reservas de terras raras do planeta, mas ainda não possui uma estratégia nacional capaz de transformar essa riqueza geológica em poder econômico, tecnológico e geopolítico. Em um mundo que avança rapidamente para a eletrificação da economia, a inteligência artificial, a indústria de defesa de alta tecnologia e a transição energética, a ausência de uma empresa estatal dedicada ao setor pode condenar o país a repetir um velho padrão histórico: exportar matéria-prima barata e importar produtos industrializados de alto valor agregado.

As chamadas terras raras são um grupo de 17 elementos químicos fundamentais para a produção de baterias, veículos elétricos, turbinas eólicas, equipamentos médicos, sistemas de comunicação, semicondutores, radares, mísseis e praticamente toda a infraestrutura tecnológica avançada do século XXI. Apesar do nome, muitas dessas substâncias não são exatamente raras. O verdadeiro desafio está na sua extração, separação, processamento e transformação industrial, etapas que exigem conhecimento tecnológico sofisticado e grandes investimentos.

Hoje, a China domina amplamente essa cadeia produtiva. Embora outros países possuam reservas significativas, os chineses construíram durante décadas uma estratégia nacional que envolveu planejamento estatal, investimento em pesquisa, desenvolvimento industrial e controle sobre etapas críticas da produção. Como resultado, Pequim não apenas extrai terras raras, mas controla o refino e a fabricação dos componentes mais valiosos derivados desses minerais.

A importância dessa posição ficou evidente em diferentes momentos da última década. Em meio às disputas comerciais entre China e Estados Unidos, autoridades chinesas deixaram claro que poderiam utilizar seu domínio sobre as terras raras como instrumento de pressão geopolítica. Isso gerou preocupação em Washington, Bruxelas, Tóquio e outras capitais que perceberam a dependência excessiva de um único fornecedor para setores estratégicos de suas economias.

Os Estados Unidos reagiram lançando programas para reconstruir sua capacidade produtiva. A União Europeia passou a tratar as terras raras como matéria-prima crítica para sua segurança econômica. O Japão ampliou investimentos em mineração e reciclagem desses minerais. A Coreia do Sul seguiu caminho semelhante, buscando reduzir vulnerabilidades em cadeias produtivas consideradas essenciais.

Enquanto isso, o Brasil permanece numa posição contraditória. O país possui reservas relevantes e potencial para se tornar um dos principais atores globais do setor, mas ainda carece de um projeto nacional consistente. Existem iniciativas privadas e projetos de mineração em andamento, porém a ausência de coordenação estratégica reduz significativamente o potencial econômico e tecnológico dessa riqueza.

A criação de uma empresa estatal especializada em terras raras poderia preencher exatamente essa lacuna. O objetivo não seria substituir o setor privado, mas liderar uma política nacional de longo prazo, coordenando investimentos, pesquisa científica, formação de mão de obra especializada e desenvolvimento industrial.

A experiência internacional mostra que recursos estratégicos dificilmente são deixados exclusivamente sob a lógica de mercado. A Arábia Saudita utiliza sua estatal petrolífera como instrumento de desenvolvimento nacional. A Noruega transformou sua riqueza energética em um dos maiores fundos soberanos do mundo. A China emprega empresas estatais para executar objetivos estratégicos definidos pelo governo. Mesmo países tradicionalmente liberais mantêm forte presença estatal em setores considerados críticos para a segurança nacional.

O Brasil já possui exemplos semelhantes. A Petrobras foi criada quando o petróleo era visto como recurso essencial para a soberania nacional. Ao longo de décadas, a empresa desenvolveu tecnologias que colocaram o país entre os líderes mundiais em exploração em águas profundas. A Embraer, embora posteriormente privatizada, também nasceu de um projeto estatal voltado para a construção de capacidades tecnológicas nacionais.

Uma estatal dedicada às terras raras poderia desempenhar papel semelhante. Além da exploração mineral, ela poderia atuar na pesquisa de novas tecnologias de processamento, no estabelecimento de parcerias com universidades, na formação de centros de excelência e na atração de investimentos industriais para o território brasileiro.

O aspecto tecnológico é especialmente importante. O maior valor econômico das terras raras não está na extração do minério bruto. Está na transformação desse material em ímãs permanentes, componentes eletrônicos, baterias avançadas e equipamentos de alta tecnologia. Se o Brasil limitar sua atuação à exportação da matéria-prima, continuará ocupando a posição menos lucrativa da cadeia produtiva.

A história econômica brasileira oferece diversos exemplos desse problema. Durante séculos, o país exportou açúcar, ouro, café, borracha, minério de ferro e diversos outros recursos naturais sem desenvolver integralmente as cadeias industriais associadas. O resultado foi a captura da maior parte do valor agregado por economias mais industrializadas.

O cenário atual oferece uma oportunidade rara para romper esse padrão. A crescente demanda global por veículos elétricos, energia renovável, centros de dados, inteligência artificial e equipamentos militares avançados deverá aumentar significativamente o consumo de terras raras nas próximas décadas. Diversas projeções internacionais apontam para um crescimento acelerado desse mercado, impulsionado pela disputa tecnológica entre as grandes potências.

Além da dimensão econômica, existe uma questão de segurança nacional. Em um ambiente internacional marcado pela competição entre Estados Unidos e China, o acesso a recursos estratégicos tornou-se parte central das políticas de defesa e desenvolvimento. Países que controlam matérias-primas críticas ganham influência nas negociações internacionais e ampliam sua autonomia estratégica.

O Brasil frequentemente busca maior protagonismo global. Discute reformas em organismos internacionais, defende um mundo multipolar e reivindica maior espaço nas decisões globais. Entretanto, influência internacional não é construída apenas por discursos diplomáticos. Ela depende também da capacidade de controlar ativos estratégicos valorizados pelo restante do mundo.

Uma estatal de terras raras poderia servir como instrumento para essa projeção internacional. O país teria condições de negociar acordos tecnológicos, estabelecer parcerias industriais e participar de cadeias globais de valor em posição muito mais favorável do que a atual.

Naturalmente, a simples criação de uma empresa estatal não resolveria todos os desafios. O histórico brasileiro demonstra que empresas públicas podem sofrer com problemas de gestão, interferência política excessiva e baixa eficiência. Por isso, a discussão central não deve ser apenas sobre criar uma estatal, mas sobre construir uma estratégia nacional clara.

Essa estratégia precisaria estabelecer objetivos de longo prazo. Seria necessário definir quais minerais receberiam prioridade, quais tecnologias deveriam ser desenvolvidas internamente, quais setores industriais seriam estimulados e quais parcerias internacionais interessariam ao país. Também seria fundamental criar mecanismos de governança capazes de proteger a empresa contra ciclos políticos de curto prazo.

Outro ponto essencial seria a integração entre mineração, indústria e pesquisa científica. O Brasil possui universidades e centros de pesquisa com capacidade relevante, mas frequentemente desconectados das necessidades produtivas. Uma estratégia nacional para terras raras poderia aproximar esses atores e acelerar a transformação do conhecimento científico em inovação econômica.

O desafio ambiental também precisaria ser enfrentado com seriedade. A mineração de terras raras pode gerar impactos significativos se não for conduzida adequadamente. Uma empresa estatal poderia estabelecer padrões rigorosos de sustentabilidade e criar tecnologias que minimizassem danos ambientais, transformando o Brasil em referência internacional em mineração responsável.

O mundo está entrando em uma nova corrida por recursos estratégicos. Assim como o petróleo definiu grande parte da geopolítica do século XX, as terras raras tendem a ocupar posição semelhante em várias dimensões da economia do século XXI. Países que compreenderem essa transformação e construírem políticas consistentes terão vantagens duradouras.

O Brasil possui os recursos naturais, a base científica e a dimensão econômica necessárias para ocupar posição de destaque nesse mercado. O que ainda falta é uma visão estratégica capaz de transformar potencial em poder real. Sem planejamento, as terras raras poderão se tornar apenas mais um capítulo da longa história de exportação de riqueza bruta. Com uma estratégia nacional bem definida e uma estatal preparada para liderar esse processo, elas podem se converter em um dos pilares do desenvolvimento brasileiro nas próximas décadas.

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