
Existe uma ideia que acompanha o pensamento econômico desde seus primeiros formuladores e que continua orientando grande parte das decisões de empresas e governos. Mercados funcionam porque determinados recursos são escassos. Quanto menor a disponibilidade de um bem desejado, maior tende a ser seu valor econômico. Essa lógica explica a formação dos preços de matérias-primas, o comportamento dos mercados financeiros e, sobretudo, o esforço permanente das empresas para desenvolver tecnologias exclusivas. Inovar sempre significou criar uma nova escassez. Enquanto poucos dominam determinado conhecimento ou tecnologia, é possível obter retornos extraordinários decorrentes dessa vantagem competitiva.
A economia digital foi construída, em grande medida, sobre esse mesmo princípio. Empresas como Microsoft, Oracle, Adobe e SAP consolidaram sua posição mundial protegendo softwares proprietários e monetizando o acesso a essas soluções. Mais recentemente, a inteligência artificial passou a seguir trajetória semelhante. Os grandes modelos de linguagem transformaram-se em ativos altamente valorizados porque representavam capacidades raras. Desenvolver um modelo mais sofisticado significava oferecer algo que poucos concorrentes conseguiam reproduzir. O valor econômico encontrava-se justamente nessa exclusividade.
Os acontecimentos recentes, entretanto, sugerem que essa lógica pode estar começando a mudar. A rápida evolução dos modelos abertos, acompanhada pela redução contínua dos custos de utilização da inteligência artificial, indica que a tecnologia caminha para uma situação muito diferente daquela observada apenas alguns anos atrás. Não se trata de uma desaceleração da inovação. Pelo contrário. A inteligência artificial continua evoluindo em ritmo acelerado. O que parece estar mudando é a natureza econômica dessa inovação. À medida que sistemas altamente sofisticados passam a estar disponíveis para um número crescente de organizações, a inteligência artificial deixa gradualmente de ser um recurso raro e aproxima-se da condição de infraestrutura.
Essa transformação merece atenção porque modifica profundamente a forma como o valor é produzido. A história econômica demonstra que toda tecnologia que alcança ampla difusão perde parte de sua capacidade de diferenciar competidores. A eletricidade continua sendo indispensável para praticamente todas as atividades produtivas, mas nenhuma empresa constrói hoje sua estratégia a partir do acesso exclusivo à energia elétrica. O mesmo ocorre com a internet. Sua importância jamais foi tão grande, porém ela deixou de representar uma vantagem competitiva isolada justamente porque se tornou universal. Tudo indica que a inteligência artificial poderá seguir trajetória semelhante.
Caso esse movimento se consolide, uma consequência importante começará a aparecer. O acesso à inteligência artificial deixará de ser o principal fator de diferenciação entre empresas. O verdadeiro diferencial passará a residir na capacidade de integrar essa inteligência aos processos produtivos, reorganizar estruturas decisórias, desenvolver aplicações específicas e combinar conhecimento humano com sistemas automatizados. Em outras palavras, o recurso escasso deixará de ser a inteligência propriamente dita e passará a ser a competência para utilizá-la de maneira superior.
Essa mudança permite compreender um fenômeno que, à primeira vista, parece contraditório. Durante décadas, o conhecimento especializado constituiu um dos principais ativos das organizações. Escritórios de advocacia, consultorias, instituições financeiras e empresas de engenharia construíram parte de seu valor justamente porque concentravam competências difíceis de reproduzir. A inteligência artificial não elimina a importância desse conhecimento, mas reduz significativamente seu custo de acesso. Capacidades intelectuais que antes exigiam anos de formação passam a estar disponíveis instantaneamente para milhões de pessoas. A escassez desloca-se para outro lugar.
Esse deslocamento já ocorreu em diferentes momentos da história. Quando a imprensa ampliou extraordinariamente a circulação de livros, possuir informação deixou de representar um privilégio tão exclusivo quanto antes. Com o surgimento da internet, o problema deixou de ser encontrar informação e passou a consistir em selecionar aquilo que realmente possuía qualidade. A inteligência artificial produz uma transformação semelhante. Ao democratizar o acesso a determinadas capacidades cognitivas, ela reduz o valor econômico da simples disponibilidade de conhecimento e aumenta a importância da capacidade de julgamento, coordenação e aplicação desse conhecimento em contextos específicos.
Essa talvez seja uma das razões pelas quais tantas previsões sobre a substituição integral do trabalho humano parecem excessivamente simplificadoras. A inteligência artificial reduz o custo de produzir respostas, mas não elimina a necessidade de formular problemas relevantes. Facilita análises complexas, mas não substitui decisões que envolvem objetivos, prioridades e responsabilidades. Automatiza inúmeras tarefas intelectuais, mas continua dependendo de organizações capazes de integrar tecnologia, pessoas e estratégia em um mesmo sistema de produção de valor.
Sob essa perspectiva, a principal fonte de riqueza da próxima década talvez não seja a inteligência artificial em si, mas a capacidade institucional de reorganizar processos para utilizá-la de forma eficiente. Empresas que conseguirem integrar cultura organizacional, dados, tecnologia e tomada de decisão produzirão ganhos expressivos de produtividade, mesmo utilizando modelos semelhantes aos de seus concorrentes. Da mesma forma, organizações incapazes de realizar essa integração dificilmente alcançarão resultados superiores apenas porque possuem acesso às ferramentas mais avançadas.
Essa conclusão amplia significativamente a discussão desenvolvida nos artigos anteriores. Se a inteligência artificial está deixando de ser um produto para tornar-se infraestrutura, a competição internacional também deixa de concentrar-se apenas no desenvolvimento tecnológico. O diferencial passa a depender da qualidade das instituições, da formação de capital humano, da capacidade de inovação das empresas, da infraestrutura energética, do ambiente regulatório e da coordenação entre diferentes setores da economia. A disputa deixa de ocorrer apenas entre laboratórios de pesquisa e passa a envolver sociedades inteiras.
Talvez seja exatamente esse o aspecto mais transformador da inteligência artificial. Ela não inaugura apenas uma nova tecnologia, mas modifica os próprios fundamentos sobre os quais o capitalismo produziu vantagens competitivas nas últimas décadas. A escassez não desaparece, porque ela sempre continuará existindo em algum lugar da economia. O que muda é sua localização. À medida que a inteligência se torna abundante, passam a adquirir maior valor os elementos que permitem organizá-la, orientá-la e transformá-la em ação coletiva.
É justamente nesse ponto que a inteligência artificial deixa de ser apenas um tema tecnológico. Ela passa a representar uma nova etapa da própria evolução do capitalismo, na qual o recurso econômico mais valioso talvez já não seja produzir inteligência, mas construir as instituições capazes de convertê-la em desenvolvimento, produtividade e poder.
Pós-Doutor em Competitividade Territorial e Indústrias Criativas, pelo Dinâmia – Centro de Estudos da Mudança Socioeconómica, do Instituto Superior de Ciencias do Trabalho e da Empresa (ISCTE, Lisboa, Portugal). Doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (2007). É Diretor Executivo do Mapa Mundi. ORCID https://orcid.org/0000-0003-1484-395X
